''Onda verde'' se espalha por lojas e feiras

Crescem nos bairros da cidade as opções orgânicas, 'naturebas' e de origem certificada para adeptos do consumo consciente

Filipe Vilicic, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2010 | 00h00

A administradora de empresas Cecilia Lotufo, moradora da Lapa, na zona oeste de São Paulo, considera-se radical na hora das compras. "Não como em fast-food, não pego refrigerante para crianças em festinhas", diz. Ela é uma consumidora consciente. "Dou preferência a alimentos e outros produtos de origem orgânica, que prejudicam menos o meio ambiente e a minha saúde." Um hábito que tem se difundido entre paulistanos e criou um mercado à parte.

Cecilia é frequentadora do Espaço da Cultura de Consumo Responsável, evento que ocorre às quartas no Tendal da Lapa. A iniciativa, que começou em maio, mistura palestras educativas com feira de produtos agroecológicos e de economia solidária. Cerca de 20 comerciantes vendem café, hortaliças e pães.

"Mais do que incentivar o setor, queremos mudar o hábito do paulistano", diz Ana Flávia Borges, coordenadora do Instituto Kairós, um dos responsáveis pela empreitada. "Mostramos que ter consciência na hora de consumir é essencial para conservar o meio ambiente e ser saudável."

"E a metrópole está cada vez mais aberta a esse pensamento", defende Ana. Tanto que já estão sendo planejados novos espaços como o da Lapa. "Essa experiência no Tendal é a primeira de uma série", conta. "Em breve, teremos um espaço similar, também na Lapa, e criaremos pontos em outros bairros."

Produtos. Com o crescimento da preocupação do consumidor paulistano, inflou também a oferta de produtos. Inaugurada em 2008, a loja Eden, na Vila Madalena, comercializa roupas 100% orgânicas. "Pesquisamos durante quatro anos antes de abrir", diz o dono, Jorge Yammine. "E vimos que, pela consciência do povo, a capital paulista seria o melhor lugar para começar algo do tipo."

Ele também cria produtos não-sustentáveis para grandes redes varejistas. "Mas está cada vez mais fácil convencer o paulistano a comprar de forma consciente", diz. "Assim, podemos investir mais nesse mercado." As vendas de suas roupas orgânicas crescem em torno de 150% ao ano.

Nas lojas Mundo Verde, os atendentes são treinados para orientar o cliente a comprar de forma consciente. "Apontamos os alimentos sem agrotóxicos, usamos sacolas biodegradáveis", explica a nutricionista Flávia Figueiredo, que trabalha na rede. "Nossos funcionários sabem mostrar a importância de não desperdiçar, de mudar a atitude na hora de consumir", completa o diretor de Marketing, Donato Ramos.

Preocupação. "Não existe vida sem consumo nem impacto", destaca Ricardo Oliani, coordenador do Instituto Akatu, que trabalha para mobilizar os indivíduos para que se tornem consumidores conscientes. "Mas é preciso fazer tudo de forma sustentável, para minimizar os danos ao planeta."

Hoje, por exemplo, um terço do que é comprado no Brasil vai parar no lixo, sem ser consumido. "Para contribuir com nossa luta, basta mudar algumas atitudes", explica Oliani. "Não coloque mais comida no prato do que vai comer, recicle o lixo, dê preferência para alimentos certificados por entidades do setor."

Certificados. O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) tem selos que qualificam madeiras e produtos de agricultura. Por meio de uma auditoria, o órgão determina quais empresas trabalham com base em critérios socioambientais.

Alimentos certificados, a exemplo do café Ghini, podem ser encontrados na rede de supermercados Pão de Açúcar. A Chocolat du Jour, com lojas no Itaim, nos Jardins e nos Shoppings Iguatemi e Cidade Jardim, também conquistou o selo.

"Garantimos que a empresa não desmata, não polui", afirma o agrônomo Lineu Siqueira Júnior, do Imaflora. "Notamos que aumentou muito a atenção dos empresários para o assunto."

Prova da evolução é que, em dezembro, o Imaflora tinha 360 empreendimentos brasileiros certificados. Um aumento de 12% em relação a 2008. "O cenário só melhora porque o consumidor começou a cobrar essa postura sustentável das empresas", destaca Siqueira.

Um pouco mais sobre essa ''onda''

Carne. "Ela é tida como a vilã (dos prejuízos ao meio ambiente)", afirma Hugo Bethlem, vice-presidente do Grupo Pão de Açúcar. "Mas dá para consumi-la de forma consciente." A rede tem um selo para acompanhar a produção das carnes Taeq. "Certificamos que ela é feita sem desrespeitar a natureza", afirma Bethlem.

Frutas. É possível achar produtos de origem orgânica às quartas, no Espaço da Cultura de Consumo Responsável, no Tendal da Lapa, e em uma feira do Parque da Água Branca. A Imaflora também certifica produtos agrícolas com o selo Rainforest Alliance Certified.

Café. A dica é comprar tipos orgânicos, tratados manualmente (sem ser de forma industrial) por pequenos produtores. Há opções na feira do Parque da Água Branca, na rede de lojas Mundo Verde e no Espaço da Cultura de Consumo Responsável, no Tendal da Lapa. Também é possível achar sucos, chás e outras bebidas.

Roupas. Há opções orgânicas de jeans, camisetas, blusas, vestidos e afins na Eden, na Vila Madalena. "E, na fábrica, reciclamos a água e usamos um processo sustentável de tingimento. Preferimos corantes vegetais, evitamos químicas", afirma o proprietário, Jorge Yammine. "Também compramos algodão apenas de pequenos produtores."

Sacolas. Para evitar o desperdício, não use sacolinhas plásticas nas compras. A dica é optar pelas ecobags ou por lojas que têm peças biodegradáveis, como as da rede Mundo Verde. "Mas também não adianta comprar uma ecobag e esquecer de levá-la para que ela possa ser usada várias vezes", diz Oliani, do Akatu.

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