O teste da mais moderna biblioteca

Repórteres foram ao local como usuários comuns, verificar o que funciona (ou não) na instituição inaugurada no mês passado, no Parque da Juventude

Edison Veiga, Lucas de Abreu Maia, O Estadao de S.Paulo

15 Março 2010 | 00h00

Ambiente multicor. Decoração da biblioteca inova, com pufes, e não há ninguém fazendo "psiu" ao menor barulho feito por um visitante: título mais retirado é "Querido Diário Otário"

No primeiro mês de funcionamento, a moderna Biblioteca de São Paulo, no Parque da Juventude, em Santana, zona norte, conseguiu um de seus principais objetivos: atrair leitores. Doze mil pessoas estiveram em seu prédio no período, deleitando-se com alguns dos 30 mil livros disponíveis, utilizando um dos 80 computadores conectados à internet ou assistindo aos vários DVDs do acervo. "Muito se diz que o Brasil não tem tradição de leitores. Surpreendi-me com o número de frequentadores", admite a diretora da instituição, Magda Montenegro.

A roupagem descolada da biblioteca - colorida, cheia de pufes e sem ninguém fazendo "psiu" ao menor barulho - tem atraído leitores jovens. Prova disso é que os dois títulos mais procurados pelos 4 mil usuários que já fizeram carteirinha são best-sellers infanto-juvenis (Querido Diário Otário, de Jim Benton, com 54 locações; e Harry Potter e o Cálice de Fogo, de J. K. Rowling, 25 retiradas).

Entretanto, nem tudo é perfeito na instituição, inaugurada com pompa pela Secretaria de Estado da Cultura sob o rótulo de "modelo". Dois repórteres do Estado estiveram no local - sem se identificar como jornalistas - duas vezes cada um nas últimas quatro semanas e tentaram usufruir de toda a sua estrutura.

As primeiras impressões são positivas. Difícil não usar a frase "nem parece que estou em uma biblioteca" - referindo-se, óbvio, ao padrão sisudo vigente desde sempre, responsável por associar à biblioteca a pecha da chatice. A Biblioteca de São Paulo tem cara dessas livrarias megastore, com estantes atraentes e funcionários simpáticos - dos 51 que atuam ali, 23 ficam só no atendimento - prontos a lhe recomendar a leitura adequada ao seu perfil. O acervo também tem seus atrativos, por mesclar os clássicos com lançamentos.

Mas - e, sejamos justos, talvez pelo fato de a abertura ser recente - os problemas não demoram a aparecer. Para a simples confecção da carteirinha, uma espera de 22 minutos, por exemplo. Quer usar um dos oito leitores digitais que a biblioteca tem? Difícil. Nas duas vezes, o repórter ouviu que eles "estão guardados em uma sala porque ainda falta definir como serão usados". "Volte daqui a alguns dias", aconselhou a atendente. Da segunda vez - três semanas depois -, a questão foi passada de funcionário para funcionário até, meia hora mais tarde, a resposta ser a mesma. "Realmente ainda não descobrimos como oferecer essa tecnologia para o público", afirma a diretora. "Em 20 dias, isso estará resolvido."

Outra negativa quando o repórter tentou pegar emprestados três livros do acervo, para estrear sua carteirinha - Rasif, de Marcelino Freire; O Livro Amarelo do Terminal, de Vanessa Barbara; e Nunca Antes na História deste País, de Marcelo Tas. "Eles ainda não estão catalogados, por isso não podem ser retirados", informou a moça do balcão. "Os 2 mil livros comprados mais recentemente não foram para o sistema. Levaremos 30 dias para incluí-los", confirma Magda.

Acessibilidade. Uma das bandeiras da biblioteca, muito divulgada em sua inauguração, era que ela nascia preparada para atender pessoas com deficiência. O Estado avaliou esses aspectos. Com boas-vindas: para chegar até a porta, chão tátil; logo na entrada, mapa em braile.

A Biblioteca de São Paulo tem alguns dos equipamentos mais modernos para garantir a acessibilidade. Contudo, eles ainda não podem ser plenamente usados. Entre os recursos: mesas adaptadas para cadeirantes, ampliadores de textos para pessoas com baixa visão e um acervo de títulos em braile e em áudio.

Ao testar os equipamentos voltados aos leitores cegos, a reportagem encontrou problemas em todos. Há uma impressora capaz de imprimir em alto-relevo desenhos feitos em uma folha especial. A máquina, entretanto, não está em uso, principalmente, segundo os funcionários, por causa do alto custo das folhas (R$ 12 a unidade).

Outro dos equipamentos modernos é um scanner que converte imediatamente em áudio qualquer livro impresso. Embora o aparelho permita que deficientes visuais possam acessar qualquer obra do acervo, há a ressalva: o livro só pode ser lido ali, já que o funcionário alegou não ser possível gravar o conteúdo em um pen drive, conforme o repórter propôs.

Os computadores que deveriam ter programas para uso de deficientes visuais não funcionavam nos dias em que o Estado lá esteve. A funcionária apontada como responsável pela acessibilidade da biblioteca não foi encontrada nas duas vezes em que a reportagem foi ao local.

A diretora da biblioteca reconhece que os recursos de acessibilidade ainda não são usados adequadamente. De acordo com ela, em breve os funcionários receberão treinamento de 40 horas de uma ONG especializada em acessibilidade. "Só então vamos poder implantar a utilização de tudo", diz Magda, frisando que ainda não há data definida para que isso aconteça.

A diretora admite que existem poucos funcionários preparados para lidar com o público deficiente, mas afirma que está à procura de pessoal qualificado. "Para lidar com a pessoa com deficiência, tem de ser um funcionário especial", afirma. Só então a Biblioteca de São Paulo terá um uso tão completo quanto sua estrutura sugere.

Onde fica

BIBLIOTECA DE SÃO PAULO.

AVENIDA CRUZEIRO DO SUL, 2.630. TELEFONE 2089-0800. DE TERÇA A SEXTA-FEIRA, DAS 9H ÀS 21HORAS.

SÁBADOS, DOMINGOS E FERIADOS, DAS 9H ÀS 19H

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