Órgãos de crianças mortas em Franca são transplantados

Pai atirou contra três filhos, mulher e mãe e, logo depois, se matou; mulher e menina seguem internadas

Brás Henrique, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2008 | 18h54

Os fígados dos irmãos Alexandre e Letícia Rezende, que tiveram mortes cerebrais diagnosticadas no sábado, na Santa Casa de Franca, foram transplantados nesta segunda-feira, 27, em Ribeirão Preto e Sorocaba. Dois homens - um de 51 anos, de Uberaba (MG), que estava na fila há cerca de um mês, e outro de 50 anos, de Sorocaba, que tinha cirrose hepática - receberam os órgãos. Os receptores dos rins foram definidos à tarde. Os corpos das crianças foram sepultados também nesta segunda. Júlia, irmã gêmea de Letícia, está internada em estado grave. As três crianças foram atingidas por tiros na cabeça, disparados pelo próprio pai, Helder Massucato Rezende, de 45 anos, na sexta-feira. Ele ainda matou a própria mãe, Lourdes, de 74 anos, e se suicidou. Sua mulher também foi baleada, mas está se recuperando. O pâncreas de Letícia, que completaria 11 anos no próximo sábado, foi levado de avião para São Paulo, para exames complementares para selecionar o receptor. Como Alexandre tinha 7 anos e seu pâncreas era pequeno, pois ainda estava em desenvolvimento, não pôde ser aproveitado. Os corações de ambos também não foram aproveitados, pois as crianças receberam transfusões de sangue e ainda foram drogadas com medicamentos na tentativa de mantê-las vivas. Isso impossibilitou as doações. Os pulmões também não foram retirados. As córneas estão sendo avaliadas por técnicos do Banco de Olhos do Hospital das Clínicas (HC), de Ribeirão Preto, e podem ser liberadas em até 14 dias. À tarde, após exames detalhados no Hemocentro de Ribeirão Preto, foram definidos os receptores dos rins que estavam na fila de espera, de acordo com a compatibilidade sanguínea. Os receptores são de Franca e Ribeirão Preto - ambos seriam transplantados em Ribeirão Preto. Os outros são de Assis e Ourinhos. "Quanto mais rápido for o transplante, melhor", disse o coordenador do Programa de Organização de Procura de Órgãos da Região de Ribeirão Preto, Jeová Nina Rocha. Segundo Rocha, as retiradas dos órgãos das crianças começaram na noite domingo e terminaram por volta das 5 horas desta segunda-feira. Isso foi possível após a mãe das crianças, Valéria Gomes Freitas, de 37 anos, autorizar as doações, no domingo (26). Ela foi baleada na cabeça, mas com menor gravidade que os filhos, que tiveram perdas de massa encefálica. Rezende era depressivo e teve problemas com alcoolismo e drogas. A Polícia Civil pretende começar hoje (28) a ouvir vizinhos e integrantes da família Rezende para entender o que teria motivado o crime. Valéria saiu do Centro de Terapia Intensiva (CTI) e Júlia continua respirando por aparelhos, no CTI Infantil. Augustinho Rezede de Araújo, pai de Helder, está abalado e quando o incidente ocorreu ele não estava em casa. Tinha ido ao açougue. Helder e a família moravam com ele havia 15 dias. Augustinho visitou Valéria nesta segunda, mas não foi e nem irá a velórios e sepultamentos dos familiares, como é seu hábito. "Ele não tem condições", diz o genro dele, José de Souza Andrade. A arma do crime, um revólver calibre 32, é de Augustinho.

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