O Túnel 9 de Julho

Pode-se fazer uma arqueologia das ideologias em conflito no Brasil apenas desencavando o que há por trás da história dos nomes dos logradouros públicos. São vários os casos de manipulação ideológica dos nomes de ruas da cidade de São Paulo. Já em 1831, um vereador, para festejar a abdicação de d. Pedro I, de quem não gostava, propôs a data com o nome de Rua 7 de Abril para a antiga Rua da Palha. Com a Proclamação da República, em 1889, São Paulo entrou em um surto de mudanças de denominações para demolir a memória da monarquia e impor ao povo os nomes e símbolos da nova ordem política.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2010 | 00h00

A Rua da Imperatriz virou 15 de Novembro, a Rua do Imperador virou Rua Marechal Deodoro, a Rua do Príncipe virou Quintino Bocaiuva, a da Princesa virou Benjamin Constant, nomes republicanos. Aproveitaram para trocar também nomes de forte tradição popular.

Um mapa de 1899 nos diz que a Rua Direita tornara-se Rua Floriano Peixoto e a Rua de São Bento fora dedicada a Moreira César, coronel massacrado na Revolta de Canudos, na Bahia, quando pretendia massacrar os místicos de Antônio Conselheiro, supostamente monarquistas. A guerra de nomes era uma guerra contra a tradição e o povo.

Mas o povo resistiu. O do Marechal Deodoro foi banido da Praça da Sé, quando deslocaram a catedral para as proximidades da Praça João Mendes. O do Marechal Floriano foi deletado: o povo insistiu no velhíssimo nome de Rua Direita para a rua torta. A iconoclastia de tirar o nome muito antigo da Rua de São Bento não deu certo. O povo ignorou a pretensão republicana de trocar santo por coronel. Coronel, mesmo, só Santo Antônio, que desde a colônia teve essa patente, até recebendo soldo da Coroa.

Um dos últimos episódios de demolição simbólica da história dos paulistas foi protagonizado pela prefeita Marta Suplicy. A pretexto de que o nome do Túnel 9 de Julho não era oficial, resolveu mudá-lo para Dr. Daher Elias Cutait, médico dos mais ilustres, que foi professor na Faculdade de Medicina da USP, na Santa Casa de Misericórdia e um dos fundadores do Hospital Sírio-Libanês. Decisão que "desomenageia" o homenageado, pois o nome "não pegou", ficou entre parênteses. Nove de Julho é data sagrada do povo de São Paulo, símbolo do generoso sangue de muitos jovens, derramado pelo ideal da democracia, do direito e da liberdade. Mas a prefeita teimou na supressão do nome. Muita dor e muito pranto estão nele contidos.

Na memória de muitos e em muitos corações, a Revolução de 9 de Julho de 1932 é um dos sinais de identidade dos paulistas. No pátio da Faculdade de Direito, em monumento aos acadêmicos tombados nas frentes de combate, versos de Tobias Barreto a celebram na coragem de ousar e de optar: "Quando se sente bater no peito heroica pancada, deixa-se a folha dobrada enquanto se vai morrer."

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