Tiago Queiroz/Estadão
'Independência ou Morte', de Pedro Américo Tiago Queiroz/Estadão

Quadros do Museu do Ipiranga criaram imaginário nacional, dizem especialistas

'Independência ou Morte', de Pedro Américo, garantiu a São Paulo uma imagem que associa diretamente o momento histórico Independência à cidade

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2021 | 05h00

O conjunto de obras do Salão Nobre do Museu do Ipiranga foi pensado para exaltar a história do País. À exceção de Independência ou Morte, obra de Pedro Américo (1843-1905) já instalada no cômodo no centenário, todas foram encomendadas aos artistas Oscar Pereira da Silva (1867-1939) e Domenico Failutti (1872-1923). 

“Juntas, essas telas formam um dos mais importantes conjuntos de pinturas de história do país e certamente o mais destacado sobre representações de episódios e personagens da Independência”, explica o historiador Paulo César Garcez Marins, pesquisador do museu. “São muito conhecidas pelos brasileiros, pois ilustram centenas de livros didáticos do país desde o início do século 20, assim como cédulas, moedas, medalhas e objetos decorativos.”

“A estrela é certamente Independência ou Morte. É a mais conhecida representação da Independência entre nós. Foi custeada pelo governo imperial e inaugurada em Florença na presença do imperador Pedro II e da Rainha Vitória da Inglaterra. Antes do Museu, viajou até Chicago, onde foi exibida na Exposição Internacional de 1893. Sua realização e exibição no Museu a partir de 1895 garantiu a São Paulo e ao Ipiranga uma imagem que associa diretamente a Independência à cidade, embora as negociações políticas no Rio de Janeiro e as batalhas na Bahia e no Norte tenham sido decisivas para a consolidação da separação política entre Brasil e Portugal”, contextualiza.

“A pintura foi reproduzida ou reinterpretada inúmeras vezes, incluindo no filme homônimo de Carlos Coimbra, que tentou reproduzir a cena do quadro em torno de Tarcísio Meira, como Pedro I, e até em revistas da Turma da Mônica.”

            Professor na Universidade Estadual do Maranhão, o historiador Marcelo Cheche Galves cita o livro ‘Comunidades Imaginadas’, do historiador Benedict Anderson (1936-2015), para contextualizar o fenômeno decorrente da exposição do Salão Nobre. “É o processo de tornar as comunidades emocionalmente plausíveis e politicamente viáveis, ou seja, como acaba sendo construída a nação a partir de um conjunto de recursos”, aponta ele. “Um desses recursos é projetar um passado de glória, um passado que una em comunhão aqueles que teriam origem na mesma nação.”


            “A obra de Pedro Américo, por exemplo, imagina um país naquele século 19 a partir do que se entendia como princípios básicos de uma grande nação, seus grandes heróis e grandes batalhas. É um tipo de narrativa que, antes de tudo, funciona como manifestação nacional”, explica o historiador.


            Ele ressalta que o fato de o conjunto ter sido planejado para as comemorações do centenário da Independência une o “espaço privilegiado” para a celebração — ou seja, o Museu do Ipiranga — ao “momento oportuno para projetar essas narrativas”. “Isso remetia ao próprio poder de São Paulo, a ideia de pensar o lugar de São Paulo na formação da nação”, comenta Galves. “Evidentemente que a figura de dom Pedro é trazida como ruptura heróica. Dá para pensar nesse conjunto de quadros como uma proposta de narrativa nacional, de glórias, de ruptura com as cortes portuguesas e ereção de um novo país a partir de figuras fundantes.”

Professora na Universidade Tufts, nos Estados Unidos, na Universidade Estadual de Campinas, e autora do livro Arte Não Europeia: Conexões Historiográficas a Partir do Brasil, a historiadora da arte Claudia Avolese lembra que esse era o programa de Taunay — e estava presente em todo o museu. “O projeto, profundamente identificado com as elites paulistas do período, visava a consolidar e visualizar a narrativa da centralidade de São Paulo para a construção da nação, enfatizando o papel dos bandeirantes paulistas no processo de unificação do território nacional”, afirma ela.

