Online. Siga o Metrópole no Twitter PAULISTÂNIA UMA CIDADE E SUA GENTE 40 ANOS E 2 GERAÇÕES ESTUDANDO A CIDADE

Quando tinha 37 anos, em 1975, o sociólogo e cientista político paulistano Lúcio Kowarick coordenou o lançamento do livro São Paulo - Crescimento e Pobreza, marco para pensar a trajetória que a cidade seguiria nas décadas seguintes. Ainda eram tempos sombrios, apesar da abertura iniciada pela ditadura militar. O livro tinha sido uma encomenda de d. Paulo Evaristo Arns, então cardeal arcebispo de São Paulo, ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Depois do lançamento, o Cebrap sofreu um atentado a bomba.

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2011 | 03h05

Explosiva, entretanto, foi a repercussão das ideias do livro, que vendeu mais de 100 mil exemplares com fotos e textos que chamavam a atenção para a situação das periferias que nasciam e cresciam desassistidas pelo Estado. A coletânea de artigos serviria de base para as ações das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Igreja Católica, que passariam a atuar politicamente nas periferias de São Paulo.

Nessa época, o cientista político Eduardo Marques ainda era um menino de 10 anos, aluno do ensino fundamental em uma escola do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Em 1979, quatro anos depois do primeiro livro, Kowarick publicava A Espoliação Urbana, relacionando problemas urbanos, como baixos investimentos em transporte, moradias, escolas e saúde, à dinâmica de acumulação do capital produzida pela cidade. Naqueles tempos de luta, a discussão serviu de base para a efervescência dos movimentos sociais das periferias, desde os religiosos até os sindicais, passando pelas associações de bairro e grupos de mães, que marcariam a primeira metade dos anos 1980 na capital.

"Eu era muito chamado em diferentes bairros da periferia da cidade para conversar com os integrantes dos movimentos sociais que queriam saber mais a respeito do conceito de espoliação urbana", recorda-se Kowarick.

São personagens-chave dessa história setentista de São Paulo os dois principais líderes políticos nacionais, que se tornariam presidentes do Brasil. O então sociólogo Fernando Henrique Cardoso foi um dos fundadores do Cebrap. O metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva surgiria das greves sindicais no ABC em 1978. Os movimentos sociais ainda serviriam de base para o nascimento do Partido dos Trabalhadores.

As três décadas que se seguiram foram de transformação intensa e permanente, detectadas e retratadas nos 40 anos de debates acadêmicos sobre São Paulo. A década de 1980, marcada pela crise no emprego e recessão econômica, registraria uma nova etapa de mudanças. Os movimentos sociais que cobravam o Estado mudam de postura. Com a democratização, parte de seus integrantes ingressam nos governos.

Novas pautas passam a dominar o debate, ligadas aos direitos das mulheres, dos negros e homossexuais. No fim dessa década, com o lançamento do disco dos Racionais MC's, é a vez de o hip-hop chacoalhar as periferias, iniciando uma série de demandas ligadas à valorização da cultura local.

É nesse contexto que o professor Eduardo Marques chega a São Paulo. Formado em Engenharia Hidráulica e História no Rio de Janeiro, com especialização em planejamento urbano, trabalhava com política de saneamento na Baixada Fluminense quando foi chamado, em 1989, para trabalhar na Secretaria de Habitação da recém-eleita Luiza Erundina (PT). Quando deixou a Prefeitura, fez mestrado e doutorado em Ciências Sociais na Universidade de Campinas (Unicamp) até ingressar, em 2002, no Centro de Estudos da Metrópole, criado no Cebrap para manter a tradição da casa de pensar São Paulo.

Marques acompanha a mudança do perfil das moradias na cidade. Os loteamentos clandestinos, que foram a forma como os bairros das periferias cresceram, perderam espaço para invasões e crescimento das favelas.

"São Paulo mudou bastante e hoje o Estado de fato se faz mais presente nas periferias. Mesmo assim, a desigualdade persistiu ou até mesmo piorou dada a baixa qualidade dos serviços prestados", diz Marques.

O aumento da violência também é um elemento-chave para a compreensão de toda a metrópole. Dominam a pauta dos debates desde os assassinatos cometidos pelos policiais, que permanecem em grande número nas três décadas seguintes, até o aumento dos roubos, a expansão do crack, o fortalecimento do Primeiro Comando da Capital (PCC) e a disseminação dos homicídios, cujas taxas aumentam mais de 900% entre 1960 e 2000.

Longe de afetar somente os bairros de periferia, a violência se reflete em toda a estrutura urbana da cidade. Para garantir a sensação de segurança, a cidade se expande pela construção dos shoppings e condomínios fechados, uma espécie de arquitetura do medo que ajuda a segregar, processo que será discutido pela antropóloga Tereza Caldeira no ano 2000 com o livro Cidade de Muros.

Fronteiras. Na quinta-feira, Kowarick e Marques se encontraram no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na Rua Maranhão, para tentar amarrar o debate dessa longa caminhada histórica vivida pela cidade e por seus milhões de personagens. Lançaram o livro São Paulo - Novos Percursos e Atores (Editora 34). A coletânea traz artigos de professores com vasta produção, como a socióloga Vera da Silva Telles, que escreve em coautoria com Daniel Veloso Hirata sobre o crescimento do mercado informal nos últimos 15 anos e a condição do trabalhador urbano, obrigado a transitar entre a fronteira dos mercados legal e ilegal. Já a antropóloga Tereza Caldeira discute os Racionais MC's e o hip-hop.

Há também espaço para a nova geração de pesquisadores. A antropóloga Paula Miraglia analisa o crescimento e a queda dos homicídios e a presença do PCC. Depois do crescimento acelerado da violência, a partir dos anos 2000, a cidade testemunha a queda em mais de 80% nas taxas de assassinatos, uma nova transformação que ainda hoje surpreende os cientistas sociais.

Outro da nova geração, o antropólogo Gabriel Feltran analisa justamente as mudanças ocorridas ao longo dos 40 anos na cidade e ajuda a pensar a respeito da visão de mundo da nova geração que vive nas periferias, diferente da dos pais migrantes. "A reflexão provocada pelos autores coloca junto diferentes gerações de pesquisadores, que qualificam o debate sobre essa São Paulo cada vez mais central no País e no globo, na qual nada é como antes. Mas é bonito notar que essa nova cidade, que requer também um novo pensar, se recria sobre as fundações sólidas erguidas pelo trabalho das gerações que a precedem e, nesse movimento, também se renovam", diz Feltran.

Lúcio Kowarick e Eduardo Marques lançam livro sobre mudanças em SP

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