André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

'Oficialmente, eu não existo nas estatísticas'

Depoimento de Marcelo Caetano, de 22 anos, estudante de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB):

Fernanda Bassette, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h03

Quando criança, nunca tive uma percepção muito clara do que acontecia comigo. Sentia um desconforto e percebia que as pessoas esperavam que eu fizesse uma coisa, mas eu fazia outra. Na escola, ficava isolado: não gostava das meninas nem elas de mim e só brigava com os meninos. Mas sempre fui bom aluno.

Quando tinha 8 ou 9 anos, vesti roupas do meu pai e fui ao shopping. Queria saber se as pessoas me reconheceriam como menino. Usei o banheiro masculino e ninguém falou nada. Foi um alívio.

Minha primeira menstruação foi aos 12 anos. Como fui criado pelo meu pai, sem a minha mãe, não fazia a menor ideia do que se tratava. Foi uma experiência aterrorizante, achei que estava morrendo. Escondi o fato do meu pai por três meses, até que a minha avó me explicou.

Nunca usei maquiagem, esmaltes ou brincos. Gostava de alargadores na orelha. Me vestia sempre de maneira masculinizada: bermudão, calça jeans, camisetas largas. Na adolescência, parei de cortar o cabelo e ele ficou abaixo da cintura. Foi uma tentativa desesperada de me encaixar, um esforço imenso para tentar fazer parte do grupo de meninas.

Desde os 7 anos, me interessava por mulheres, mas nunca me senti lésbica. Sou absolutamente heterossexual - um homem em um corpo biológico de mulher. O desconhecimento sobre isso é tão grande que falta até vocabulário para explicar o que eu sinto.

Eu só fui entender plenamente o que acontecia comigo aos 18 anos, quando estava na faculdade. Eu cursava Direito e, na aula, a professora citou um caso de pedido judicial para mudança de nome civil para o nome social. Na hora me deu um "clique".

Pesquisei durante um mês e descobri a cirurgia para mudança de sexo. Tomei a decisão e liguei para o meu pai. Desde então, ele e a minha família não falam mais comigo. Achei chato, mas não posso passar o resto da minha vida vivendo o que os outros acham que é o melhor para mim, ainda que esse outro seja o meu próprio pai.

Procurei endocrinologistas na rede pública para iniciar o tratamento hormonal, mas nenhum aceitou. Então comprei hormônio (testosterona) clandestinamente e voltei ao médico. Só assim ele aceitou me tratar dentro de uma política de redução de danos. Faço tratamento psicológico pelo SUS, mas por conta própria, não no contexto do atendimento especializado. Oficialmente eu não existo nas estatísticas do SUS entre as pessoas que esperam a cirurgia.

Meus seios são o que mais me incomodam, por isso uso faixas apertadas para escondê-los. Não vou à praia nem à piscina pois me sinto constrangido. A cirurgia para tirar as mamas custa R$ 10 mil. Se tivesse dinheiro, já teria feito. / F.B.

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