Oferta de ajuda federal a SP vira bate-boca

Secretário diz que recebeu só 'visita de cortesia'; governo federal nega e reitera apoio ao Estado

VANNILDO MENDES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h04

A questão da segurança se transformou em bate-boca público entre as esferas federal e estadual. Após declarações feitas pelas autoridades paulistas, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, enviou ofício ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) reiterando a oferta de ajuda ao governo estadual, que, por sua vez, divulgou nota à noite dizendo que ainda não havia recebido nada.

Pela manhã, na apresentação da nova Central de Flagrantes na capital, Alckmin disse que toda ajuda federal é "bem-vinda". Mas ressaltou que as questões de segurança deveriam ser tratadas pelo secretário da Segurança, Antonio Ferreira Pinto. Este, além de negar a oferta de ajuda, disse que "o ministro Cardozo fez apenas uma visita de cortesia". E aproveitou para criticar a ajuda federal ao Rio. "Aqui a polícia entra em qualquer lugar. Aqui não precisa de unidade pacificadora. Aqui não há necessidade de Exército, Marinha e Aeronáutica para garantir eleição, porque a polícia é autossuficiente." Procurado, o governo do Rio não quis comentar o caso.

Mas as declarações fizeram o Ministério da Justiça reagir, em nota oficial, no início da noite. Nela, insiste que tem oferecido ajuda federal para o governo local debelar a onda de ataques de criminosos desde junho, quando se encontrou com Ferreira Pinto. E reitera a oferta de vagas nos presídios federais de segurança máxima para isolar os líderes do PCC e o emprego de toda a estrutura de inteligência do governo federal.

Cardozo também propôs a criação de um grupo de trabalho comum entre tropas da União - incluindo a Polícia Federal e a Força Nacional de Segurança Pública - e as de São Paulo. Mas deixou claro que não mandará recursos descolados de um planejamento estratégico, como o que foi negociado com os governos do Rio em 2010 e o de Alagoas, neste ano. "Não é nossa intenção arcar com investimentos que possam ser custeados pelos cofres estaduais", enfatizou, em entrevista ao Estado. "Passou a época em que a segurança era disputa de mocinhos e bandidos. As ações têm de ser integradas, envolvendo União, Estados e municípios."

É mais um capítulo de um bate-boca público alimentado nos últimos dias pelo secretário de segurança paulista, que acusa o ministro de "faltar à verdade" quando diz que ofereceu ajuda a São Paulo. Cardozo, por sua vez, disse que não vai alimentar polêmicas inúteis e espera que Alckmin ponha fim à animosidade de sua equipe. "Não é hora de trazer disputas políticas à tona, mas de somar esforços no combate ao crime." O diálogo com Ferreira Pinto, todavia, ficou azedo porque ele deixou nas autoridades federais uma imagem de bravateiro e amador no combate ao crime organizado.

A resposta do ministro decorre também da afirmação de autoridades paulistas que atribuem a responsabilidade pela violência no Estado ao governo federal, por suposta falta de fiscalização nas fronteiras. "É inaceitável, além de inverídica, essa afirmação", rechaçou Cardozo. O governo federal frisou que o paulista é quem deveria cuidar das divisas do Estado.

Já o governo do Estado disse, em sua nota à imprensa, que, assim que receber o ofício do ministro, "adotará as providências para intensificar a cooperação no combate ao crime, inclusive no intercâmbio de informações para o aperfeiçoamento do controle das fronteiras". E lembrou que parcerias de sucesso com o governo federal já ocorrem "no combate à miséria, em grandes obras de infraestrutura e na habitação popular".

Reunião. Enquanto trocavam acusações publicamente, em sigilo representantes dos governos federal e estadual se reuniram ontem no Comando Militar do Sudeste e discutiram a situação. Ferreira Pinto tentou circunscrever a crise à relação política entre os governos federal (petista) e estadual (tucano). "Você sabe que não faço demagogia com segurança", disse o secretário ao delegado Roberto Troncon Filho, superintendente da PF em São Paulo. Já Troncon tentou mostrar que as relações com as autoridades paulistas "continuam boas". / COLABOROU MARCELO GODOY

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