Ônibus da madrugada transportarão cerca de 800 mil pessoas por mês em São Paulo

Com atraso, projeto deve ser colocado em prática no primeiro semestre do ano que vem na capital paulista

Caio do Valle, O Estado de S. Paulo

27 Novembro 2014 | 15h35

Corrigida às 19h03

SÃO PAULO - Atrasada, a rede de ônibus noturnos que a Prefeitura de São Paulo planeja colocar na rua a partir do primeiro semestre de 2015 deverá transportar cerca de 800 mil pessoas por mês. Esse número representa um acréscimo de 30% no público que utiliza as linhas atuais de circulação durante a madrugada. O cálculo é da diretora de Planejamento da São Paulo Transporte (SPTrans), Ana Odila de Paiva Souza.

Entre os potenciais usuários estão pessoas que estudam à noite e que hoje precisam correr para pegar o último ônibus ou trem e também paulistanos em busca de diversão noturna em especial no fim de semana.

A Prefeitura aposta, inclusive, em um aumento das atividades no período entre as 0h e as 4h40 quando o mecanismo estiver consolidado na cidade. “Vai haver uma migração, porque hoje existe um pico por volta da meia-noite, que é quando começam a parar as escolas. Ele vai se espraiar, porque a pessoa não vai mais precisar sair correndo para pegar o último ônibus, vai poder ficar num bar ou estudando, se quiser. Depois de um certo tempo, quando isso fizer efeito, é lógico que vão aumentar as atividades noturnas na cidade”, explica Paiva Souza.

Pontualidade. Uma das ambições da gestão Fernando Haddad (PT) é dar às linhas da madrugada – que funcionarão da 0h às 4h – um intervalo regular e confiável. Elas passarão, conforme os planos da SPTrans, a cada 15 minutos nos pontos dos itinerários estruturais – ou seja, aqueles que percorrem os eixos do metrô e os corredores de ônibus. Esses trajetos farão a ligação entre diferentes terminais.

No caso das linhas locais, que serão circulares e situadas dentro dos bairros, as partidas ocorrerão a cada meia hora. Esse tipo de itinerário beneficiará também regiões “boêmias” da cidade, como a Vila Madalena, na zona oeste. Os ônibus, com tamanho menor, terão operação realizada pelas cooperativas. Ao todo, 500 ônibus serão usados.

Paiva Souza afirma que haverá distribuição de panfletos alertando os usuários das novas linhas. “Estamos conversando com nossa área de marketing e vamos ter um folheto disponível com as linhas descrevendo o que fazer. Vamos ter uma campanha em cima disso, tanto em bares quanto hospitais, delegacias, que são, digamos, as atividades que funcionam à noite.”

A caixa Amanda Pires, de 25 anos, trabalha em um bar na Rua Aspicuelta, na Vila Madalena. Hoje, ela, que sai por volta das 3h, vai trabalhar de carro. “Com uma linha de ônibus regular funcionando nesse horário, devo migrar para o transporte público.” De acordo com ela, vários clientes já perguntaram sobre a melhor forma de ir embora usando transporte coletivo.

No total, cerca de 140 linhas formarão a rede da madrugada na capital paulista. Os veículos desses itinerários estarão identificados com adesivos alusivos à sua atividade noturna. Os 160 pontos onde houver conexão entre as linhas estruturais, como, por exemplo, o que fica na intersecção das Avenidas Nove de Julho e Brasil, ganharão reforço de iluminação, bem como aqueles diante de pontos de interesse, como hospitais.

Atraso. A criação de uma rede madrugadora de coletivos é uma meta prometida desde o início do governo Haddad. Inicialmente, ela foi anunciada para o primeiro semestre deste ano, valendo inclusive para a Copa do Mundo. Mas houve atrasos. Por meio de nota, a SPTrans informou que ainda está acompanhando processo do projeto-piloto das primeiras linhas noturnas, o “que acabou demandando tempo para a aferição do desempenho das respectivas linhas em observação”.

Piloto. Um projeto-piloto iniciado em fevereiro pela SPTrans já colocou 12 linhas madrugadoras circulando pelas ruas da capital paulista. A ação, que começou em fevereiro, teve 99,8% de cumprimento de partidas no horário certo, segundo a diretora da Planejamento da empresa, Ana Odila de Paiva Souza. Ela diz que só 1% dos coletivos atrasou desde então.

Uma das explicações para um índice de confiabilidade tão alto, além do trânsito bem menos complicado das madrugadas, é o fato de existirem ônibus “back-up” para as linhas da madrugada.

“Para evitar os atrasos, é (preciso) que sempre tenha um ônibus reserva com tripulantes nos terminais para cobrir alguma linha, caso aconteça alguma coisa no caminho e ela se atrase. É isso que tem nos garantido o bom cumprimento de horários e de partidas (no piloto)”, diz a responsável da SPTrans.

Outro jeito de garantir a saída integral planejada para um horário do dia em que uma parcela bastante reduzida da população se desloca de ônibus, a SPTrans mudou a forma de remunerar as empresas e cooperativas que prestam o serviço. Em vez de receber por passageiros transportados, os prestadores vão ganhar remuneração por frota colocada à disposição e por viagem feita. “Se formos pagar por passageiro transportado de madrugada, os operadores não vão ter muito boa vontade. Como é uma meta da Prefeitura você ter uma cidade funcionando 24 horas, o custo disso é da Prefeitura”, diz Paiva Souza.

O arquiteto e consultor de Transportes Flamínio Fichmann critica a adoção dessa forma de pagamento. “É preciso compatibilizar necessidade com oferta de serviço. Deve haver uma gradativa ampliação da fruta, à medida que a demanda aumenta. Vamos pagar para ônibus bater lata, como diz a gíria? Os empresários estão doidos para aumentar a receita deles. Temos necessidade desse luxo? Ou podemos investir em coisas mais importantes? Acho uma aberração.”

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