ALEX SILVA / ESTADÃO
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Operação na Cracolândia prende traficante ‘Filé com Fritas’; nº de presos chega a 7

Outras 15 pessoas foram detidas, mas liberadas por falta de provas; as investigações prosseguem

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 22h40
Atualizado 12 de maio de 2022 | 17h37

SÃO PAULO – A megaoperação realizada pela Polícia Civil de São Paulo a partir da madrugada desta quarta-feira, 11, na região central da capital paulista resultou na prisão de sete pessoas suspeitas de participar do tráfico de drogas na Praça Princesa Isabel, local que passou a ser conhecido como a ‘nova Cracolândia’. Conforme balanço dos investigadores, ao menos outras 15 foram detidas, mas liberadas por falta de provas. As investigações prosseguem.

“Hoje (quarta) nós tivemos a prisão inclusive de um traficante relevante ali, que tem um apelido diferente, que é o ‘Filé com Fritas’. Ele se encontra preso por conta da prática reiterada do tráfico de drogas”, explicou o delegado Roberto Monteiro, da 1ª Seccional Centro. O apelido é o codinome de Lucas Felipe Macedo Marques, de 22 anos, um dos três presos a partir de mandados. Os outros quatro foram presos em flagrante.

“Ele (Filé com Fritas), de forma contumaz, estava na Praça Princesa Isabel, substituindo traficantes que foram presos”, disse Monteiro, que destaca que os lucros dos traficantes podem chegar a até R$ 200 milhões por ano. O suspeito já tinha passagem pela polícia, uma delas por violência doméstica, apontaram os investigadores.

A incursão que teve início nesta quarta foi a quinta fase da Operação Caronte, que se deu de forma integrada à Operação Sufoco, anunciada pelo governo do Estado. A ação foi conduzida pelo 77º DP (Santa Cecília) e contou com mais de 600 policiais civis e militares, além de membros da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Até o momento, sete suspeitos foram presos neste estágio da operação, o último deles nesta quinta-feira, 12.

O objetivo era cumprir 37 mandados de prisão e mais 10 mandados de busca e apreensão na região da Praça Princesa Isabel. “Inclusive um mandado de busca coletiva para as barracas, expedido pela Justiça justamente diante das evidências que a Polícia Civil apresentou de que aquelas barracas existiam ali e permaneciam naquele local apenas para dissimular o tráfico de drogas que havia no interior delas”, disse Monteiro. As investigações prosseguem.

O delegado acrescentou ainda que foi feita nesta quarta a apreensão de “uma quantidade expressiva de drogas”, como tijolos de crack e de maconha, e disse que houve uma “inflação do crack” na região central. “Nós começamos (as investigações) com a pedra custando R$ 20, e tivemos notícia recentemente da pedra custando R$ 50, de R$ 40 a R$ 50, na Praça Princesa Isabel, justamente pela pressão policial”, explicou. Segundo Monteiro, já foram feitas mais de 100 prisões no fluxo de drogas desde que a Operação Caronte começou, há cerca de 10 meses.

A polícia estima, com isso, que somente um dos tabletes apreendidos nesta quarta custaria por volta de R$ 800 mil. Foram apreendidos ainda dois simulacros de arma de fogo, 19 balanças de precisão, facas, entre outros objetos. Ao menos uma barraca suspeita de receptação foi desmantelada. Ela era usada, segundo a polícia, para que traficantes recebessem objetos roubados, como celulares, e fornecessem drogas em troca.

“Também tivemos uma apreensão de uma grande quantidade de documentos, RGs, CPFs, título de eleitor”, destacou Monteiro. “Esses documentos são vendidos por traficantes. Podem ser usados para a abertura de contas correntes, essas contas que são usadas para o encaminhamento inclusive de valores através de transferências por Pix, nesses golpes que são praticados hoje em dia depois da subtração dos celulares.”

Levantamento feito pelo Estadão aponta que os roubos estão crescendo principalmente em bairros nobres e na região central da cidade. Em alguns casos, os prejuízos podem ser multiplicados justamente por transferências via Pix, ferramenta de pagamento instantâneo do Banco Central.

‘Uma imagem vale mais que milhares de palavras’, diz delegado

Os diferenciais da operação, segundo o delegado, são o “trabalho meticuloso” realizado pelos investigadores e o emprego da tecnologia para identificar traficantes. "Uma imagem vale mais que milhares de palavras. Com a imagem de várias personagens, como a Gatinha da Cracolândia, a Abelha Rainha, agora o Filé com Fritas, eles têm dificuldades de apresentar defesa e acabam condenados, encarcerados e permanecem assim.”

Monteiro reforçou que a ação da Operação Caronte, que também influiu na dispersão da Cracolândia da Praça Júlio Prestes, contou com apoio da Prefeitura de São Paulo e foi feita de forma integrada. “Nós estamos trabalhando em conjunto – o governo do Estado, a Prefeitura de São Paulo, as forças policiais, as secretarias de assistência social, secretarias da Saúde do Estado e do município – justamente para enfrentar esse grande e complexo problema que temos na capital, que foi agravado pela pandemia da covid”, destacou.

Para operacionalizar a ação, o delegado explicou que foi feita uma reunião por volta de 3h30 na Praça Charles Miller, para orientar as equipes. “Reunimos em torno de 650 policiais, entre civis, militares e guardas civis metropolitanos, e também equipes de assistência social da Prefeitura de São Paulo e de saúde pública, para que nós fizéssemos uma ação integrada, não só de repressão ao tráfico de drogas, mas de assistência total e absoluta aos dependentes químicos”, explicou.

O grupo chegou à Praça Princesa Isabel por volta de 4h e a ação começou a partir de então. “Fizemos o que já vínhamos fazendo na Praça Júlio Prestes, que é a contenção dos usuários”, explicou. “Também nós fizemos no entorno, num círculo maior, o fechamento, evitando justamente efeitos colaterais no entorno da Praça Princesa Isabel.”

Conforme o Estadão apurou, alguns policiais militares teriam chegado à Praça Princesa Isabel antes do início da ação, inclusive removendo o ônibus da polícia que ficava no local. A ação levantou a suspeita que alguns dos traficantes teriam saído da praça com antecedência por observar indícios de que haveria uma ação policial.

Como funciona o tráfico de drogas na Cracolândia

Conforme o delegado Roberto Monteiro, o tráfico de drogas na Cracolândia funciona com uma estrutura hierárquica, que conta com os seguintes membros:

  • Traficante, que comanda o tráfico na área;
  • Auxiliar do traficante, que dá apoio para operacionalizar as transações;
  • Travessia, que leva as drogas dos hotéis do entorno para as mesas colocadas embaixo das tendas;
  • Disciplina, que é o responsável por ajudar o traficante a manter a ordem no fluxo da Cracolândia;
  • Armador, que eram os que montavam e desmontavam as cerca de 7 a 10 barracas do tráfico de drogas na Praça, de acordo com as atividades de limpeza da Prefeitura.

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