Se o Salão Nobre contava essa história da formação do País, o andar térreo era ocupado, no projeto expositivo de Taunay, as salas de iconografia paulista, com a história do Estado. “A posição do salão nobre no andar acima daquele da história paulista, acessado pela escadaria monumental, completa a narrativa de Taunay que posicionava São Paulo como a base a partir da qual a nação pôde ser construída”, conta Avolese. “A narrativa desenvolvida por Taunay é ainda hoje parte da história ‘oficial’ ensinada nas escolas.”

Ela acredita que a equipe de curadores e educadores do museu tem “papel fundamental”, na própria ideia museológica do século 21, de mediar e provocar essas discussões com o público. “A equipe é altamente qualificada para desenvolver esse trabalho”, ressalta.

“O salão nobre apresenta muitas oportunidades para um engajamento crítico com a história de São Paulo e do país. A presença dos retratos de Maria Quitéria e de Dona Leopoldina com seus filhos, ambos de autoria de Domenico Failutti, é uma delas, permitindo discussões à cerca da condição feminina no Brasil de ontem e de hoje, por exemplo”, exemplifica a historiadora. “Preservar um local de memória como este é uma oportunidade fundamental para apreciação da história e da arte criadas no passado, mas que sem dúvida ainda repercutem e estruturam nosso presente.”

Avolese frisa que o ambiente é “o testemunho material dos esforços de auto representação das elites paulista do início do século XX no imaginário nacional”. “Evidentemente devemos ser críticos com relação a esses discursos. Porém, a sua presença material justamente gera a oportunidade de crítica e de revisão. Gera novas narrativas e novas histórias. A preservação destas obras e de seu contexto é assim peça fundamental para reflexão crítica sobre o passado e o presente”, enfatiza.

Professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o historiador Paulo Henrique Martinez vê o Salão Nobre como a convergência de duas narrativas. A primeira é a expressa pela tela ‘Independência ou Morte’. “Que nasceu com a intenção de ser icônica, da exaltação da Monarquia, da lealdade e do protagonismo de São Paulo na separação política e na sustentação política do Império”, comenta. “Foi concebida na década de 1880, quando as críticas e a oposição à Monarquia estavam em ascensão e o movimento republicano tomava corpo justamente na província de São Paulo.”

“Outro [conjunto narrativo] é o das demais telas, composto entre 1921 e 1925 e que completavam a ideia do protagonismo histórico e político nacional de São Paulo nos destinos do Império e da nação brasileira”, prossegue, ressaltando que este grupo “está identificado com outro contexto da vida nacional e do Museu Paulista, o das celebrações do centenário da independência, em 1922”. “Como em um álbum de figurinhas em grande formato, as nove telas retratam personagens e episódios da crise política que resultou no desmembramento do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com a separação, seguida da formação do Império do Brasil.”

Martinez lembra que esse conjunto de telas têm papel importante também na configuração do próprio Museu Paulista. Foi pelo projeto de Taunay, afinal, que a instituição deixou de ser um museu de ciências naturais, como havia sido planejado, para se tornar um museu histórico.

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Obras mais importantes do Museu do Ipiranga são restauradas

Recuperação foi possível graças a financiamento de banco americano

Edison Veiga  , Especial para o Estadão

20 de julho de 2021 | 05h00

Oficialmente é Salão Nobre ou Salão de Honra. Mas, para os 250 mil visitantes que todos os anos realizavam o percurso interno do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, mais conhecido como Museu do Ipiranga, o imponente ambiente de 182 metros quadrados e mais de 10 metros de pé-direito, acessado pela escadaria monumental do edifício, sempre foi o coração do passeio.

No percurso expositivo planejado pelo historiador Afonso d’Escragnolle Taunay (1876-1958) um século atrás para celebrar o primeiro centenário da Independência, em 1922, coube a esse salão a exibição de dez telas importantíssimas para a própria criação do imaginário nacional — entre elas, Independência ou Morte (veja abaixo), obra de 4,15 por 7,6 metros, pintada em 1888 por Pedro Américo (1843-1905) e que se tornaria a maior tela em exposição permanente em um museu de São Paulo.

Era de se esperar que esse espaço e suas obras merecessem um cuidado especial durante as obras de restauração e ampliação do edifício-sede do Ipiranga, em andamento desde outubro de 2019. O museu está fechado desde 2013, quando foi interditado às pressas por segurança. A previsão de reinauguração está mantida para 2022, no bicentenário da Independência.

