O vitral noturno de Gomide

Após tantos anos sem passar por ali, à noite, aquele lampejo pelo canto do olho trouxe uma lufada de lembranças antigas e boas. Virei a cabeça para acompanhar o vitral que se distanciava, os painéis de Antonio Gomide. Foram executados pela Casa Conrado Sorgenicht e colocados em 1935 nas torres das edificações da entrada principal do Parque da Água Branca. Só podem ser vistos à noite, iluminados por dentro, como sol nascendo fora de hora, em tantas noites vistos nos três quartos de século em que ali estão. Manhã antecipada, ânsia de futuro, fome de mudança.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2011 | 00h00

Gomide nascera em Itapetininga, em 1895, uma das regiões referenciais da cultura caipira, e fora muito jovem, em 1913, com a família, para a Suíça, onde estudou arte. Frequentou, na Europa, estúdios de grandes nomes da pintura. Voltou para o Brasil em 1929, o ano da grande crise econômica, o ponto e vírgula da Pauliceia próspera, da Belle Époque paulistana, da vida mundana densa de estilo e de criação. Um tempo que os ausentes, como ele, lamentaram não conhecer. Não obstante os refinamentos estéticos assimilados nos longos anos de residência na Europa, a alma de Gomide permaneceu caipira no interesse pela cultura popular, na leveza da mão, na delicadeza do traço, na saudade dos temas, como congadas e cavalhadas, na busca da forma e da cor de roça.

Há naquele vitral uma explosão de modernidade, uma alegoria da abundância, nas formas cubistas que aglutinam fartura e trabalho, na figura de cavaleiro caipira pastoreando seu gado, o trabalhador de roça de cujo labor sai o pão nosso de cada dia. Moureja entre o gado e a planta, no meio de folhas viçosas de variadas cores, de variados amadurecimentos. É o anti-Jeca em toda sua intensidade. Gomide é o anti-Lobato que tira o caipira da margem da vida para colocá-lo no centro. Um caipira épico não só pelo porte, mas também, e sobretudo, porque caipira da produção e da produtividade, o oposto do caipira esquálido e preguiçoso de Monteiro Lobato. O vitral de Gomide é, nesse sentido, um dos marcos de ruptura com a tradição de um imaginário que, desde os tempos coloniais, ao mameluco estigmatizou com a falsa preguiça do índio.

Aquela é uma obra de arte que se via melhor do bonde que trepidava sua pressa ainda pouca pelos trilhos da Avenida Francisco Matarazzo em direção à Lapa e à Água Branca, os passageiros acompanhando, pensativos, com a cabeça, as faces do painel colorido. Tempo em que muitos operários, que por ali passavam depois do escurecer, tinham nascido no interior e na roça e até pegado no cabo do guatambu. Iam sonhando as lembranças que aquelas plantações no vidro do mosaico colorido figuravam. Como dizia aquele verso popular antigo, da região de Campinas: "Ah, Nhanhã, mecê num sabe a dô que a sodade tem..."

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