Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Onde se tiram, se põem e se compram chapéus

Acessórios que não saem de moda movem negócios familiares que atravessam décadas em São Paulo. No centro, descubra um reduto em que ainda se pode encontrar uma chapelaria em cada esquina

Cida Alves, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

Uma vitrine em especial chama a atenção dos pedestres que passam pelo número 94 da Rua Quintino Bocaiuva, no centro de São Paulo. Quem se arrisca a entrar descobre logo na porta que se trata de um comércio quase centenário. No tapete, a inscrição "desde 1914" certifica que a Chapelaria Paulista foi a única, das quatro que existiam na Quintino, que sobreviveu ao tempo e às mudanças no vestuário paulistano. Hoje, é a chapelaria mais antiga da região central, irmã mais velha de cinco lojas - já passadas de meio século - concentradas nos arredores da Rua do Seminário, próximo do Viaduto Santa Ifigênia.

A Expedição Metrópole foi até a região central conhecer esse mundo tradicional e ainda muito na moda.

Terno. Até o último dia em que trabalhou na Chapelaria Paulista, Aldo Zucchi, já morto, recebeu seus clientes vestindo terno completo, com direito a camisa de punho duplo e chapéu. Sempre chapéu. Afinal, esse foi o ganha-pão da família Zucchi desde que o avô italiano chegou ao Brasil. Aldo representava a terceira geração no negócio familiar. Após sua morte, em 2007, a loja foi assumida por sua mulher, Cristina. "O chapéu nunca sairá de moda", garante.

A sentença de Cristina se confirma com a grande quantidade de pessoas que param diante da vitrine durante a entrevista. Quase ninguém resiste a uma olhadela nos modelos expostos, que vão desde o clássico de aba média até o quepe de marinheiro, a la Popeye.

Apesar de antiga, a loja não vive de passado. Há muitos anos, o estabelecimento vendia apenas chapéus para homens. Hoje, segundo a proprietária, o público vai desde os clientes mais antigos até jovens nostálgicos ou que buscam no acessório um estilo próprio.

Campeão de vendas. Na ladeira da Rua do Seminário, entre lojas de instrumentos musicais e artigos eletrônicos, as outras lojas de chapéu comprovam que o acessório não sai mesmo de moda. Mesmo que divida o espaço nas vitrines com botas de cowboy, bengalas, cintos, suspensórios e camisas, os donos são unânimes ao apontar os chapéus como os artigos mais vendidos.

O proprietário de três dos cinco estabelecimentos do tipo na região não gosta de aparecer. "Seu Miguel", como é conhecido entre funcionários e fregueses, trabalha há 60 anos com chapelarias. "Ele tem 75 anos de idade, não dá mais entrevista. Já cansou um pouco", entrega um funcionário.

Mas a irmã do empresário, Linda Miguel, de 77 anos, sim, gosta de falar. Ela cuida de uma das lojas Miguel Magazine e conta que o fascínio que tem pelos chapéus vem desde criança, quando via a mãe sair toda elegante com um casquete (esses chapéus pequeninos que vão de lado na cabeça). "Se me pedem para mostrar os produtos, eu reviro a loja toda. É um ramo apaixonante."

No final da rua há duas chapelarias, ambas de propriedade da mesma família. Na Esquina Chapelaria, o engenheiro civil Luciano Kirszenwurcel, de 44 anos, toca o negócio que foi iniciado pelo avô, o imigrante polonês Szmul Icek Kirszenwurcel, e continuado por seu pai. Do outro lado da rua, na Chapelaria El Sombrero, está o tio de Luciano, Abram Kirszenwurcel. Apesar do parentesco, a relação entre as lojas é puramente profissional.

A El Sombrero funciona desde 1935 e, apesar da tradição, atualmente tem 90% da clientela de pessoas na faixa dos 30 anos. Mesmo reconhecendo que os chapéus são uma mercadoria mais complicada de se vender, Abram afirma que sempre houve mercado. "Não é só uma questão de moda. Há aquelas pessoas do interior, que precisam do chapéu para trabalhar. Ou aqueles que usam por indicação médica, por sofrerem de sinusite ou para proteger a pele do sol."

Aqui, é motivo de comemoração o surgimento, na última década, do jovem ator, cantor e compositor pop americano Justin Timberlake. Abram o classifica como "ídolo". "Afinal, foi ele quem começou a moda dos chapéus Fedora (no formato panamá, estilizado) e sacudiu o mercado jovem. Esse modelo vende bastante até hoje", explica.

Clientela fiel. Há mais de 30 anos administrando a chapelaria, Abram Kirszenwurcel lista os clientes famosos que já passaram pela El Sombrero, tudo devidamente comprovado pelas fotos na parede atrás do caixa: os comediantes Chico Anísio e Jô Soares, o cantor Sérgio Reis, o lutador Maguila, o apresentador Otávio Mesquita e o DJ Zé Pedro. Até o governador Geraldo Alckmin (PSDB) está lá. "Mas veio na campanha", diz, rindo.

Do outro lado da rua, na Esquina Chapelaria, o zelador José Anísio Júnior, de 42 anos, pediu para embrulhar um modelo feminino. É um presente para a filha Joyce, de 9 anos, que já dá sinais de que herdará o gosto do pai pelos chapéus. "Tenho dez em casa. Bonés, boinas, panamás... Gosto de todos", conta.

Clientes assim fizeram com que Luciano Kirszenwurcel mantivesse o chapéu como carro-chefe da loja que assumiu há 16 anos - são 300 vendidos por mês. "Até tentei mudar o perfil, mas não consegui. Calvos gostam muito e os nordestinos são fanáticos. Compram e vão aos Correios despachar para parentes."

Para quem se animar por andanças pelas chapelarias, é bom saber que os quatro materiais principais usados são feltro, que pode ser de lã ou pelo de lebre; palha, como o panamá; tecido e shatung, conhecido como "panamá chinês", feito à base de celulose.

O nome engana

Palha do panamá de verdade é do Equador

QUALIDADE DO PRODUTO É MEDIDA PELO NÚMERO DE NÓS POR POLEGADA NO TRANÇADO

O panamá tem esse nome por ser feito da palha que só nasce no... Equador! O valor vai de R$ 150 a R$ 250. A qualidade é medida pelo número de nós por polegada no trançado. Um dos mais caros é o de Montechrist, que chega a R$ 5 mil.

40 anos de serviço

O engraxate dono da cadeira nº 1 da Sé

SANDOVAL, DE 83 ANOS, DIZ QUE SEGREDOS DOS CLIENTES FAMOSOS NÃO SAEM DALI

Há mais de 40 anos como engraxate em São Paulo, Sandoval Rodriguez, de 83, é dono da cadeira número 1 entre as 11 da Sé. Ali já passaram Paulo Maluf e Romeu Tuma. "O que as pessoas falam aqui não sai daqui."

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