Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Operação cria ‘Cracolândia flutuante’ no centro; governo inicia internações

Mesmo com presença policial e de agentes de saúde no entorno, esses novos fluxos tinham drogas e tráfico

Luiz Fernando Toledo e Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2017 | 22h17

SÃO PAULO - Um dia após a megaoperação na Cracolândia, no centro de São Paulo, o fluxo de viciados e moradores de rua se espalhou pela região. A concentração de dependentes se deslocava nesta segunda-feira, 22, de um ponto para outro conforme a polícia percorria a área. Houve forte policiamento, o que não impediu que o tráfico continuasse operando. Agentes de saúde passaram o dia abordando a população que vagava pelas ruas.

A reportagem do Estado circulou por toda a manhã e início da tarde pelas ruas do centro e do entorno da Cracolândia e constatou que pequenos fluxos eram montados e desmontados rapidamente, com circulação de álcool, crack e cigarro. O movimento era flutuante, dependendo do surgimento de agentes públicos. Segundo o secretário estadual da Saúde, David Uip, a dispersão era “esperada” e “tudo foi muito bem planejado”.

Proprietário de um restaurante na Avenida Rio Branco, na frente da Praça Santa Isabel, Ronaldo Saad, de 46 anos, lamentou o fluxo que se formou na frente de seu comércio. “Hoje, deu até prejuízo. Mas eles têm de controlar para não espalhar. Não adianta apenas dispersar, tem de saber para onde estão indo essas pessoas.”

Mesmo com a presença policial e de agentes de saúde no entorno, havia traficantes vendendo drogas nos novos fluxos. O clima era muitas vezes tenso. Um homem que se identificou como Negão pediu que a reportagem saísse da região. “Não fica fazendo pergunta”, disse. Diversos dependentes usavam drogas em cachimbos. À tarde, houve concentração de moradores de rua na Praça Princesa Isabel e na frente de uma agência na Avenida Rio Branco. Mais cedo, eles se concentraram em um posto de gasolina e no cruzamento da Avenida Duque de Caxias com a Rua Santa Ifigênia e no do Viaduto Rudge.

Moradores de rua que dormiam na frente da Estação Júlio Prestes também tiveram de sair do local, a pedido da Polícia Militar, por volta das 9 horas, e depois se aglomeraram na Rua Mauá, na frente do Memorial da Resistência. O ponto tinha pelo menos 80 usuários.

Thiago Alves da Silva, de 28 anos, era um dos que ocupavam a calçada no área. Ele estava na Cracolândia desde o fim de abril, após sair da prisão por associação criminosa. Silva diz que a ação prejudicou os moradores de rua, que se sentiam “à vontade” no quarteirão do fluxo e agora não têm para onde ir. 

O artista plástico e militante do movimento A Craco Resiste, Raphael Escobar, disse que a ação da PM foi “semelhante” à feita em outras gestões, “só que com artilharia muito mais pesada”. “Tiraram os moradores de rua de um lugar para ficarem em outro, espalhados por aí.” 

Já os comerciantes da região, mesmo os que tiveram prejuízos, elogiaram o trabalho e esperam melhoras a longo prazo. 

Sem feira. Para o secretário estadual da Segurança, Mágino Alves, o mais importante é que a feira de drogas na Alameda Dino Bueno, com 34 barracas e centenas de viciados, acabou. “Quem passa naquele local hoje vê um cenário completamente diferente.” Segundo ele, 200 policiais militares farão o patrulhamento na Cracolândia por tempo indeterminado.

Desde a operação, segundo Uip, foram atendidas 38 pessoas no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) e feitas 13 internações voluntárias no Centro de Convivência do programa Recomeço, na Rua Helvétia. “(Os agentes) estão indo em busca de convencimento. Essa é uma palavra importante: convencimento. Ninguém vai fazer algo truculento ou brusco”, disse.

Revitalização

O prefeito João Doria (PSDB) voltou a destacar nesta segunda-feira, 22, a parceria com o governo do Estado, que, segundo ele, possibilitará o combate a minicracolândias em outras regiões. 

Segundo Doria, até dezembro de 2019, a gestão entregará na área da Cracolândia uma creche, uma Unidade Básica de Saúde, uma escola e parte das residências de interesse social previstas no projeto Nova Luz, em parceria com o Estado. E voltou a dizer que “a Cracolândia não vai mais existir”. “Ali, a partir de agora, é um espaço reconquistado pela cidade, pela cidadania.” 

O prefeito afirmou também que o programa Redenção fará ações “em breve” em pequenas Cracolândias na Vila Nova Ceagesp, na zona oeste, Radial Leste, zona leste, e Roberto Marinho, na zona sul. “Lá há atuação do pequeno tráfico.” 

Já o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que a Cracolândia “vai acabar”, sem polemizar com Doria. “É um trabalho de perseverança, não podemos dizer ‘Acabou, vamos embora’. Não vai resolver em 24 horas, mas vai diminuir.”

PCC estimulava viciados a atacar a polícia

O Primeiro Comando da Capital (PCC) exercia um trabalho de liderança sobre os usuários de drogas na Cracolândia e os convencia a atacar a polícia, assim que os agentes entravam na Alameda Dino Bueno, onde funcionava a feira de drogas ao ar livre, 24 horas por dia.

A descoberta foi feita durante as investigações realizadas nos últimos quatro meses. “Os viciados eram doutrinados pelos traficantes. Temos provas cabais. Esse foi um dos motivos de usarmos bombas de efeito moral para dispersá-los durante a operação, pois havia o risco de serem usados como escudos humanos”, afirmou o delegado Ruy Ferraz Fontes, do Departamento de Investigações Sobre Narcóticos (Denarc).

Fontes coordenou a megaoperação realizada no domingo na região, que resultou em 50 presos e 3 adolescentes detidos – os números foram atualizados nesta segunda. Também foram apreendidos cinco armas (três pistolas e dois revólveres), quase 20 quilos de drogas (entre crack, cocaína, maconha, ecstasy e LSD) e R$ 50 mil em dinheiro. A ação contou com 900 policiais.

Segundo o delegado, o PCC comandava a região. “Os chefes (do PCC) tinham a lista dos traficantes (que ficavam nas barracas na feira de drogas) e, se quisessem passar o ponto, tinham de ter autorização do crime organizado.” Fontes também informou que os hotéis da região serviam para guardar drogas. 

Lixo

As investigações contabilizaram 34 barracas que vendiam crack na Alameda Dino Bueno. Os traficantes tinham pelo menos três seguranças armados, um deles um ex-soldado do Exército em Pernambuco, que está foragido, e fornecia droga para cerca de 800 usuários. “Nos últimos dez dias, os bandidos impediam a entrada de garis e também de assistentes sociais”, disse o delegado.

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