EPITACIO PESSOA /ESTADAO
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Oásis em área violenta, Vinhedo está há 20 meses sem registrar homicídio

Cidade lidera o ranking das cidades paulistas acima de 50 mil habitantes com menor Índice de Exposição a Crimes Violentos (IECV), segundo o Instituto Sou da Paz

José Maria Tomazela   , O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2019 | 03h00

VINHEDO – O último homicídio doloso registrado em Vinhedo, interior de São Paulo, aconteceu em 13 de agosto de 2017, quando em pleno Dia dos Pais, um idoso de 73 anos matou o próprio filho, de 29, que seria usuário de drogas. Nos últimos 20 meses, além de homicídio zero, a cidade registrou menos de um roubo por dia, apenas um roubo de carga a cada mês e nenhum roubo a banco.

Com 77 mil habitantes, localizada entre as regiões metropolitanas de Campinas e São Paulo, área do Estado conhecida pela violência, Vinhedo lidera o ranking das cidades paulistas acima de 50 mil habitantes com menor Índice de Exposição a Crimes Violentos (IECV), segundo o Instituto Sou da Paz.

O zelador Fernando Henrique Silvestre, de 35 anos, funcionário de um condomínio, sabe como usufruir da segurança que a cidade oferece. Ele aproveita a folga do almoço para tirar um cochilo em seu carro, com os vidros abertos sob a sombra das árvores, em plena rua. “Faço isso há três anos e nunca me aconteceu nada. Essa cidade é exemplo em segurança. Estou tentando trazer meus pais, que moram em Campinas, para viver aqui”, disse.

Consulte o IECV de 139 cidades paulistas. Clique na cidade e veja o número. Quanto mais vermelho é a cor do município, pior é considerado o seu índice em comparação com as demais cidades do Estado

Para enxergar uma das razões da tranquilidade de Silvestre basta olhar para o alto. Ao menos 213 câmeras observam quem circula pela cidade, a mais vigiada do Estado, com média de uma câmera para cada 362 moradores. Destas, 65 são câmeras com tecnologia OCR (reconhecimento ótico de caracteres) que lê as placas dos veículos e identifica aqueles que são produtos de furtos.

Instaladas em 24 pontos estratégicos, incluindo todos os acessos, elas formam uma muralha eletrônica em torno da área urbana. “O mal intencionado consegue entrar, mas fica difícil sair, pois será abordado pela nossa segurança”, afirma o prefeito Jaime Cruz (PSDB). Ele lembra que o último roubo a banco aconteceu em 2016 e os envolvidos foram presos.

O sistema de câmeras, que inclui 99 equipamentos digitais e 39 de vigilância solidária – câmeras particulares integradas ao sistema público – é monitorado a partir de uma central instalada na sede da Guarda Civil Municipal (GCM). “Conseguimos uma integração entre nossa guarda, as polícias Civil e Militar e o conselho comunitário que poucas cidades têm. Na última sexta-feira, fizemos uma operação conjunta em bares com a participação de uma delegada da Polícia Civil”, disse.

A GCM tem 125 guardas equipados com pistolas automáticas – o revólver calibre 38 anos só é usado em treinamentos –, coletes balísticos individuais e, em algumas operações, espingardas calibre 12. O efetivo e a frota com 14 viaturas e 8 motos são três vezes maior que o da Polícia Militar. “Fazemos 4 mil atendimentos por mês, mas 93% são preventivos e comunitários. Nosso guarda é também agente de trânsito, patrulheiro escolar, guarda patrimonial e, muitas vezes, faz o papel de assistente social”, explica o secretário de Transporte e Defesa Social, Osmir Cruz.

A cidade tem 81,6 km² de área territorial, em grande parte ocupada por condomínios horizontais de alto padrão, com segurança interna. Favelas fazem parte apenas da história: a última foi removida em 1982. A renda per capita de R$ 1,5 mil está entre as mais elevadas de São Paulo. São 852 carros a cada mil moradores, segundo melhor índice paulista. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 0,817, é o quarto melhor do Estado.

O prefeito afirma que só a vigilância e o aparato policial não explicam o baixo índice de violência. “Quem faz a cidade boa são as pessoas, por isso trabalhamos fortemente essa questão nas escolas municipais. O estudante chega na adolescência sabendo que viver em paz é bom.” Dos 10,5 mil alunos, três mil estão matriculados no ensino infantil e, desses, 2,8 mil estão em regime integral, ficando ao menos 11 horas diárias na escola.

O desemprego, apontado como uma das causas da violência, é praticamente inexistente. Com mais de 100 empresas, Vinhedo fechou 2018 com saldo positivo de 1.089 postos de trabalho, segundo o Caged. Este ano, já são 490 novas vagas. Mesmo assim, a sensação de segurança não é uma unanimidade. “Há alguns anos, a GCM tinha uma guarita na praça, mas houve um acidente e foi retirada. Vejo que, de uns tempos para cá, as rondas diminuíram. Antes eles passavam com cachorros”, diz a comerciante Márcia Zampa, dona de uma joalheria, há 27 anos no comércio local.

O pedreiro aposentado José Anselmo Bassan, de 74 anos, conta que a cidade é mais segura no centro. “No meu bairro, Vila Fátima, tem muito ladrão pé de chinelo. Ano passado vi um cara roubar uma bicicleta na porta de um supermercado.” Morador do mesmo bairro, Zeferino Caberlin, o 'Paraná', de 78 anos, só se lembra de ter 'quase' sido assaltado há mais de 40 anos. “Tinha saído do serviço de madrugada e eles pararam o carro, mas eu corri na direção contrária. Foi o único susto. Depois disso, só calmaria.”

Nascida na cidade, a auxiliar de farmácia Kelli Costalonga, de 30 anos, sentia-se “muito segura”, na segunda-feira, 29, com a filhinha Valentina, de 5 meses, no colo, e o filho Gabriel, de 13 anos, na praça da matriz. “Moro no bairro Capela, mas venho muito ao centro e nunca tive qualquer episódio de violência.”

Cidade já foi apontada como uma das 20 mais felizes do País

Vinhedo já foi apontado como um dos 20 municípios mais felizes do Brasil e uma das melhores cidades para se morar. Em outra pesquisa, da Fundação Getúlio Vargas, em 2017, foi considerada a segunda cidade do país, com menos de 100 mil habitantes, em qualidade de vida para pessoas com mais de 60 anos.

Tudo isso estando a 76 km de São Paulo, 20 km de Jundiaí e 18 km de Campinas, centros urbanos de maior porte. A cidade surgiu a partir de uma povoação de tropeiros e bandeirantes, no século 17, à margem da Estrada da Boiada, que ainda hoje corta o município. Em 1948, o município, que tinha a uva como principal produto, se emancipou de Jundiaí.

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