Mas havia um problema: falta de caixa. "O Museu Paulista tem uma grande quantidade de obras que precisariam ser restauradas para a reabertura das exposições", conta ao Estadão a arquiteta Rosaria Ono, diretora da instituição. "São 43 no total (incluídas as dez do Salão Nobre), com um custo aproximado de R$ 1,3 milhão."

"No entanto, sua concretização dependia de verbas para a realização. O museu tinha, em seu orçamento, cerca de 20% do valor garantido." Veio a ajuda, por meio de um programa de fomento artístico do Bank of America, dos Estados Unidos. 

Dez meses de trabalho. O valor total investido pela instituição bancária não é divulgado, mas, conforme Ono, "o restauro de nove será contemplado pela doação do Bank of America, assim como a aplicação do verniz final do quadro Independência ou Morte" — a tela já vinha sendo recuperada, mas a conclusão do trabalho sofreu atrasos em decorrência da pandemia de covid-19. 'Todos esses quadros compõem o Salão Nobre, o espaço mais visitado do museu antes do fechamento", ressalta a diretora.

Responsável pela área de Meio Ambiente, Social e de Governança do banco na América Latina, o executivo Thiago Fernandes diz que “fazia tempo” que a instituição vislumbrava apoiar o Museu do Ipiranga.

"Além de representar uma documentação visual de importantes momentos históricos, seu acervo nos propicia refletir e admirar, nos conectar a nós mesmos e vivenciar emocionalmente acontecimentos passados", destaca. "Quem quiser entender a construção da nação brasileira independente tem de passar pelo Museu do Ipiranga com tantas obras que refletem tanto em sua temática quanto em sua forma de expressão muitas características genuinamente nacionais." 

Há a previsão ainda da produção de um livro com os bastidores do restauro e a história dessas obras. O início deve ocorrer ainda em julho, e o cronograma prevê que as telas estejam prontas em maio do ano que vem. Independência ou Morte, cujas dimensões não permitem uma retirada segura do ambiente, teve o trabalho de restauro — e agora o terá a finalização — feito no próprio salão. 

"A obra permaneceu na parede em que foi instalada desde 1895. Ela está protegida por uma estrutura metálica e vedações erguidas antes do início das obras de restauro arquitetônico do edifício e do salão", conta o historiador Paulo César Garcez Marins, pesquisador do Museu do Ipiranga.

Segundo Marins, a última vez que esses trabalhos foram restaurados foi nas décadas de 1960 e 1970. "Nove das pinturas ficaram exibidas nessa salão ao longo de quase um século, sendo que Independência ou Morte está ali há cerca de 125 anos — e foi restaurada em 1972", conta. 

"O restauro atual de Independência ou Morte foi iniciado em 2019 com verbas da USP, em ação coordenada por nossa restauradora de pinturas, Yara Petrella”, conta ele. "Isso já permitiu que fossem retiradas camadas de verniz amarelecidas e que novos retoques fossem realizados com materiais compatíveis. As outras nove pinturas passarão por trabalhos profundos de restauro, como planificação, reentelagem, retoques, troca de chassis e molduras, restauro de dourações e aplicação de vernizes protetores." O trabalho deve envolver cerca de dez profissionais.

Retratos de uma nação

Quase todas as telas a serem restauradas são da época do centenário da Independência, exceto a mais valiosa, Independência ou Morte (foto abaixo), de Pedro Américo, do Império (1888). As demais são de Oscar Pereira da Silva e de Domenico Failutti:

Príncipe Regente Dom Pedro e Jorge de Avilez a Bordo da Fragata União (1922), de Oscar Pereira da Silva (veja abaixo)

Retrato de José Bonifácio de Andrada e Silva (1922), de Oscar Pereira da Silva (veja abaixo)

Retrato de Dona Leopoldina de Habsburgo e seus filhos (1921), de Domenico Failutti (veja abaixo)

Retrato de Joaquim Gonçalves Ledo (1925), de Oscar Pereira da Silva

Retrato de D. Pedro I (1925), de Oscar Pereira da Silva

Retrato de José Clemente Pereira (1925), de Oscar Pereira da Silva (veja abaixo)

Retrato de Maria Quitéria de Jesus Medeiros (1920), de Domenico Failutti (veja abaixo)

Retrato do Padre Diogo Antônio Feijó (1925), de Oscar Pereira da Silva

Sessão das Cortes de Lisboa (1922), de Oscar Pereira da Silva (veja abaixo)

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