Ônibus da Cristolândia resgata 114 viciados

Veículo circula pela cracolândia com 40 missionários, cuja missão na madrugada é dar sopão, samba no estilo 'praGod' e tratamento a usuários

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h03

Dois policiais militares chegam com armas em punho apontadas para um grupo de usuários de crack na Rua dos Gusmões, na cracolândia, centro de São Paulo. Apesar da violência da cena, o pastor Humberto Machado, de 54 anos, coordenador da Cristolândia, a observa impassível diante do volante do ônibus que a entidade usa para percorrer as ruas do centro nas madrugadas.

Alertado pela reportagem, Machado justifica a postura dos PMs. "Foi por causa de uma briga de rua", observa, sem dar tanta importância ao fato. Assim segue, noite adentro, a chamada Trans-Cristolândia: despolitizada, pragmática, com mais de 40 missionários evangélicos que se juntaram dentro de um ônibus com o objetivo de retirar das ruas 200 usuários de crack ao longo da semana. Na base do sopão e ao som de pagode. Ou melhor: do praGod, nome que deram aos hinos evangélicos em ritmo de samba.

Até ontem, com suas incursões noturnas no ônibus pintado de preto, o grupo já havia retirado das ruas 114 pessoas desde terça para enviar a centros no interior e na Grande São Paulo. Outras 60 seriam mandadas nos próximos dias para iniciar a primeira fase do processo de desintoxicação. Foram servidos 400 cafés da manhã e 400 almoços.

Por outro lado, no Complexo Prates, da Prefeitura, havia anteontem 68 adultos dormindo, em abrigo onde cabem 120 pessoas. "Fui no Complexo da Rua Prates e até me senti mal com a grande quantidade de seguranças de terno na porta de entrada", diz o pastor. De fato. A reportagem esteve no local na sexta-feira: havia oito seguranças de terno e radinhos. Acabou sendo barrada na entrada.

A eficiência das abordagens e do tratamento chama a atenção de outras religiões. Na Paixão de Cristo, organizada na Semana Santa pelo padre Julio Lancellotti, os evangélicos da Cristolândia animaram toda a via-crúcis com seu praGod.

Samba e sopão. A Trans-Cristolândia começa perto das 23 horas. Na saída do ônibus rumo à cracolândia, missionários de três Igrejas Batistas da região central recebem recomendações específicas: andar em grupo de três e recomendar aos usuários de crack que busquem a sede da entidade, na mesma região, no dia seguinte, para café da manhã e almoço. "À noite, eles ainda estão sob efeito da droga. É melhor de manhã, quando o efeito já passou", explica a missionária Soraia Machado, de 48 anos, mulher de Machado, que o ajuda na coordenação da Cristolândia.

A grande maioria dos missionários é homem e tem menos de 30 anos. Eles já saem batucando e cantando dentro do ônibus em busca daqueles que querem se converter. Na madrugada de quarta-feira, pararam em três grandes concentrações de usuários. Cerca de 250 pessoas estavam nas ruas. O sopão serve para quebrar o gelo, numa espécie de ritual que facilita a aproximação entre missionários e viciados.

Segundo o pastor Machado, o objetivo do grupo não é a transformação social, mas a mudança individual. Postura totalmente oposta à dos católicos que nos anos 1980 e 1990 lideraram as lutas sociais em São Paulo por meio das Comunidades Eclesiais de Base. "Os governos fazem sua parte e precisamos fazer a nossa, dando apoio a quem quer sair", diz o pastor.

Os políticos não são seu alvo, mas parceiros em potencial. "Precisamos de novos beliches para abrigar esse povo. Já liguei para um vereador e um empresário pedindo ajuda."

Os jovens de camisetas amarelas se misturam aos viciados e tentam puxar conversa, evitando aqueles que não querem contato. Ao ver o grupo de missionários descendo do ônibus, um jovem negro, forte, com corte de cabelo caprichado, ao estilo dos pagodeiros, pede uma camisa da Cristolândia para usar. É a deixa para o início da abordagem, que o convence a seguir imediatamente em direção ao ônibus.

Ele entra no coletivo, junto com uma senhora e seu cachorro - ninguém parece ligar para a presença do animal, que segue com a turma. "A diferença aqui é o tripé, que inclui parte mental, física e espiritual", diz o missionário Ricardo de Jesus, que começou a deixar o crack em 2006. A mudança definitiva, no entanto, só veio três anos depois, quando passou a atuar como missionário na cracolândia.

Dificuldade. Na quinta-feira, o projeto acabou sendo atrapalhado pelos policiais militares que dispersavam as concentrações de usuários e dificultavam a abordagem por parte dos evangélicos. Nesse dia, a postura amistosa do pastor Machado não ajudou grande coisa. Desde que a Operação Centro Legal começou, em 3 de janeiro, segundo o pastor tem sido mais difícil trabalhar no resgate dos viciados. Por causa da ação da PM, foi o dia com os resultados mais fracos: apenas 25 pessoas foram buscar a Cristolândia no dia seguinte.

Para aqueles que escolhem deixar a rua, na Cristolândia os colchões são improvisados e espalhados pelo chão. Mesmo assim, o espaço está sempre lotado: entre 150 e 200 pessoas chegam por dia. O projeto tem ainda mais duas etapas, feitas por unidades na Grande São Paulo e no interior. Os usuários são internados para serem desintoxicados e treinados para buscar emprego. Longe do centro da cidade, em um processo que leva oito meses.

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