Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Oficinas em São Paulo revelam inventores

Rede de laboratórios municipais incentiva pessoas comuns a desenvolver soluções criativas

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Foi quase como montar um quebra-cabeças. Ao longo de 12 horas, Amélia de Souza Pereira, de 41 anos, imprimiu e encaixou as 64 peças que compõem o primeiro objeto que inventou em toda a sua vida: uma boleira. O resultado veio logo na segunda tentativa e, assim como os tantos outros que criou posteriormente, é voltado para resolver dificuldades cotidianas de pessoas que não têm plena mobilidade manual.

Ex-diarista, Amélia perdeu parte do movimento da mão esquerda após sofrer um acidente de trânsito há mais de três anos. Por causa disso, quando preparava um bolo, por exemplo, a aparentemente única alternativa era segurar a vasilha até o conteúdo cair sozinho na forma, contado apenas com o apoio da gravidade. Agora, com a nova boleira, deixa a vasilha presa em um suporte enquanto utiliza uma colher para despejar a massa.

Da mesma forma, criou uma tábua de cozinha com orifícios, em que prende peças que se ajustam e seguram o alimento enquanto é cortado. Antes ela precisava colocar um garfo na boca para segurar o alimento ou pedir ajuda a uma irmã que mora na vizinhança. Atualmente, seu principal projeto é um grampo para exercitar o movimento de abrir e fechar a mão. Amélia evita, contudo, dar mais detalhes da ideia porque ainda não discutiu a efetividade do objeto com profissionais da área de saúde.

“Hoje, quando eu vejo um problema, já penso em uma solução, não só para mim, mas para outras pessoas também”, diz ela, que garante não ser difícil seguir o seu exemplo, tanto que almeja novas conquistas, como cursar graduação em Física assim que terminar o supletivo, iniciado há pouco mais de um ano após 25 sem estudar. “Aumentou a minha autoestima.”

O lado inventora de Amélia surgiu no início de 2016, quando começou a frequentar o Fab Lab CEU Três Pontes, no Jardim Romano, no extremo leste, laboratório digital da rede municipal Fab Lab Livre - que completou dois anos em agosto.

Os espaços são alinhados com o movimento maker, que propõe o aprendizado na prática, por vezes utilizando equipamentos tecnológicos, como a impressora 3D e a máquinas de corte a laser. Embora em parte envolva tecnologias sofisticadas, além de já consolidadas (como instrumentos básicos de marcenaria, por exemplo), a ideia é que pessoas sem experiência consigam produzir projetos com instrução ou a realização de um curso rápido - no caso da rede, com duração a de quatro a 96 horas.

Em geral, a ideia é fomentar protótipos de projetos, que possam ser replicados depois com materiais mais resistentes, caso seja esse o objetivo do criado. Os inventos de Amélia, por exemplo, eles tiveram de ser impressos em diversas peças devido ao tamanho da impressora 3D, tornando os objetos mais frágeis.

Segundo um dos líderes da rede Fab Lab Livre, que coordena o cotidiano dos 12 laboratórios, o arquiteto Ricardo Delgado, de 27 anos, a ideia dos programa é “deixar as pessoas aptas” a partir de pequenos apoios para elas terem “liberdade de criar”. “A Amélia é o exemplo perfeito disso. Ela percebeu que poderia solucionar problemas que ela enfrentava”, comenta.

Sustentável. O designer Marco Zarif, de 23 anos, nunca havia visitado Heliópolis até cerca de um ano. Morador das imediações do Parque do Ibirapuera, ele diz ter desconstruído estereótipos que carregava sobre a comunidade assim que começou a frequentar o Fab Lab  Heliópolis, por indicação de um amigo.

Embora tenha outras unidades da rede mais próximas de casa, ele ainda prefere a primeira que visitou. “Virou a minha casa, a minha oficina. Um dos técnicos de lá um dia até fechou mais tarde para eu conseguir terminar um projeto para a faculdade a tempo”, explica.

