Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Onda de furtos ameaça patrimônio histórico do Cemitério da Consolação

Primeiro espaço público para sepultamentos da capital tem sido alvo de saques nos últimos meses; bandidos levam de peças de mármore a vitrais e estátuas

Diego Zanchetta, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2014 | 02h03

Primeiro espaço público para sepultamentos de São Paulo, inaugurado em 1858, e único tombado pelo patrimônio, o Cemitério da Consolação é alvo de uma onda de furtos que tem feito desaparecer parte de seus 156 anos de história. Algumas dezenas de obras de arte - esculturas em bronze, estátuas, vitrais do século 19 - que transformaram o local em ponto turístico oficial da cidade de São Paulo sumiram nos últimos meses. Entre os 22 cemitérios administrados pela Prefeitura, o da Consolação é o campeão no registro de furtos.

Parte desse tesouro que desapareceu estava exposta em túmulos de dois ex-presidentes da República, dos escritores Monteiro Lobato e Mário de Andrade e da pintora Tarsila do Amaral. Até portas de bronze e colunas de mármore Carrara de capelas com mais de cem anos, construídas por famílias que tiveram papel de protagonismo no início da industrialização paulista, estão sendo levadas pelos ladrões.

Desde janeiro de 2013, quando a administração do cemitério passou a fazer boletins de ocorrência para todos os casos de furto, já foram contabilizadas mais de 500 peças levadas - incluindo 216 portões de bronze de jazigos e capelas. Em um único dia - 23 de março deste ano - foram levados 45 portões de bronze.

É impossível andar mais de 20 metros sem observar um túmulo violado. Os "remendos" feitos muitas vezes só com tijolo e cimento em jazigos, sem nenhum acabamento, estão mudando a paisagem do cemitério tradicional. No lugar das portas de bronze com adornos em detalhes que remetiam à época cafeeira ou às iniciais dos sobrenomes das famílias estão agora sacos de lixo pretos, presos com fitas ou esparadrapo.

Da guirlanda dourada de Monteiro Lobato a uma porta com 200 quilos de bronze da família Jafet, jazigos de personalidades que ajudaram a fazer a história da cidade, indicados até em um guia de visitação da Prefeitura, têm sido a preferência dos ladrões. Alguns túmulos recém-furtados chegam a ficar abertos, com as caixas onde ficam os ossos dos mortos enterrados expostas para a observação de quem passa.

É nessa situação que o Estado encontrou, por exemplo, o túmulo do escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945) na manhã da quinta-feira, por volta das 10 horas: completamente aberto e com as gavetas visíveis. É um dos jazigos indicados para turistas no encarte oficial da Prefeitura - as visitações com guias turísticos acontecem todas as terças e sextas-feiras no cemitério.

As lápides com o nome do escritor modernista e de seus parentes, dois vasos e duas estátuas também foram furtados do túmulo. Nos últimos três meses também foram registrados furtos nos túmulos dos ex-presidentes Campos Sales (1845-1913) e Washington Luís (1869-1957), do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), do jornalista e médico Líbero Badaró (1798-1830), do conde Armando Álvares Penteado (1884-1947) e do advogado Cásper Líbero (1889-1943).

Capelas. Outro alvo dos assaltantes têm sido as capelas construídas no final do século 19 por algumas das famílias mais tradicionais da cidade. Neste mês foram roubadas as portas em bronze das capelas mantidas pelas famílias Jafet, Crespi e Marzullo, com destaque na industrialização da capital, no início do século 20.

De dentro da capela os ladrões levaram lustres, estátuas, correntes e castiçais com mais de cem anos. Da capela mantida pela Beneficência Portuguesa foram levados vitrais italianos e pedaços de mármore branco do altar.

Mauro de Paula Custódio, de 73 anos, presta serviços para famílias donas de túmulos há meio século. Seu pai também era coveiro no local. "O cemitério está sumindo aos poucos. Já está tudo muito diferente de quando eu conheci aqui. Isso era um museu a céu aberto", disse o prestador de serviço.

Desmonte. "O cemitério está sendo saqueado. Estou vendo tudo sumir semana após semana, sem ninguém fazer nada", afirmou o advogado José Roberto Bernardez, de 47 anos. Proprietário de túmulo furtado e um "apaixonado pela história do cemitério", Bernardez tem cobrado da Polícia Civil e da administração do cemitério providências contra os furtos. "Mas nada acontece. Nesse último domingo (dia 20) furtaram mais de dez portas de bronze dos túmulos de novo."

Informado pela reportagem sobre o furto na capela de sua família, Basílio Jafet, de 57 anos, vice-presidente do Secovi (sindicato da Habitação), indignou-se. "É realmente lamentável. Muita história de paulistanos que construíram a cidade está ali. Dá vergonha de saber que estão roubando até peças de um local como um cemitério."

