Tiago Queiroz/AE–9/6/2011
Tiago Queiroz/AE–9/6/2011

OAB repudia advogado da ''ética de bandido''

Jefferson Badan defende criminoso que participou de latrocínio na USP e, em entrevista anteontem, disse que quem é do crime não entrega parceiro

William Cardoso, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2011 | 00h00

A declaração do advogado Jefferson Badan associando o crime a uma profissão e dizendo que todo bandido tem ética foi repudiada pela seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP). A afirmação de Badan foi feita anteontem, em defesa de Irlan Graciano Santiago, de 22 anos, que participou em 18 de maio do assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva, de 24, no câmpus da Universidade de São Paulo (USP), no Butantã, zona oeste da capital.

Durante entrevista coletiva, o advogado foi questionado sobre o motivo pelo qual o cliente não contaria quem foi o comparsa na ação que matou o estudante. "Quem é do crime nunca entrega parceiro. Todo bandido tem ética. Você é um cara experiente na área criminal e sei que está fazendo essa pergunta simplesmente por fazer, porque você sabe que todas as profissões têm ética. E, na sua profissão, se tiver um repórter na sua frente, a ética dele é dar espaço para você também trabalhar", afirmou Badan.

O presidente da OAB-SP, Luiz Flávio D"Urso, diz que a entidade repudia a afirmação do advogado, mas explica que não houve uma infração ao Código de Ética da própria categoria. "O advogado, na hora em que está realizando a defesa, tem imunidade em relação às suas declarações. Elas não trazem a ele consequência direta. Agora, o repúdio cabe à Ordem fazer, porque foi algo que ultrapassou os limites de defesa do cliente e alcançou toda a nossa classe. Cria uma imagem negativa da advocacia para a população, algo irreal."

D"Urso afirma que na segunda-feira haverá uma reunião da diretoria da OAB para definir se será o caso de tomar alguma outra providência em relação a Badan.

Confusão. Segundo o presidente da OAB-SP, Badan confundiu conceitos ao falar sobre ética no crime. "É uma manifestação infeliz. A atividade criminosa não é profissão, é crime. É inadmissível estabelecer qualquer relação", afirma. D"Urso diz que Badan pode se retratar publicamente para superar o fato.

Mestre em Filosofia do Direito e professora de Ética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Celeste Melão afirma que Badan não infringiu o estatuto da OAB, mas que deveria ser mais zeloso com as suas declarações. "A ética está acima da conduta, é a possibilidade de construir comportamentos que estruturem o bom, o belo e o justo. Não se pode falar disso em um ambiente de ilícitos. É, quando muito, um acordo para a sobrevivência."

Para o desembargador Antonio Carlos Malheiros, o advogado falhou. "Foi uma declaração equivocada. Não é ética coisa nenhuma. O que foi chamado de ética por ele é um código de conduta que rege a lei do silêncio."

O Estado tentou contato com Badan ontem, mas ele não respondeu até as 23 horas. Mesmo assumindo a participação no assassinato do estudante, o cliente de Badan foi liberado por ter se apresentado, não ter antecedentes criminais e possuir endereço fixo. Responderá em liberdade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.