Ocupação sucessiva não deixa nem mato crescer

Líder de grupo que está no Jardim Alto Alegre foi retirada do mesmo local há 5 anos; ninguém sabe de quem é o lugar

O Estado de S.Paulo

04 Maio 2014 | 02h01

Viver à espera de uma reintegração de posse já faz parte da rotina da militante Claudinha Roberta, de 48 anos. Ela retornou para o mesmo terreno no Jardim Alto Alegre, na zona leste paulistana, de onde foi expulsa há cinco anos com mais 840 famílias.

No início do mês passado, Claudinha e seu grupo ergueram uma vila de barracas para 640 pessoas que se revezam na propriedade, hoje uma área de preservação permanente. O objetivo é incluir o imóvel em uma das Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis) previstas no novo Plano Diretor - que deve passar por segunda votação na Câmara Municipal de São Paulo até o fim deste mês.

Em 2009, após a reintegração, o grupo ficou vagando pelas redondezas, foi parar debaixo de uma antena de transmissão e depois passou três meses na calçada de um Centro Educacional Unificado (CEU). Parte das famílias consegue receber bolsa-aluguel até hoje, mas a indefinição sobre uma moradia as levou de volta para o acampamento.

Outra parte ganhou uma ajuda provisória por poucos meses. Outros, sem nada, tiveram de ficar até em garagens de parentes. Nesse meio tempo, o terreno continuou sem uso, e o mato só não cresceu mais porque, em outras oportunidades, mais sem-teto tentaram fixar-se ali sem sucesso. "Nós viemos ocupar de novo o Alto Alegre para chamar a atenção do governo e ver se acham uma solução para o local", diz Claudinha. "Se essa área entrar para Zeis, vai dar para fazer moradia popular. Se não, vai ficar sempre nesse mato. A gente nem sabe quem é o dono daqui. Uns dizem que é um japonês. Outros um português..."

Hotéis. Mesmo em imóveis já desapropriados pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab), a entrada forçada é o caminho escolhido. Em antigos hotéis de luxo desativados no centro da cidade, como o Lord Palace e o Cambridge, os sem-teto não aceitaram esperar. "Com nossos próprios recursos, nós tornamos aquele lugar habitável", diz Carmen da Silva Ferreira, outra coordenadora da Frente de Luta por Moradia (FLM).

No Cambridge, a semana passada foi de expectativa sobre o novo Plano Diretor aprovado em primeira votação na Câmara Municipal. Mesmo aqueles que já obtiveram um espaço para morar continuam no movimento para ajudar outros ou conquistar algo para um parente ou amigo. "Eu já consegui a minha casa e agora quero uma para as minhas filhas", diz Magali Maria, de 46 anos, há 17 anos no movimento por acesso à moradia.

Sua rotina é de dedicação total à causa. Quando entrou no hotel, um único cano distribuía a água e uma fiação precária atendia os moradores. Banheiros e cozinha eram coletivos. Na limpeza, os entulhos encheram 50 caçambas. "A gente tinha de levar a água aqui em cima de balde", lembra Magali. A recompensa foi um espaçoso apartamento com cerca de 70 metros quadrados no quinto andar. /L.B.F.

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