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Fernando Reinach
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Onde acaba nosso futuro?

O governador de São Paulo tem afirmado: "Temos água até novembro". Esta afirmação é verdadeira. Basta olhar os relatórios diários emitidos pela Agencia Nacional de Águas (ANA) para constatar que ela é correta. Mas outra frase, também correta, e também plenamente justificada pelos dados da ANA, é a sentença que deveria estar nos lábios de nossos líderes: "Nós não temos água para abastecer São Paulo depois de novembro".

FERNANDO REINACH , O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2014 | 02h02

Qual a diferença entre as duas frases? A primeira é aparentemente incondicional. Aconteça o que acontecer, tudo vai correr bem até novembro. Mas ela é irresponsável pois nada afirma sobre um futuro não tão distante, os primeiros meses de 2015.

A segunda frase é potencialmente falsificável. Existe uma probabilidade de no próximo verão chover o suficiente para encher todas as represas. Mas pode não chover. O grande mérito da segunda frase é que ela alerta a população para a possibilidade de uma crise insuperável em 2015.

Os políticos preferem a primeira. Para eles o futuro termina dia 15 de novembro. Mas, para a maioria da população, o futuro se estende além de novembro e me arrepia pensar que "se não chover, vamos distribuir água com uma caneca". A honestidade intelectual esta com a segunda frase.

Pois bem, vamos então ao cerne da questão: qual a probabilidade de não chover no próximo verão? E o que vai acontecer se a seca de 2014 se repetir em 2015? Este é um problema semelhante ao enfrentado por uma pessoas que faz sexo sem proteção com um parceiro infectado pelo HIV: a probabilidade de contrair o vírus em uma única relação é baixa, mas as consequências, caso seja infectado, são gravíssimas.

Faz 4 anos que as chuvas têm ficado muito abaixo do esperado na região do Cantareira. Os reservatórios têm perdido volume todo ano. No último ano eles não chegaram sequer a subir, caíram violentamente e já estamos bombando o volume morto. Por qualquer conta que você faça, se 2015 for semelhante a 2014, não haverá água sequer para organizar um racionamento civilizado. Hoje, contando até a última gota presente nos reservatórios temos cerca de 500 bilhões de litros. Em junho de 2013 tínhamos 1,1 bilhão de litros. Ou seja, a seca dos últimos 12 meses consumiu 600 bilhões de litros .

O governo parece despreocupado. Divulgou que uma seca como essa só se repete a cada 3 mil anos apesar de uma semelhante ter ocorrido faz 60 anos. Óbvio que não divulgaram como as contas foram feitas, mas este tipo de conta, em que se usa a série histórica das medidas feita no passado, assume que as condições não mudam ao longo do tempo. Em outras palavras, as condições do passado são semelhantes às do presente e continuarão semelhantes no futuro. Você não precisa acreditar em mudanças climáticas globais para perceber quão falsa é essa premissa. Como era a Região Metropolitana em 1930? Portanto, me espanta a leniência dos estatísticos profissionais. Não pediram para examinar o estudo, não checaram as premissas, e não divulgaram uma crítica (se alguém tem uma cópia deste estudo por favor me envie, terei prazer de me retratar por escrito se estiver enganado). O fato é que não sabemos a probabilidade de chover abundantemente após novembro.

E com esta dúvida acredito que o governo tem o dever de responder com transparência a pelo menos uma pergunta. Das quase 8 milhões de pessoas que hoje recebem água do Sistema Cantareira, qual o número, e onde moram, as pessoas que só podem ser abastecidas pelo Cantareira? No meu bairro fomos transferidos do Cantareira para a Guarapiranga, mas em certas regiões da cidade isso é impossível. Porque este dado é importante? Porque ele pode afetar milhões de pessoas. Se a Cantareira realmente secar, e esse número for de 20 mil pessoas, uma frota de caminhões pipa resolve o problema. E se esse número for 50% de todas as pessoas que hoje bebem do Cantareira? Como fornecer água para mais de 4 milhões? Me parece que estas pessoas terão que abandonar suas casas por meses ou anos. É isso que os técnicos querem dizer quando afirmam que a Grande São Paulo não pode depender tanto de um único sistema como o Cantareira. Adoraria que me convencessem que esta conclusão é a visão delirante de um ignorante.

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