Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Obra vai resgatar história do Juqueri

Complexo psiquiátrico, com prédios de Ramos de Azevedo, passará pela maior reforma desde sua inauguração, há mais de cem anos

Edison Veiga - O Estado de S. Paulo,

08 Dezembro 2013 | 02h05

Seu nome é sinônimo de tratamento psiquiátrico. Mais antigo hospital especializado na área em atividade no País, o Complexo Hospitalar do Juqueri, em Franco da Rocha, na Região Metropolitana de São Paulo, passará pela maior obra de reforma e restauro de sua história de mais de cem anos. Orçados em R$ 41 milhões, os trabalhos devem começar no primeiro semestre do ano que vem - e levar dois anos para serem concluídos.

Devem ser recuperados 20 dos 30 edifícios que integram o complexo - justamente os mais antigos. Destes, três são assinados pelo arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928) e foram erguidos entre 1902 e 1905.

"Não temos 100% de certeza da autoria dos demais, mas acreditamos que tenham sido projetados por um engenheiro chamado Ralph Pompêo de Camargo, que foi importante para a arquitetura hospitalar paulista. Isso porque, entre 1930 e 1950, ele foi responsável por todos os projetos de psiquiatria do Estado", explica o arquiteto Pier Paolo Bertuzzi Pizzolato, diretor do Núcleo de Acervo, Memória e Cultura do complexo hospitalar.

Patrimônio. O Juqueri (na época chamado de Colônia Agrícola do Asilo de Alienados) começou a ser construído em 1895 e foi inaugurado três anos depois, com 80 pacientes psiquiátricos internados. "Era um período em que havia uma resistência a ter serviços de psiquiatria dentro das cidades. Doentes dessa área, assim como tuberculosos e hansenianos, ficavam isolados, nas franjas da área urbana", explica Pizzolato, autor da dissertação de mestrado sobre o tema, defendida em 2008 na Universidade de São Paulo (USP).

Assim, o médico psiquiatra Francisco Franco da Rocha (1864-1933) convenceu o governo do Estado a comprar terras no então município de Mairiporã para construir a "colônia". A importância histórica acabou reconhecida em 2011, quando o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão estadual, tombou o complexo.

É por isso que, antes mesmo de as obras começarem, uma primeira fase já está em curso. Especialistas estão fazendo estudos nas fachadas com o objetivo de chegar à cor original dos prédios. A argamassa utilizada também está sendo analisada. E todo o projeto de restauro terá de ser submetido ao Condephaat. "Este trabalho inicial está orçado em R$ 120 mil", conta o diretor do complexo, Glalco Cyriaco.

Obras. Um dos principais problemas dos históricos edifícios do complexo é a situação dos telhados. "Há infiltrações e, em alguns casos, a telha foi totalmente coberta por vegetação", explica o arquiteto Pizzolato. Também serão recuperadas portas, janelas e fachadas.

Alguns prédios também serão modernizados, com instalação de aparelhos de ar-condicionado, por exemplo. Eles também se tornarão acessíveis a pessoas com dificuldade de locomoção.

Sete casas que ficam na ala conhecida como Vila Residencial, inaugurada em 1934 para moradia dos médicos que trabalhavam ali, serão transformadas em um espaço destinado a tratamento de reabilitação e reinserção social de pacientes crônicos. Pelo projeto, a estrutura comportará 48 doentes.

Tratamento. No auge de sua lotação, na década de 1970, o complexo hospitalar foi moradia de 16 mil pacientes psiquiátricos. A capacidade máxima, no entanto, era de 9 mil. Nessa época, os habitantes eram divididos em pavilhões e muitos dormiam no chão. "Historicamente, sempre houve problemas de superlotação", ressalta Pizzolato.

Atualmente, essa política de saúde pública de isolamento de pacientes do tipo não é praticada. Mas ainda há remanescentes. "São 157 pacientes nos moldes de atendimento de longa permanência. Em média, estão internados há 35 anos. A faixa etária média é de mais de 60 anos. Eles continuam conosco porque não têm uma retaguarda social e familiar", afirma o diretor Cyriaco.

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