Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Ocupações no centro de São Paulo vivem sob riscos

Em outros imóveis invadidos da região, fiações expostas nas paredes e tetos sem forro também são ameaça à segurança dos moradores

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

03 Maio 2018 | 03h00

Centenas de famílias integrantes de movimentos sociais de moradia da capital vivem por anos em habitações precárias em prédios invadidos, convivem com condições de risco semelhantes àquelas do edifício que desabou anteontem no centro de São Paulo, e pagam taxas de manutenção de condomínio. Com fiações expostas nas paredes, fornecimento de água por canalizações improvisadas e teto sem forro, são locais que abrigam crianças, idosos e pessoas de baixa renda. Pelos dados da Prefeitura paulistana, há cerca de 70 desses prédios na capital.

A menos de duas quadras do local do desabamento, a Ocupação São João, na Avenida São João, 588, organizada pela Frente de Lula por Moradia (FLM), tem 77 famílias à espera de uma decisão judicial, adiada para junho, que lhes garanta a posse dos mais de 80 quartos do antigo Hotel Columbia Palace, invadido em outubro de 2010.

Vivendo sem energia da Eletropaulo, os moradores improvisam quase tudo para sobreviver à espera de soluções de moradia. “A luz foi interrompida porque jogaram óleo para queimar a caixa de luz da rua, na frente do prédio”, conta a moradora Vera Rodrigues Marques, de Diadema, na Grande São Paulo, que vive há sete anos e meio no centro da capital com a família num cômodo com banheiro no sexto andar.

Sem elevador, com o pai à espera de uma cirurgia reparadora de crânio, Vera relata que o fornecimento de luz é feito por “um gerador”. Mas outros moradores desconhecem essa informação e dizem não saber encontrar o tal “gerador” em caso de emergência. Vera conta que paga mensalmente uma taxa de R$ 150 para a manutenção da ocupação. “É dinheiro para a portaria e material de limpeza do prédio”, afirma. 

Para a vizinha de Vera, a cozinheira maranhense Luzilene dos Santos Silva, que também paga R$ 150 por mês e mora com a filha adolescente, não há do que reclamar na Ocupação São João e nem a preocupação com eventuais acidentes, como o que ocorreu na vizinhança. “Aqui temos extintor de incêndio nos corredores”, afirma Luzinete, referindo-se ao edifício Wilton Paes de Almeida, destruído na terça-feira. De acordo com dirigente da FLM, Osmar Borges, um dos responsáveis pela administração e organização da São João, 588, “o movimento tem 13 módulos de ocupação em São Paulo, com mais de 4 mil famílias abrigadas”.

Taxa. A precariedade das habitações é também uma certeza para os 237 moradores da Ocupação Mauá, na Rua Mauá, 340, embora eles paguem mais caro do que na São João: R$ 180 por família. O Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC) divide a organização com a Associação Sem-Teto do Centro (ASTC-SP) e o Movimento Moradia da Região Central (MMRC). Ivaneti Araújo, líder do MSTC, diz que os moradores pagam a taxa para a manutenção da ocupação. “Há despesa com a portaria, com a limpeza”, diz. 

Segundo ela, os moradores da Mauá aguardam desde 2007 por decisões de governo e da Justiça para a ocupação do imóvel. O local foi um hotel, ao lado da Estação da Luz, e segundo o movimento, foi comprado pela Prefeitura em 2017. Neti, como é conhecida a dirigente do movimento, critica o que chama de clima hostil aos movimentos sociais. “Há uma tentativa de criminalização dos movimentos de moradia”, afirma. 

Prestes Maia. A menos de cinco minutos da Mauá, na Avenida Prestes Maia, 911, outro edifício, com 21 andares no bloco B e 9 andares no Bloco A, tem 478 famílias, aproximadamente 1,5 mil pessoas, dividindo espaço também sob o comando de Neti. O local teve situação judicial encaminhada, ainda na administração anterior, por desapropriação. Mas os moradores aguardam o desenrolar do processo porque para a posse ocorrer é necessário que o prédio seja desocupado para reforma e, depois, ser reocupado em condições de habitação regular. 

Os coordenadores, porém, alertam que os ocupantes não pretendem sair das unidades nem para a regularização. “Os advogados estão tentando uma solução”, conta Junior Rocha, da coordenação do Movimento por Moradia, Luta e Justiça (MMLJ). “Aqui, 80% das famílias que entraram na ocupação permanecem nas unidades”, argumenta o coordenador, um dos administradores também de outra invasão, ocorrida no centro em 2013, na Rua João Brícola, 45, e que se mantém com 40 famílias.

Sobre a existência de riscos para os moradores por causa das instalações elétricas à mostra nos corredores e habitações das ocupações, Rocha diz que “há riscos como em qualquer lugar”. Ele argumenta que “há extintores em dia e vistoriados”. E mostra a entrada do edifício da Prestes Maia com uma dezena de extintores aguardando para serem levados aos andares.

Solidariedade. Para a paraibana Severina Conceição, de 51 anos, que migrou para São Paulo em busca de vida melhor, o movimento social “caiu do céu”. Ela conta que todo mês paga os R$ 105 de taxas para o condomínio. “Eu fui moradora de rua, na Sé, e hoje, graças ao movimento, tenho um lar”, afirma no primeiro andar do Prestes Maia.

Na ocupação, onde vive com o marido, Severina se emociona ao lembrar a vida dura nas ruas. E agradece a Deus a oportunidade de viver na ocupação e de poder também ser solidária. Na tarde de ontem, quando lavava a casa com capricho, contou que cria um filho adotivo.

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