Online. Siga o Metrópole no Twitter PAULISTÂNIA UMA CIDADE E SUA GENTE A ARQUITETA DO MUSEU

Para uma criança, as dimensões do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP), mais conhecido como Museu do Ipiranga, pareciam ainda maiores. No saguão principal, em meio às estátuas gigantes, o que mais chamava a atenção da menina era a escadaria imponente, ostentando enormes bolas de vidro com água dos rios brasileiros.

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2012 | 03h05

Mais de 50 anos depois, ela aprendeu não só que as tais bolas de vidro são ânforas de cristal, como também os artifícios arquitetônicos do italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi para construir o monumento histórico, inaugurado em 7 de setembro de 1895. Todos os dias, a arquiteta Sheila Walbe Ornstein, de 57 anos, passa pela mesma escadaria a caminho de seu gabinete de diretora do museu, cargo que assumiu no último dia 3.

"Quando eu era criança, havia três opções de lazer em São Paulo: o Parque do Ibirapuera, o Teatro Municipal e o museu. Naquela época, o Ipiranga era longe, era uma viagem para chegar até aqui", lembra Sheila. Na infância, ela fazia essa viagem várias vezes por ano. Já adulta, ainda "deu uma passadinha" por lá na época da faculdade de Arquitetura e depois, tempos atrás, para levar uma sobrinha.

Nesse meio tempo, Sheila estava ocupada fazendo mestrado, doutorado, escrevendo sete livros, orientando 13 dissertações de mestrado, 12 teses de doutorado, sendo vice-diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Passaram-se 32 anos, até que o museu voltasse a sua vida. E não foi por escolha própria. Os colegas de universidade a incluíram em uma lista tríplice e, no fim do processo, ela acabou nomeada pelo reitor João Grandino Rodas. "Não tinha ideia que viria parar aqui. Foi uma grata surpresa", diz.

Sheila é a primeira arquiteta à frente da instituição, tradicionalmente administrada por historiadores - como a última professora a ocupar o cargo, Cecília Helena de Salles Oliveira. A escolha não foi ao acaso.

"Assumi a direção do museu com uma missão. Minha gestão será uma gestão de arquiteta", diz. O que pode ser traduzido em requalificação dos espaços da centenária instituição. "Um prédio de 120 anos precisa de sérias requalificações", afirma. A fachada, por exemplo, deve passar por um processo de restauração, o que pode levar anos, tamanho o cuidado que tem de ser tomado. "A tinta não pode ser qualquer uma, a cor não pode ser qualquer cor. Dependendo da obra, é necessária a presença até de um arqueólogo."

Independência ou morte. Bebericando a segunda xícara de café do dia, sempre sem açúcar, Sheila parece à vontade em seu gabinete cheio de livros, com vista para o Parque da Independência.

Como muitos que vão ao Museu Paulista pela primeira vez, a obra de sua preferência é também a principal estrela da coleção: o quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, que representa a visão do autor para o famoso grito de d. Pedro I às margens do Córrego do Ipiranga. A obra colossal, de 4,15m de altura por 7,60m de largura, foi concluída em Florença, na Itália, em 1888.

Também seduz a professora a pintura recém-restaurada Conversão de São Paulo a Caminho de Damasco, de José Ferraz de Almeida Júnior, que ganhou uma sala especial no piso térreo. Mas, mesmo no gosto por coleções, ela não esquece do ofício. "Como arquiteta, gosto de objetos relacionados às obras, como o setor que tem ferramentas usadas pelos pedreiros", diz.

Apesar de ter passado a maior parte da vida como acadêmica, Sheila sempre gostou de ação. Por mais páginas que tivessem seus trabalhos, eram sempre voltados à prática. Na vice direção da FAU, por exemplo, tratou de fazer as devidas "requalificações" no prédio.

Pela primeira vez à frente de um museu, a arquiteta tem como uma das suas principais metas tornar o espaço acessível para pessoas portadoras de deficiência. A tarefa, que pode ser simples em um prédio comum, torna-se uma questão complicadíssima quando se fala de uma construção tombada nas esferas municipal, estadual e federal.

Isso sem falar de todo o resto. "Faremos trabalhos na cobertura, movimentações estruturais, reparos nas instalações hidráulicas e elétricas, além da segurança."

A lista é grande. Para realizar tantas e tão delicadas obras, Sheila tem mais quatro anos de mandato pela frente. E não tem pressa. "Faço por etapas. Não sou a favor de grandes revoluções."

À frente do acervo do Ipiranga, Sheila Ornstein quebra tradição de historiadores

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