Os túmulos do coronel Silva Telles, do ministro Pedro Chaves e da família Bernardini (donos da Cutrale) também foram furtados. Até um busto em bronze com mais de cem quilos do túmulo do médico Otaviano Alves de Lima (que deu nome à Marginal do Tietê) foi levado. É até difícil encontrar um túmulo no cemitério que esteja 100% intacto. A maior parte deles já trocou a antiga porta de bronze por uma de granito. "Mas até as portas de granito o pessoal está roubando agora", disse um coveiro à reportagem.

No domingo passado, também tentaram levar uma guirlanda em bronze do mausoléu da Família Matarazzo, o maior da América Latina - tem três andares e 25 metros de altura do subsolo ao topo. Mas não conseguiram porque a peça estava presa à parede com soldas colocadas recentemente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2014 | 02h03

O Serviço Funerário do Município de São Paulo planeja colocar nova iluminação, guardas-civis metropolitanos e até cães de guarda treinados dentro do Cemitério da Consolação, na região central. O plano para tentar frear a onda de furtos é coordenado pela advogada Lúcia Salles França Pinto, de 52 anos, nova diretora do Serviço Funerário. A própria família da advogada mantém um túmulo no cemitério desde 1862.

"Os furtos não começaram agora. É que passamos a fazer o registro de tudo o que é furtado. Não estamos escondendo mais o problema para debaixo do tapete", disse a diretora. Com o secretário municipal de Serviços, Simão Pedro, ela se reúne amanhã com o secretário estadual da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, para tratar, entre outros assuntos, da segurança nos cemitérios.

A gestão Fernando Haddad (PT) também vai colocar durante o período da madrugada cães treinados, da raça pastor alemão, para fazer "rondas" dentro dos cemitérios com maior registro de furtos, como o da Consolação e o Araçá, em Pinheiros, na zona oeste.

"Estou conversando com (o secretário municipal de Segurança Urbana) Roberto Porto para reformar a segurança na Consolação. Mas eu não tenho como colocar um guarda em cada túmulo. É um espaço privado, e eu não posso contratar segurança pago com dinheiro de imposto do morador da Cohab para vigiar jazigos privados", afirmou Lúcia.

Hoje apenas dois funcionários fazem a vigilância do espaço de 76 mil metros quadrados nas madrugadas. Os furtos acontecem principalmente nos túmulos próximos do muro que faz frente com a Rua da Consolação, na parte mais baixa e sem arames farpados. Só existem seis câmeras de segurança nos quatro cantos do cemitério.

"Tem muitas árvores balançando na frente dessas câmeras, o que atrapalha a visão. Vamos reorganizar essa forma de monitoramento, com a instalação de novos equipamentos", disse a diretora. Sensores que fazem disparar uma luz forte na presença de pessoas, como os que existem na frente de alguns prédios residenciais de áreas nobres, também serão instalados nas principais quadras do Cemitério da Consolação.

A Polícia Civil enviou na semana passada investigadores ao cemitério que ouviram funcionários e parentes que tiveram seus jazigos furtados. Dois depoimentos de familiares também foram prestados no 4.º Distrito Policial, onde está o inquérito sobre a onda de furtos. Nos últimos dois meses o Serviço Funerário já solicitou reforço das rondas da Guarda Civil Metropolitana (GCM), mas os furtos, segundo funcionários, ocorrem quase sempre durante as madrugadas.

O promotor Valter Santin, do Patrimônio Público do Ministério Público Estadual, também acompanha o caso.

Sem privatização. A nova diretora do Serviço Funerário adiantou ao Estado que o governo atual não tem nenhuma intenção de privatizar o órgão, como chegou a ser estudado em 2009. "O estado de bem-estar social precisa ser acolhedor no momento mais sensível das pessoas. Transformar o corpo de um ente querido em mercadoria não é certo", afirmou Lúcia, que comandou o setor de Abastecimento na gestão Luiza Erundina (1989-1992). 

Mais conteúdo sobre:
cemitériocãesroubossão paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Degradação decepciona turistas

A degradação do Cemitério da Consolação também decepciona turistas que vão ao local orientados pela própria Prefeitura. Tombado pelo Conselho Estadual do Patrimônio Histórico (Condephaat), a área está indicada como um dos pontos de visitação da capital pela São Paulo Turismo (SPTuris) desde 2012. As visitas guiadas gratuitas acontecem no cemitério todas as terças e sextas-feiras.

Coveiros falam em 'máfia do granito' no Consolação

Quando um túmulo tem suas portas e vasos roubados, um coveiro entra em contato com os familiares e imediatamente oferece uma nova porta de granito. O valor é de R$ 300 já instalada. "Eu digo que é melhor colocar logo uma porta de granito, porque se colocarem de bronze vão roubar de novo, lógico", disse um coveiro à reportagem.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.