Ordem de ataques em Santa Catarina veio de presídios

Estado teve outra noite violenta, com ônibus queimados em várias cidades

Daniel Cardoso, especial para O Estado

15 de novembro de 2012 | 02h10

A segunda noite de atentados em Santa Catarina, na terça-feira 13, foi ainda mais violenta. Desde a madrugada de segunda-feira, 12, os criminosos realizaram ataques em Navegantes, Criciúma, Florianópolis, Itajaí e Blumenau. Na lista de crimes estão ônibus incendiados, apedrejados e tiros contra presídios. A polícia deteve 23 pessoas.

De acordo com o delegado-geral de Polícia Civil, Aldo Pinheiro, os depoimentos dos detidos reforçam o eixo de trabalho das investigações. "Parte dos atentados ocorre por ação de organizações nos presídios e outra parte é de vândalos ou oportunistas que se aproveitam da situação para confrontar o Estado", disse.

O governador Raimundo Colombo falou pela primeira vez sobre a crise. Colombo fez coro às autoridades policiais e afirmou que parte dos crimes pode ser motivada pelo aumento da presença do Estado nas cadeias. "No ano passado tivemos mais de 500 fugas e 11 mortes. Em 2012, foram 125 fugas e apenas duas mortes. Estamos preparados e trabalhando para dar toda a segurança à população."

Colombo também disse que o governo estadual manteve contatos com o Ministério da Justiça. Segundo o governador, o ministério se colocou à disposição para ajudar os catarinenses. "Mas não temos necessidade. Nossa polícia tem como controlar a situação."

Trabalho. O Ministério Público do Estado montou um grupo de trabalho para atuar na inteligência de combate ao crime. A ideia é atuar em conjunto com as Polícias Civil e Militar e outros órgãos de segurança para descobrir de onde partiu a ordem para os atentados, quem comanda as ações e, com base nessas informações, montar uma estratégia para coibir novos ataques.

O procurador-geral de Justiça, Lio Marcos Marin, acredita que até o início da próxima semana as investigações terão resultados significativos. "Os fatos são muito recentes. Precisamos de mais alguns dias para dar a resposta precisa à sociedade", disse Marin.

O procurador-geral não acredita que os atentados possam ter origem em alguma facção criminosa aos moldes do PCC, de São Paulo, que atue nos presídios catarinenses. Na opinião dele, o que existe em Santa Catarina são pequenos grupos, com um certo grau de organização, que se beneficiam do vazamento de informação para fora do sistema prisional. "Não ocorre uma organização nas dimensões em que se imagina ou que é noticiado", opinou.

Investigação. As investigações do Ministério Público seguem na linha de que a violência dos últimos dias é uma retaliação dos presos. Seria uma reação ao corte de regalias nas prisões ou resposta a maus-tratos e torturas supostamente impostas por agentes prisionais.

Para o presidente da OAB catarinense, Paulo Roberto de Borba, a crise instalada na segurança pública do Estado expõe a necessidade de uma revisão completa no modelo de segurança. "Quando ouvimos de um ministro da Justiça, que ele preferia morrer a ser preso, é porque algo está muito errado", disse, em referência à fala do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Até agora os ataques não feriram ninguém. Os comerciantes da capital seguem o ritmo normal de trabalho e não sofreram qualquer ameaça ou imposição de toque de recolher por parte dos criminosos.

Segundo Marcos Arzua, diretor executivo da Fecomércio-SC, o movimento nas lojas continua igual e o volume de vendas segue dentro do esperado.

"Nós acreditamos que o episódio dos atentados seja um caso esporádico. Não é o tipo de crime que costuma ocorrer em Santa Catarina. Acreditamos que as medidas públicas vão surtir efeito rapidamente e tudo voltará ao normal", afirmou.

Arzua ressalta que não há uma orientação direta aos comerciantes para mudarem o comportamento por causa dos atentados.

A única autoridade policial até agora a reconhecer a existência de uma facção criminosa nos presídios catarinenses é o delegado Renato Hendges, presidente da Associação dos Delegados de Polícia (Adepol) em Santa Catarina e com atuação na Polícia Civil há mais de quatro décadas. Para ele, a origem da crise tem como nascedouro as condições do sistema prisional.

"Negar que não existe essa organização é uma hipocrisia. São cinco ou seis líderes, bandidos perigosos que comandam a organização. Essa organização tem um comando verticalizado e ações criminosas em vários níveis." Mas ele frisa que as ações em Santa Catarina não têm ligação com os ataques do PCC em São Paulo. "Aqui é uma reação ao tratamento nas prisões."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.