Obras de Alckmin não resolvem crise hídrica, diz presidente da ANA

Obras de Alckmin não resolvem crise hídrica, diz presidente da ANA

Segundo Vicente Andreu, medidas do governo de SP, orçadas em R$ 3,5 bilhões, só entrarão em funcionamento em 'um ano ou dois'

Nivaldo Souza, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 14h21

Atualizada às 22h55

BRASÍLIA - O Sistema Cantareira vai precisar de um “dilúvio” até o fim deste ano para voltar ao nível de janeiro de 2014, segundo afirmou nesta quinta-feira, 13, o diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, em audiência na Câmara dos Deputados. Em resposta, o governo do Estado acusou o dirigente de disseminar o pânico e de “sabotar” as parcerias que o momento exige.

“Para chegar a janeiro do ano que vem, precisamos de um dilúvio”, disse Andreu. Segundo ele, o principal sistema de abastecimento da região metropolitana de São Paulo precisa de 500 bilhões de litros de água para voltar ao nível de 10 meses atrás e, assim, iniciar o próximo ano com capacidade para enfrentar o próximo período de seca. Para isso, segundo o presidente da ANA, é preciso repor um déficit hídrico de cerca de 20% no manancial e recompor o superávit hídrico de 25% registrado pelo sistema em janeiro deste ano.

Nesta quinta, o Cantareira estava com 10,8% da capacidade - o manancial opera hoje somente com o chamado volume morto, a reserva profunda. “Estamos tentando demonstrar que as chuvas não estão vindo e, se elas não vierem, a situação vai se agravar”, disse o presidente da ANA. Ele participou de audiência da Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio (CDEIC) da Câmara. “O Sistema Cantareira está próximo de 20% negativo. Isso significa que estamos com um déficit a ser suprido.”

O cenário, contudo, não é de precipitações fartas para a agência. Andreu criticou as previsões da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paul (Sabesp) sobre o potencial de chuva para o Cantareira. “Essa persistência em olhar para o futuro de uma maneira otimista em relação às precipitações faz algumas decisões, que precisam ser tomadas para um cenário mais conservador, não serem tomadas. Em consequência, o risco para o futuro passa a ser brutal”, afirmou. 

Andreu também destacou que “as obras anunciadas pelo governo do Estado não resolvem a situação”. Nesta semana, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e a presidente Dilma Rousseff acertaram a criação de um comitê para analisar iniciativas de até R$ 3,5 bilhões - a primeira reunião ocorre na segunda-feira.

“Essas obras entrarão em funcionamento, na melhor das hipóteses, em um ano ou dois”, afirmou o presidente da ANA, ressaltando que faltam opções a curto prazo. “A solução para essa situação é chover, e muito”, disse.

60 dias de chuva. Presente na mesma sessão, a procuradora regional da República da 3.ª Região (São Paulo), Sandra Akemi Shimada, acusou a empresa paulista de abastecimento de não informar a realidade à população. “A sociedade está sendo privada de informações. As informações têm de chegar às pessoas. É preciso falar, sim, de dilúvio”, considerou a procuradora, que é integrante do Grupo de Trabalho sobre Águas (GT Águas) do Ministério Público Federal. 

Para Sandra, será necessário chover durante 60 dias seguidos o mesmo volume da “pior chuva” dos últimos seis anos para recuperar o Cantareira até janeiro. “Essa aposta levará ao esgotamento do Cantareira, deixando à própria sorte 14 milhões de pessoas.”

O deputado Guilherme Campo (PSD-SP), autor do requerimento que resultou na audiência pública desta quinta, também criticou a Sabesp pelo excesso de perspectivas otimistas em relação às chuvas. “Se não houver o dilúvio, vai faltar água. Não tem muita mágica, é fazer conta. Jogar com perspectivas otimistas no cenário mais prolongado é faltar com a verdade.”

Os deputados também reclamaram da ausência da presidente da Sabesp, Dilma Pena. Ela recusou participar da audiência por estar “trabalhando diuturnamente para resolver a crise hídrica paulista”.

Bandeirantes. Em nota oficial, o Palácio dos Bandeirantes voltou a dizer que Andreu dissemina o terror. “Mais uma vez, o presidente da ANA prefere disseminar o pânico na população a abordar, com a seriedade técnica que seu cargo exige, a pior seca da história”, afirma o subsecretário de Comunicação, Marcio Aith. “A frivolidade de suas declarações públicas ofende os paulistas, despreza o esforço de todos no uso consciente da água e sabota as parcerias que o momento exige.”

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