No local, as principais atividades do jovem envolve a criação de pranchas de surfe sustentáveis - uma delas o seu trabalho de conclusão da faculdade.

As duas pranchas têm como diferencial o uso do papelão na fabricação. Enquanto uma traz o material substituindo o poliuretano (e suas variações) na parte interna; a que ainda está em desenvolvimento é basicamente feita de papelão, que ganha uma laminação de fibra de vidro para resistir à água.

Criadas a partir de projetos disponibilizados na internet para replicação e adaptação (chamados de “open source”), as pranchas têm como diferencial serem integralmente recicláveis. De acordo com Zerif, quando danificadas, elas podem ser transformadas em outros produtos, como brinquedos, mas não novas pranchas. “O surfe tem uma relação muito próxima com a natureza. Mesmo quem surfa só por surfar fica incomodado quando vê uma garrafinha boiando no mar”, defende.

Compartilhar conhecimento. Criado por cinco jovens professores de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo (USP), o João de Barro Ensina nasceu em setembro de 2015, mas cresceu no ano seguinte, quando alguns integrantes começaram a frequentar cursos no Fab Lab da Chácara do Jockey, na zona oeste. Foi lá que aperfeiçoaram o cabeloscópio e o cuboscópio, microscópios caseiros feitos com uma webcam e papel ou mdf, e ainda desenvolveram de outros tipos (até mesmo com canudinho de plástico), com alcance que vai de 100 a 300 vezes o tamanho real.

“Somos um grupo de amigos muito próximos, curiosos, que queria entender mais disso, queria mexer, nada muito pretensioso”, explica o professor de Ciências da rede municipal Kyoshi Beraldo, de 27 anos.

Ao todo, o João de Barro já fez mais de dez oficinas para crianças e professores da educação básica. Para Kyoshi, as gerações mais recentes nascem como “nativos digitais”, utilizando equipamentos variados desde a primeira infância, mas a imensa maioria ainda fica restrita apenas ao consumo. “São analfabetos digitais, porque nunca produziram nada, embora não seja necessário um conhecimento especializado para fazer isso”, comenta. “A grande graça de tudo isso é mostrar que todo mundo pode.”

Também integrante do projeto, o professor de Ciências da rede municipal Rodrigo Tsuzuki, de 29 anos, destaca a portabilidade dos microscópios, que são do tamanho de um smartphone e pode ser conectado a um aparelho eletrônico, podendo, por exemplo, projetar e um data show o que um único indivíduo consegue ver na lente. “Na aula é ótimo, porque todo mundo interage junto. Se fica só um aluno por vez, o resto da turma acaba perdendo interesse”, aponta.

Fab Lab Livre. A rede reúne 12 espaços em todas as regiões da cidade. As aulas são realizadas por técnicos da unidade e professores voluntários, com as atividades geridas por uma empresa privada. Com o prazo dos dois anos concluído, uma nova licitação deve ser lançada ainda em outubro, de acordo com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, que reuniu alguns dos principais projetos na SP Maker Week, semana de atividades realizada em outubro.

Nos espaços, além de coordenar as atividades, alguns técnicos também desenvolvem projetos para melhorar o espaço, como o designer Estevão Pessotta, de 29 anos, que criou um sistema de irrigação automatizado para a horta do Fab Lab Vila Itororó, na Bela Vista, na região central. Em fase de testes em um único vaso, de espinafre, sensores identificam a umidade da terra e a temperatura ambiente, libera água quando estão abaixo do padrão ideal. Na execução, reutilizou alguns equipamentos, como uma válvula de máquina de lavar.

De acordo com o coordenador de Conectividade e Convergência Digital da SMIT, João Fabiano Martucci Lopes, a ideia é cada vez mais impulsionar as atividades para a educação e o empreendedorismo, o que será feito por meio de novos convênios entre secretarias e a articulação do trabalho com a nova organização selecionada no edital. Se, da primeira vez, houve apenas um concorrente, a expectativa é a concorrência seja maior com o crescimento do movimento maker no Brasil.

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