Obra polêmica é restaurada

Monumento Heróis da Travessia, que ficava nos Jardins, voltou para Represa do Guarapiranga

Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2010 | 00h00

O monumento Heróis da Travessia do Atlântico, que estava instalado nos Jardins, na zona sul de São Paulo, finalmente teve o restauro concluído e será reinaugurado em seu local de origem: a Represa do Guarapiranga, zona sul, onde foi construído em 1929 e de onde foi retirado em 1987. A inauguração está marcada para o dia 11 de dezembro no Parque da Barragem, às margens da represa.

O escultor Ottone Zorlini (1891-1967) fez o monumento de 9 metros de altura em homenagem aos aviadores italianos Francesco De Pinedo, Carlo Del Prete e Vitale Zachetti e ao brasileiro João Ribeiro de Barros. Os italianos pousaram o hidroavião S-55 na Guarapiranga em 1927, vindos da Europa; o brasileiro fez o caminho inverso, também com um hidroavião, o Jahú.

Quando a obra de Zorlini foi transferida para a Praça Nossa Senhora do Brasil, na Avenida Brasil, em 1987, a gestão do prefeito Jânio Quadros foi muito criticada pelo próprio Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), ligado à Secretaria Municipal da Cultura.

"O retorno para a Guarapiranga é a reparação de um erro histórico", afirma o diretor da Companhia do Restauro, Francisco Zorzetti, responsável pela obra de restauração. "Na época, eu trabalhava na administração municipal como técnico e todos nós fomos contra. Foi um gesto político arbitrário contra o parecer técnico das pessoas que tinham repertório para falar sobre patrimônio na cidade."

A própria obra, encomendada pela Sociedade Dante Alighieri, foi motivo de polêmica: o capitel (topo da coluna), de granito rosa, foi um presente do ditador Benito Mussolini. O monumento também tem dois "fascios" (feixes de lenha que sustentam machados) de bronze nas laterais. Na época da transferência, quando recebeu a primeira restauração, o monumento foi tachado como fascista.

A volta da escultura para a Guarapiranga é reivindicação antiga dos moradores da região, que se organizam desde a década de 1990 para pedir seu retorno.

"As pessoas se sentiram roubadas quando ele foi levado para outro local", explica o subprefeito de Capela do Socorro, Valdir Ferreira. "Recebemos abaixo-assinados, as pessoas traziam fotos, houve uma mobilização grande da população. Estamos pensando em fazer um memorial para reunir todo o material trazido pela população sobre o monumento e a represa."

Projeto. O transporte e restauro custaram R$ 400 mil. Para ser transportada, a obra foi desmontada em 44 peças, embaladas separadamente e levadas até o parque. A arquiteta Fabiula Domingues, responsável pelo projeto, diz que as peças que faltavam, a maioria em bronze, não foram repostas por opção. "Ia encarecer muito e preferimos mostrar a história real, já que essas peças se perderam ou foram roubadas."

Na frente da obra restaurada, será instalada uma miniatura tátil de cerca de 1 metro, com inscrições em Braille. A ideia é que crianças, deficientes visuais, cadeirantes e qualquer pessoa que queira tocá-la perceba as diferenças de textura, porosidade e temperatura dos diferentes materiais. "Queremos que o monumento se transforme não só em um objeto visual, mas num marco para a cultura da população local", diz Fabiula.

Para a inauguração, a Subprefeitura planeja um evento especial. "Estamos tentando conseguir um hidroavião para pousar na represa e reproduzir de certa maneira o fato histórico", diz Ferreira. / COLABOROU VITOR HUGO BRANDALISE

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