Oficina Boracea vira 'depósito' de sem-teto

Albergue inaugurado em 2003 para receber carroceiros está sujo e abandonado

Gilberto Amendola, Jornal da Tarde

21 de setembro de 2007 | 09h56

Basta uma visita rápida ao albergue Oficina Boracea, na Barra Funda, para saber que ele deu errado. Muito errado. O projeto, inaugurado em junho de 2003 pela então prefeita Marta Suplicy (atual ministra do Turismo), tinha a pretensão de se transformar em uma referência mundial na forma de acolher moradores de rua. Seus 17 mil m² , 600 leitos e a capacidade para 2 mil refeições diárias pareciam, realmente, credenciá-lo ao sucesso. Não foi o que aconteceu. Hoje, o Boracea não passa de um projeto agonizante. Seus albergados, em sua maioria portadores de deficiências físicas (temporárias ou permanentes) e mentais, circulam quase sem assistência pelo pátio. O lugar faz lembrar os piores dias de manicômios como o Pinel (pronto-socorro psiquiátrico do Rio)e o Juqueri (hospital psiquiátrico em Franco da Rocha). Perfil mudou No início, o Boracea recebia muitos carroceiros. Mas, com a saída das usinas de reciclagem da região central, o perfil de usuário mudou. Números oficiais da Secretária de Assistência Social mostram que o Boracea tem 30% de albergados com algum problema mental - e 20% de deficientes físicos. Apesar desse quadro, o local conta com apenas uma enfermeira. Na quinta-feira, o vereador Beto Custódio (PT) e o coordenador da Pastoral da Rua, padre Júlio Lancellotti, fizeram uma visita surpresa ao Boracea. A dupla classificou o que viu de "depressivo, indigno e desumano". A sujeira dos banheiros, os pombos perto dos beliches e a desolação dos albergados foi o que mais chamou atenção."Esse é um equipamento tão grande que não há como manter esse espaço com dignidade. O Boracea aumenta a segregação", comentou Lancellotti. "As condições são precárias demais. Uma pena um projeto como esse ser abandonado desse jeito", completou Custódio. Alguns albergados se juntaram ao coro dos descontentes. "Aqui o pessoal economiza com produto de limpeza", disse a usuária Rosilda Alves de Oliveira, 27 anos. "Os quartos são sujos e tem muito funcionário que trata a gente feito bicho", afirmou André dos Santos , 26 anos. Nenhum representante do Instituto Cirineu, ONG que administra o Boracea, quis se manifestar sobre o assunto. A Secretaria de Assistência Social informou que, como o número de denúncias contra o Boracea aumentou nos últimos tempos, a situação dos atuais administradores ficou insustentável. Em comum acordo com a própria ONG, a secretária vai transferir, a partir do dia 16 de outubro, o Boracea para outra entidade, a ONG Apoio (que já é responsável pelo albergue da Luz). A coordenadora de proteção social especial e adulta, Simoni Piragine, afirmou que algumas atitudes estão sendo tomadas para tentar salvar o Boracea. A primeira tentativa é a de diminuir sua capacidade. "Ao invés de 600 albergados, vamos tentar diminuir para 400. Só assim, poderemos atender melhor. Também vamos realocar mulheres com família para outro albergue", disse. Por conta do novo perfil de usuário, a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social vai firmar parceria com a Secretaria da Saúde. A idéia é que um ambulatório seja montado dentro do Boracea.

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