Os 100 anos da estrada eletrificada do Corcovado

Obra revela como a modernidade chegou à região, duas décadas antes de o Cristo [br]Redentor ser erguido

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2011 | 00h00

A modernidade chegou duas décadas antes de a famosa estátua do Cristo Redentor ser erguida no topo do Corcovado e se tornar símbolo do Rio. Há 100 anos, a estrada de ferro, construída ainda no século 19, foi totalmente eletrificada. As locomotivas a vapor foram aposentadas e substituídas por três locomotivas elétricas em uma obra promovida pela The Rio de Janeiro Tramway Light & Power Co. Ltda, usando a energia da usina elétrica de Fontes, em Piraí. A Estrada de Ferro do Corcovado, a primeira eletrificada do País, foi fundamental para tornar o morro uma grande atração para os cariocas.

Para celebrar a data, a Memória da Eletricidade lançou o livro Estrada de Ferro do Corcovado - 100 anos de Eletrificação, uma minuciosa pesquisa histórica, recheada com 83 imagens e fotos de época. "A construção da estrada de ferro foi uma obra muito ousada para a época. E a sua eletrificação foi um marco", define Leila Lobo de Mendonça, historiadora e museóloga que coordenou o projeto. O livro não conta apenas esta história, mas mostra também o fascínio que o Corcovado, mesmo antes da estátua do Cristo Redentor, sempre exerceu entre os brasileiros.

A ocupação do Corcovado, em uma privilegiada área de 32 quilômetros quadrados de floresta com vista fantástica para a cidade, começou ainda no século 19. A primeira trilha morro acima no meio da mata foi aberta por ordem de d. Pedro I. Deslumbrado com a vista, o imperador mandou construir em 1824 um parapeito. O lugar virou não só um ponto estratégico para a proteção da cidade, como, é claro, um ponto de turismo e lazer.

Cinquenta anos depois, a chegada ao Corcovado ficou mais fácil. Graças aos engenheiros Pereira Passos, que anos depois faria a grande reforma urbana do Rio como prefeito, e João Teixeira Soares, foi construída a primeira estrada de ferro da América Latina com fins turísticos.

Um sucesso para a época. A inauguração foi badalada e contou com a presença do imperador d. Pedro II. Na época, o jornal O Paiz narrou a emoção dos convidados quando a "máquina começou a sua ascensão laboriosa, fazendo-nos subir, com uma velocidade de 4 quilômetros por hora, essas rampas atrevidas". Foram 40 minutos de pura emoção e uma constatação de que "a população vai invadir o Corcovado. O pico altaneiro está ao alcance de todos".

A invasão demorou mais de duas décadas. Durante anos, o serviço amargou prejuízo, mas bastou a primeira viagem experimental da estrada de ferro eletrificada, em 6 de janeiro de 1910, para aumentar consideravelmente a procura. Apenas no primeiro ano foram transportados 47.919 passageiros para não só admirar a fantástica vista da cidade do alto do Corcovado, como também para se deliciar com o caminho mata adentro. Foi a primeira vez na história da estrada de ferro que o projeto deu lucro.

Estátua. O belo livro escrito por Leila Lobo de Mendonça e Liliana Neves Cordeiro de Mello narra também a saga de construção da estátua do Cristo Redentor, inaugurada em 12 de outubro de 1931, as dificuldades econômicas do empreendimento ao longo dos anos, os períodos de abandono e descaso, as obras de restauração, a privatização do trenzinho nos anos 80 e a consolidação do complexo turístico como uma marca registrada carioca. "O Cristo é sempre muito badalado, mas, de um modo geral, não se ressalta a ideia de que para fazer a estátua foi preciso antes a estrada de ferro", diz Liliana. O lapso agora está corrigido.

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