JF Diório/AE
JF Diório/AE

O VJ que abre caminho a uma nova profissão

Depois de ganhar torneio internacional e trazer festival de vjing ao País em 2010, Ricardo Lara, o Spetto, quer popularizar a arte de sincronizar sons e imagens

Felipe Frazão, de O Estado de S. Paulo,

14 Maio 2011 | 15h53

De seu quarto transformado em estúdio em Santa Cecília, na região central, Ricardo Lara, o VJ Spetto, faz contatos para organizar o próximo festival de vjing no Brasil. Aos 36 anos, ele está com um plano ambicioso: trazer ao País no fim do ano experts da arte de projetar imagens remixadas com uma trilha sonora. Batizado de VJ University, o projeto idealizado por Spetto será o primeiro nos moldes no mundo.

 

O plano do santista que vive há mais de 20 anos na capital é capacitar a nova geração de visual jockeys brasileiros. Por 15 dias seguidos, eles terão aulas de roteiro, filmagem, 3D, programação e video mapping (técnica de ressaltar fachadas de edificações com projeção de imagens). Para tanto, Spetto atua como uma espécie de embaixador do vjing brasileiro, sobretudo na Europa, onde a prática é mais difundida.

 

Na terça-feira, ele viajou para a Alemanha para acertar trabalhos internacionais e detalhes do projeto. "Quero que os estrangeiros ensinem nossos novatos a serem os melhores do mundo. Com conhecimento, o VJ vai ser respeitado como artista e não tratado como técnico que põe vídeo em evento."

 

Na sequência da viagem, Spetto vai à Suíça, onde dará oficina e fará performance para 5 mil pessoas no Mapping Festival de Genebra, mostra que apresenta um panorama da produção mundial e promove a competição Contest VJ, da qual ele será jurado.

 

Spetto até tentou competir, mas não foi aceito. "Já me conhecem e não deixam mais." A justificativa tem fundamento. Ele foi o primeiro brasileiro a ganhar o campeonato mundial VJ Torna Budapeste, em 2008. Aquele foi o último em que pôde concorrer.

 

Em agosto, Spetto trouxe o torneio à Rua Augusta. O VJ Torna Brasil reuniu mais de cem adeptos. "Não adianta nada estar sozinho, sem ninguém para compartilhar ideias. Desejo que minha arte seja expansiva. "

 

Uma das novas fronteiras do vjing é o chamado video mapping, tipo de projeção audiovisual que realça detalhes arquitetônicos. Para passar mensagens ao público, imagens tridimensionais, feixes de luz, ruídos visuais e ilusões óticas são projetados, acompanhados de trilha sonora. "A gente brinca de criar momentos ‘uau!’, aqueles em que gritam uaaaaaau!" O VJ precisa ter sensibilidade em surpreender o público.

 

Empresas e governos estão contratando. Há até encomendas de festas de casamento. "Talvez seja utopia, mas, quando projetor for barato e potente, será possível projetar nas paredes da cidade toda. É um passo além do grafite", imagina Spetto. E quanto custa mapear uma grande construção? "No mínimo, no mínimo R$ 300 mil."

 

Carreira

 

São Paulo foi a cidade onde Spetto achou seu caminho. Estudou Arquitetura, trabalhou com programação de sites e desenhos animados, ainda nos anos 1990. Era produtor de música e instrumentista quando foi convidado para tocar em festas de música eletrônica. Cita o ano 2000 como a virada na carreira, quando passou a se dedicar mais ao vjing e a tocar em festas tecno no clube Absinto.

 

"Levava dois monitores de computador e projetava a noite inteira." Nos anos seguintes, vieram festivais como Red Bull Live Images, Skol Beats, Nokia Trends. "Ali a coisa engrenou, promotores perceberam o que dava para fazer."

 

Hoje ele é um dos únicos no País a viver exclusivamente de vjing. Mas reclama da falta de retorno financeiro e preparo de casas noturnas. "Aqui é bem cruel. Muitos clubes não têm estrutura adequada de projeção e pagam mal, de R$ 300 a R$ 500 por noite." Em sua opinião, um cachê justo deve variar entre R$ 1 mil e R$ 2 mil.

 

Quando voltar, Spetto vai preparar festas em Brasília e Ribeirão Preto, onde se paga melhor. Depois, retoma a rotina no quarto-estúdio de 10m², onde cria sequências de vídeos, faz montagens audiovisuais, estuda, lê e pesquisa. "Fico o dia todo aqui."

 

Em casa, trabalha descalço, com óculos de hastes grossas, cabelo despenteado e barbicha espetada - em meio a dois servidores lotados de imagens, bateria eletrônica, amplificadores, caixas de som, teclado, sintetizador, livros, credenciais, três laptops e quatro monitores. "Junto tranqueira", confessa, rindo. "Estou acostumado." A namorada, Daniela, sete anos ao lado dele, também.

Mais conteúdo sobre:
profissãomúsica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.