Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O tucano e o palmito

É fácil compreender que os pássaros dependem das florestas, mas como as plantas se comportam quando os pássaros desaparecem? Cientistas brasileiros descobriram que a palmeira jussara (Euterpe edulis), produtora do palmito, está evoluindo para se adaptar ao desaparecimento dos tucanos e outros pássaros de bico grande.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2013 | 02h01

A jussara produz frutos de aproximadamente um centímetro de diâmetro. A semente é recoberta por uma camada de polpa saborosa que atrai os pássaros. Devorada a fruta, somente a polpa é digerida pelos pássaros. A semente é expelida junto com as fezes, germina no solo, e produz uma nova palmeira. Isso permite que a jussara se espalhe pela floresta. A fruta que cai no pé da palmeira que a produziu dificilmente germina. A palmeira depende dos pássaros para se espalhar.

Para estudar o que está acontecendo nos resquícios de Mata Atlântica, os cientistas analisaram 22 locais distintos, 7 deles onde os tucanos e outros pássaros já haviam desaparecido ou seu número estava muito reduzido, e 15 locais onde a mata ainda está relativamente preservada. Os locais estudados vão desde o sul do Paraná, passando pelo litoral e interior de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e sul da Bahia. Em cada um desses locais foram localizadas palmeiras jussaras e suas sementes, coletadas.

As sementes foram medidas cuidadosamente e, para cada local, foi feito um gráfico relacionando o tamanho da semente e sua frequência. O resultado mostra que nas regiões mais preservadas o tamanho das sementes varia de 7 a 14 milímetros e a maioria mede entre 10 e 12 milímetros. Nas regiões menos preservadas, as sementes também variam de 7 a 14 milímetros, mas a grande maioria mede entre 9 e 11 milímetros.

Mas qual é a explicação para essas sementes menores? Os cientistas tentaram verificar se a diferença poderia estar relacionada a características das diferentes regiões. Tentaram correlacionar o tamanho das sementes com a qualidade do solo, a quantidade de chuva e a temperatura. Nenhum dos fatores explica a diferença de tamanho. Somente a presença de pássaros de bico grande estava correlacionada ao maior tamanho das sementes. Onde os pássaros estavam ausentes, as sementes eram menores; onde eles estavam presentes, elas eram maiores.

Em seguida, os cientistas estudaram o tamanho das sementes ingeridas por diversos desses pássaros em cativeiro. Eles observaram que os tucanos e seus parentes são capazes de ingerir sementes de até 14 milímetros, enquanto que os pássaros de bico pequeno ingerem sementes de até 12 milímetros, mas na média preferem as de 11 milímetros. Isso significa que sementes grandes não são ingeridas ou transportadas nos ambientes em que os pássaros de bicos grandes, como os tucanos, estão ausentes.

O que os cientistas acreditam que está acontecendo é que a jussara, sob pressão de um novo ambiente, onde não existem tucanos, está diminuindo o tamanho de suas sementes. Escrito assim parece que a jussara "percebe" que os tucanos desapareceram e, portanto, "decidiu" produzir sementes menores. Na verdade, o que está acontecendo é um processo de seleção natural. No novo ambiente, as árvores que produzem sementes menores se reproduzem com mais eficiência, pois podem contar com os pássaros pequenos para dispersá-las.

As árvores que produzem sementes maiores não conseguem se reproduzir tão bem, pois os pássaros pequenos não conseguem ingerir as sementes e os tucanos estão ausentes. O resultado desse processo de seleção natural é que a jussara que se propaga nos ambientes sem tucanos acaba sendo a produtora de sementes menores. No limite, se todos os tucanos desaparecerem, só sobrarão as árvores que produzem sementes menores. É a evolução ocorrendo em tempo real, bem debaixo de nosso nariz. Os cientistas estimaram que grande parte dessa transição evolutiva ocorre em aproximadamente 100 anos.

É difícil prever o resultado do processo evolutivo posto em marcha pela atuação desastrada do Homo sapiens. O que se sabe é que sementes menores germinam com menor frequência e produzem árvores mais fracas. Também sabemos que aves menores têm um raio menor de dispersão de sementes. Se a falta de tucanos vai provocar o desaparecimento do palmito só saberemos no futuro. E aí será tarde.

Esse é um bom exemplo de como a interferência do ser humano provoca mudanças bruscas no equilíbrio ecológico e pode redirecionar as forças seletivas que impulsionam a evolução das espécies.   * Mais informações: Functional Extinction Of Birds Drives Rapid Evolutionary Changes In Seed Size. Science vol. 340 Pag. 1086 2013

Tudo o que sabemos sobre:
Fernando ReinachCiência

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.