Operários morrem em construção de presídio no interior de São Paulo

Luiz Fernando Cuba e Edmar Laurentino estariam sem equipamentos de proteção individual. Polícia apura negligência

CHICO SIQUEIRA, ESPECIAL para o Estado

02 Julho 2014 | 11h13

ARAÇATUBA - A Polícia Civil vai apurar se houve negligência na morte de dois operários que morreram soterrados nesta terça-feira, 1°, na construção do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Icém, no interior de São Paulo. A obra do governo do Estado de São Paulo está orçada em R$ 35 milhões e deveria ter sido entregue em novembro do ano passado, mas foi adiada por uma ação judicial por falta de licenciamento ambiental.

Os dois operários, que trabalhavam na colocação de canos de esgoto, estariam sem os equipamentos de proteção individual (EPIs), quando houve o soterramento de uma das laterais do barranco.

O ajudante Luiz Fernando Cuba, morador de Icém, chegou a ser socorrido pelos próprios colegas, antes da chegada dos bombeiros, e foi levado a uma unidade de pronto-atendimento (UPA), mas não resistiu. Já o encanador Edmar Laurentino, morador de Fronteira, no interior de Minas Gerais, só foi resgatado por volta das 21h, já sem vida.

Os dois trabalhavam pela empreiteira da obra - a Construtora Hudson - e para uma terceirizada - a Matrix. Representantes das duas empresas não quiseram conversar com a imprensa no canteiro de obras.

O delegado titular de Icém, Antônio Honório Nascimento, disse que um inquérito foi aberto nesta quarta-feira, 2, para apurar as circunstâncias do acidente, mas que ele, que esteve no local no momento das buscas, suspeita ter ocorrido negligência por parte dos responsáveis pela obra.

"Com EPIs ou sem, eles não teriam chance de se salvar. O problema, pelo que deu para perceber, é que a escavação estava sem escoramento, e é muito provável que isso tenha facilitado o desmoronamento do barranco", afirmou o delegado.

De acordo com o delegado, a escavação tinha cerca de 100 metros de extensão por cinco de profundidade e uma largura de três a quatro metros. "Era uma escavação extensa e profunda, sem qualquer escoramento, ainda mais num solo sem compactação", disse Nascimento. "Hoje em dia não se permite mais isso, a cada cinco metros, o serviço é feito e o buraco tapado", completou.

"Não sei como permitiram isso (obra sem escoramento), pois havia engenheiro e técnicos, mas somente depois da apuração pelo inquérito é que poderemos dizer o que ocorreu ao certo", comentou. Segundo Nascimento, os responsáveis pela obra, representantes das duas empresas, engenheiros, técnicos e operários serão ouvidos a partir desta quarta-feira.

Na Hudson, em São Paulo, a atendente disse que à reportagem do Estado que a empresa não se manifestará sobre o assunto. A Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) também não quis comentar o acidente, preferindo emitir uma nota dizendo que os meios de comunicação deveriam procurar as autoridades policiais. A reportagem não localizou nenhum diretor da terceirizada Matrix para falar sobre o assunto.

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