Obra já era polêmica antes da queda

Pedreiro diz que derrubou 4 paredes internas, mas responsáveis afirmam que isso não afetou estrutura; prédio tinha janelas irregulares

RIO, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2012 | 03h03

Apontadas por especialistas e dirigentes do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (Crea-RJ) como uma das possíveis causas do desabamento do Edifício Liberdade, as obras feitas pela Tecnologia Organizacional (TO) no 3.º e no 9.º andares eram fonte de polêmica muito antes da tragédia.

O condomínio já havia pedido explicações à TO sobre as intervenções. Havia preocupação em relação ao entulho e ao peso que o material de construção guardado nas salas da empresa exercia sobre a estrutura do prédio.

Contratado pela TO, o engenheiro calculista Paulo Sérgio da Cunha Brasil elaborou um laudo limitando-se a informar ao síndico Paulo Renha que os quatro sacos de cimento armazenados no 3.º andar não apresentavam risco à estrutura. Ele negou ter participação na obra e disse que não foi contratado para fazer avaliações no 9.º andar.

"Havia um questionamento do síndico se aqueles quatro sacos de cimento poderiam provocar dano à estrutura. Eu falei que esse era o peso equivalente a duas pessoas se cumprimentando. Pensei até que era brincadeira. Isso não pode, evidentemente, causar nenhuma avaria", explicou o engenheiro. Cada saco de cimento pesa 50 quilos.

Cunha Brasil não identificou um engenheiro responsável pela obra e disse ter achado estranho que Renha não tenha questionado a construção de uma parede no 3.º andar. "É mais pesada que os sacos de cimento."

Remoções. O auxiliar de pedreiro Alexandro da Silva Fonseca, que sobreviveu ao colapso do prédio ao entrar no elevador, confirmou ontem ter derrubado quatro paredes para a realocação dos banheiros no 9.º andar do Edifício Liberdade. Destacou, no entanto, que os pilares e estruturas de concreto do andar foram mantidos de pé.

Segundo Cunha Brasil, a eventual remoção de paredes internas não provocaria abalo na estrutura do edifício. "Todos os pilares são externos. No meio da laje, não tem pilar e não tem viga. Era uma laje plana."

Sérgio Alves, um dos sócios da TO, disse ontem que as intervenções tinham começado havia apenas oito dias. Ele reconheceu que o laudo pedido pelo síndico não tinha sido entregue, mas que recebeu autorização verbal de Renha para derrubar as paredes divisórias de um banheiro e retirada de entulho - 80% do material já havia sido removido - e entregar o laudo em até 15 dias.

Alves reafirmou que o tipo de reforma não exigia autorização da prefeitura. "O andar é sustentado pelas pontas. Praticamente todos eram vãos livres." Ele reconheceu que foi feita uma abertura de janela no 10.º andar, o que não é permitido, argumentando que outros condôminos já haviam feito o mesmo - até o síndico. "Nós éramos os inquilinos mais caprichosos. Não quero ser injusto, como acho que estão sendo comigo."

Síndico. Renha prestou depoimento à polícia ontem. Na saída da delegacia, ele disse que só se pronunciará sobre o desabamento após a conclusão do parecer técnico sobre o incidente. O síndico disse ainda que foi o advogado do condomínio, Geraldo Beire Simões, quem cuidou da documentação das obras.

Ao ser perguntado se havia solicitado a consultoria de um engenheiro para as obras, Renha argumentou que esse não era seu papel. "Não tenho de chamar engenheiro nenhum para fazer consultoria. Sou síndico do prédio. Não sou nem da prefeitura nem do Crea."

Segundo o delegado titular da 5.ª DP, Alcides Alves Pereira, os responsáveis pelo colapso vão responder por desabamento qualificado, com pena de 2 a 4 anos. / ALFREDO JUNQUEIRA, BRUNO BOGHOSSIAN, FELIPE WERNECK, GLAUBER GONÇALVES

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