Obra irregular faz imóvel desabar na Liberdade: pedestre morre soterrado

Parte de antigo bar caiu na calçada; prédio seria transformado em estacionamento, mas alvará de reforma não consta em cadastro oficial

O Estado de S.Paulo

01 Março 2013 | 02h03

O desabamento da fachada de uma obra irregular em um antigo bar e restaurante na Avenida Liberdade, esquina com a Rua Condessa de São Joaquim, na região central de São Paulo, matou um pedestre às 18h15 de ontem. A reforma não tinha alvará e já havia causado um acidente no dia 15, quando um pedaço da marquise atingiu uma vendedora de 38 anos. Ela sobreviveu e um inquérito foi instaurado no 5.º Distrito Policial. Após ganhar tapume, a obra continuou.

Pelo crachá da empresa Senior Solution achado nos escombros, a vítima se chamava Marco Antonio e aparentava ter cerca de 40 anos. À meia-noite de ontem, bombeiros ainda trabalhavam no local. Eles esperavam a chegada de uma máquina para remover vigas e verificar se não havia outras vítimas sob os escombros. A expectativa era de só parar quando não restassem mais dúvidas. Três cães farejadores ajudaram na operação, que envolveu 46 agentes e 19 viaturas.

De acordo com Jair Paca de Lima, coordenador da Defesa Civil, ainda existia risco de desabamento do resto do imóvel. Uma lanchonete e um estacionamento vizinhos tiveram de ser interditados, assim como trechos da Avenida Liberdade e da Rua Condessa de São Joaquim. O bloqueio no trânsito deveria durar pelo menos até a manhã de hoje.

Com 5 mil m², o imóvel afetado fica em uma região movimentada da cidade. Nos arredores, há pelo menos dois hospitais, duas faculdades e um acesso viário à Avenida 23 de Maio.

Fechado desde o ano passado, o antigo bar estava sendo transformado em estacionamento. A obra, porém, não consta no site De Olho na Obra, da Prefeitura, que cadastra reformas com alvará na cidade. A Assessoria de Comunicação da Subprefeitura da Sé informou que, em novembro, o dono do imóvel solicitou alvará para movimentação de terra, que não havia sido concedido até ontem. Pela lei, se a administração não se manifesta em 30 dias, o proprietário pode iniciar a obra por sua conta e risco. Mas, no caso, essa autorização automática não permite remoção de paredes internas, o que, segundo fontes na Prefeitura, torna a obra irregular. No momento do acidente, nenhum operário trabalhava no local.

Dono de um posto de gasolina na frente do imóvel, Camões Salazar conta que o prédio havia sido adquirido pelo estacionamento vizinho. A intenção era ampliar o espaço destinado aos veículos. "Estavam construindo um subsolo para comportar mais carros."

A secretária Adriana Ferreira, de 32, que também trabalha na frente do imóvel, diz que a obra teve início em janeiro. "Eles desativaram o bar e começaram a reforma. Mas foi só na segunda-feira que colocaram o tapume."

O estudante de Direito da FMU Alexandre Hage, de 24 anos, foi um das pessoas que chegaram ao local logo após o desabamento. A faculdade fica na frente do local. "A fachada trincou e depois tudo caiu. Foi muito barulho", contou o universitário, que temia que algum colega estivesse nos escombros.

O antigo bar era uma construção alta, com subsolo, térreo e uma espécie de mezanino. O estabelecimento funcionava ali desde 1951, de acordo com informações da Junta Comercial.

Más condições. Pessoas que trabalham na vizinhança contam que a aparência do imóvel era assustadora. "Estava com uns andaimes na frente, mas as paredes eram muito velhas mesmo. Davam medo. Quando passava na frente, descia da calçada para não ficar muito perto", diz Rode Maria, de 38 anos, gerente de uma lanchonete na mesma calçada. / EDISON VEIGA, ARTUR RODRIGUES, JULIANA DEODORO, WILLIAM CARDOSO, JULIANA DEODORO e VALÉRIA FRANÇA

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