Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Onda de imigração pós-terremoto traz haitianos para a capital paulista

Paga-se até R$ 5 mil por travessia com objetivo de chegar a São Paulo, Rio e Brasília e maioria acaba em instituições de caridades

Marici Capitelli, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

De uma casa devastada em um terremoto - em um país miserável - para o abrigo em uma instituição de caridade na maior cidade da América do Sul. Esse tem sido o roteiro dos refugiados haitianos que já chamam São Paulo de lar.

Para chegar ao Brasil, eles desembolsam até R$ 5 mil e a travessia é feita por coiotes - atravessadores. O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), que esteve nas fronteiras de Acre e Amazonas (principal polo de entrada), observa que o objetivo final deles já é chegar a São Paulo, Rio ou Brasília. No Acre, o parlamentar viu um mapa do Brasil com as cidades para as quais os refugiados pretendem seguir marcadas com alfinetes - São Paulo está em destaque. "A imigração começou em escala pequena, mas está crescendo muito. Ninguém tem ideia de quantos ainda vão vir."

Na capital paulista, os haitianos são um público que chama a atenção nos serviços assistenciais. De 2010 para cá, passaram pela Casa do Migrante, que tem 105 vagas, 52 deles. "É um número muito alto, levando-se em conta que se trata de uma só nacionalidade", diz a gerente, Carla Aparecida Silva Aguillar.

De acordo com a Cáritas Arquidiocesana, cerca de 70 haitianos passaram pela entidade em 2011. Mas o número pode estar subestimado, uma vez que nem todos procuram a instituição. Atualmente, 11 estão morando na Casa do Migrante e outros 14, no albergue Arsenal da Esperança.

Sem lugar. Há 20 dias, uma viatura da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social (Smads), que recolhe pessoas em situação de rua, chegou com outros dez. "Não tivemos como acolhê-los por falta de vagas. Não sei para onde foram", afirma Carla. Procurada, a Smads não informou onde o grupo foi colocado.

A tendência desses imigrantes é acabar na clandestinidade, tanto na capital paulista quanto em outras cidades do País. Isso porque não existem políticas públicas de atendimento. "É um escândalo. Não se organizou nada. E era evidente que isso iria acontecer", diz o professor Omar Ribeiro Thomaz, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com trabalhos realizados no país caribenho. "Eles estão indo em grande número para outros países. É espantoso que o Brasil, que quer desempenhar papel de potência regional e até mundial, não tenha capacidade de incorporar algumas centenas de indivíduos", ressalta.

Em Tabatinga, no Amazonas, a Polícia Federal tem recebido em média 40 novos imigrantes por semana. "Estamos pedindo doações nas missas e nas rádios", diz o padre Valdecir Mayer Molinari, da Pastoral do Migrante de Manaus, ressaltando que 650 haitianos já obtiveram trabalho, mas não conseguem manter-se sem auxílio. Há ainda alguns acolhidos em igrejas, quitinetes e até nos salões paroquiais.

Até agora, foram emitidos 1.307 protocolos de pedidos de refúgio e outros 250 haitianos estão na cidade esperando atendimento. Mas ninguém vai ter direito ao status de refugiado, como garante o Comitê para os Refugiados (mais informações nesta página).

Observando a procura cada vez maior por São Paulo como destino, o padre tem aconselhado esses imigrantes a não viajar para a capital paulista por conta de sua dimensão. "Em São Paulo, é tudo mais difícil para eles."

De motorista a encanador. Mas há quem não meça esforços para chegar à capital paulista. Lovensky Barthelemy, haitiano de 36 anos que trabalhava como mecânico e motorista no país natal, está em São Paulo há oito meses. "Não tinha jeito de continuar lá. O Brasil e São Paulo são o caminho para reconstruir a minha vida", diz. Ele agora atua como ajudante em uma obra próxima da Paulista, mas tem a expectativa de ser promovido a encanador. Ao contrário da maioria dos haitianos que chega ao País, entrou pela Argentina. Para isso, gastou R$ 4,8 mil - tudo o que tinha.

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