Ocupação atrai até coreano sem-teto

Rapaz veio de prédio ocupado pelo movimento no centro de SP atrás de apartamento; vizinhos de terreno são veteranos neste tipo de ação

O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h04

Daniel Han, coreano de 37 anos, não tem nenhum documento e seu português se resume a pouco mais de dez palavras. Nos últimos 15 anos, perambulou por albergues da capital, após os pais voltarem à terra natal. "Aqui todo mundo ser amigo (sic)", declara o rapaz, que mora sozinho em um barraco de 12 m², o último da ocupação em Embu das Artes, no meio da mata.

Ele virou oficialmente um "sem-teto" após morar em um prédio invadido na Avenida São João, na capital, no fim de 2011. "Todo mundo está ajudando Han a retirar os documentos como cidadão brasileiro. O problema é que ele não fala quase nada de português. Conversamos por mímica o tempo todo", fala o vizinho Pedro da Silva, de 24 anos.

Enquanto os colegas tentavam explicar o problema da documentação, o coreano só reclamava que ainda não tinha um cobertor. "Pede para mim um daquele", dizia Han, apontando a manta de um menino dormindo no barraco ao lado.

O frio nos barracos cobertos só com lona, no alto do morro, tem sido insuportável, segundo o coreano. Mas ele promete resistir, como os amigos. "Quero um apartamento", resumiu o imigrante.

Han é um dos poucos iniciantes em invasões. A maior parte ali vive há anos "de lona em lona", como define Raimundo Gomes. Aos 61 anos, ele é o "mestre de obras" na ocupação de Embu das Artes. Gomes vive há mais de 20 anos em terrenos invadidos - esteve nas ocupações da zona leste da capital no início dos anos 1990, participou de invasões nos prédios da região central na década seguinte e, agora, está na "linha de frente" de qualquer ação do movimento.

"Eu nunca senti um clima de vitória tão grande como aqui em Embu. Todas as pessoas que conhecemos ao longo desses anos nas lutas estão aqui. Esse terreno pode ser um marco, como foi a invasão Chico Mendes, em Taboão da Serra, que durou mais de três anos", compara.

Reintegração. O comando da PM em Embu das Artes tem mantido diálogo com as lideranças invasoras. Uma saída pacífica dos invasores, porém, é cada vez mais remota. "Só saímos se alguém garantir os imóveis da CDHU para nós. Pago R$ 300 por mês de aluguel, não tenho casa própria. Moro aqui do lado, não vou sair mais", afirma Alex Morgado, de 22 anos, que erguia seu barraco com a mulher na quinta-feira à noite. Ele não pretendia mudar agora para o barraco. "Vou só garantir meu espaço aqui. Dessa vez parece que as coisas estão dando certo."

Ao lado de Morgado, outras famílias de Taboão da Serra, Cotia e Vargem Grande Paulista levantavam suas lonas. E prometem não arredar pé do terreno. "O clima é de união total", resume Vanessa de Souza, de 30 anos, líder da ocupação.

Decisão. A juíza Bárbara Cardoso de Almeida, da 2.ª Vara de Embu das Artes, vai decidir se o terreno onde está a Área de Preservação Ambiental pode receber conjuntos da CDHU somente depois da reintegração de posse. Isso porque um perito judicial esteve no local no fim de abril e comunicou à juíza que essa avaliação só poderá ser feita depois da retirada dos barracos. /D.Z.

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