Obra de condomínio causa rachaduras em 33 de 82 casas de rua em Pinheiros

Deslocamento de terra ocorreu após escavação de garagens subterrâneas; construtora reconhece problema e diz estar cumprindo acordo

BRUNO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2012 | 03h03

Uma obra particular em um dos endereços mais valorizados da cidade, o pedaço de Pinheiros entre a Avenida Brigadeiro Faria Lima e a Marginal do Pinheiros, na zona oeste, danificou 33 das 82 casas da Rua Iraci, vizinha à construção. Dois dos imóveis chegaram a ser interditados e moradores tiveram de se mudar para hotéis. Quem ficou ainda espera providências para ter as casas restauradas.

As primeiras rachaduras começaram a aparecer em agosto. A construtora Bueno Netto, que está erguendo um condomínio horizontal com oito casas de alto padrão na Rua Coronel Irlandino Sandoval, fez escavações para a construção de garagens subterrâneas e provocou um deslocamento de terra, segundo o engenheiro residente da obra, Vinícius de Albuquerque. Com isso, as casas da Iraci, que faz fundo para a Irlandino, começaram a apresentar danos.

Quem entra em uma dessas casas pode se assustar com o tamanho das rachaduras, algumas com três centímetros de largura. Mas elas não são o único tipo de estrago. Na casa do ginecologista Hsu Chih Chin, de 51 anos, por exemplo, a janela da entrada da casa está torta, como se não aguentasse o peso da parede acima dela. E cinco portas da casa não se abrem mais. "Temos problemas em 14 dos 16 cômodos da casa", afirma Chin.

Nos imóveis de dois outros moradores, que não quiseram identificar-se, os problemas incluem ainda danos nos pisos. Em um, o assoalho se desprendeu dos rodapés ao afundar. No outro, parte dos móveis do andar térreo foram para o segundo andar, uma vez que o afundamento deixou o assoalho torto, no formato de um prato.

Em agosto, quando os problemas começaram, os moradores se reuniram com um dos vizinhos, que tinha conhecidos na construtora. Ficou acertado com a Bueno Netto que a empresa avaliaria os danos e, se realmente fosse comprovado que ela causou os problemas, arcaria com a manutenção.

A própria construtora diz que duas casas foram interditadas pela Prefeitura porque ficaram com risco de desabar. Nelas e em outras duas casas, ainda segundo a Bueno Netto, os moradores foram hospedados em hotéis enquanto os reparos eram feitos. E seus cachorros ficaram em hospedagens específicas para animais de estimação.

A Bueno Netto afirma estar fazendo sua parte no acordo firmado no ano passado. O engenheiro Albuquerque diz que, das 33 casas, 13 já tiveram os serviços finalizados e, em nove, os consertos estão em andamento. Faltam, portanto, 11 imóveis que aguardam os consertos.

Mas parte dos donos das casas diz exatamente o contrário. Eles afirmam que a construtora não está cumprindo os prazos prometidos e alguns reclamam também da qualidade do serviço executado. Por isso, pelo menos dois pretendem entrar na Justiça contra a Bueno Netto nos próximos dias.

"Eles nunca entraram na minha casa para dizer exatamente o que fariam para consertar as rachaduras. Já marcaram essa visita quatro vezes, mas nunca apareceram. Quando furam e eu ligo para cobrar, em vez de me explicarem por que não vieram, marcam outra data. E não aparecem de novo", reclama o advogado Álvaro de Carvalho Pinto Pupo, de 25 anos. Ele tem, em casa, uma notificação da Subprefeitura de Pinheiros exigindo reparos imediatos em um dos muros de casa, que corre risco de cair, sob pena de multa. Mas ainda espera o serviço ser feito.

Um engenheiro escolhido pelos moradores - que teve o pagamento feito pela Bueno Netto - esteve no local para verificar os danos quando eles sugiram. Agora, os moradores, revoltados, produzirão um novo laudo apontando as causas do estrago e detalhando que serviços devem ser feitos.

"Eu me propus até a dividir os custos caso a casa precisasse ser derrubada e erguida de novo. Eles fizeram uma maquiagem na minha casa (concretando as rachaduras), mas ela precisa de obras nas fundações", reclama o ginecologista Chin.

Mão de obra. A Bueno Netto reconhece que os cronogramas estabelecidos para fazer os reparos não foram cumpridos em todas as casas. Mas diz manter a disposição em arcar com os prejuízos que a obra tenha causado. As rachaduras das casas continuam sendo monitoradas.

Segundo o engenheiro Vinícius de Albuquerque, os atrasos são fruto da dificuldade da Bueno Netto em encontrar mão de obra para a execução dos reparos nas casas restantes.

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