O tempo perdeu as estribeiras

Esperar a chuva do fim de tarde virou rotina, virou neura e até aposta para os paulistanos

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2011 | 00h00

Durante dez anos, entre 1960 e 1970, morei na Praça Roosevelt, centrão de São Paulo. Cada vez que ia sair, ao chegar à portaria, o zelador, Jurandir, um velho do interior, vinha até a porta, olhava o céu e dizia: "Leve o guarda-chuva seu Ignácio." O céu estava limpo, o sol brilhava, nenhuma nuvem. "Está louco, seu Jurandir, olhe o céu!" Ele sorria, sacudia a cabeça. No final da tarde, a chuva me pegava, eu ficava molhado como um pinto. O centro, eu trabalhava no Anhangabaú, paralisava, ninguém se movia. O Tamanduateí inundava a Avenida do Estado, o Tietê erguia-se e ocupava as terras à sua volta, então sítios e chácaras. Isso mesmo, sítios e chácaras e campos de futebol de várzea. Vacas e cavalos não se incomodavam com a chuva. Uma vez, o buraco do Adhemar, aquela passagem sob a avenida São João, encheu d"água, foi um acontecimento. Mas nada do que se vê hoje.

Agora, o que se passa? Como nos comportamos? Mudamos tudo, adquirimos novos hábitos. Antes de sair vamos à janela e olhamos de que lado o pretume está. Antigamente, sabíamos de que lado as chuvas vinham, agora, vêm de todos os lados. Preteja na zona leste, chove. Preteja na zona sul, chove. Preteja na zona oeste, nordeste, noroeste, sudeste e a chuva vem. Não existe mais previsão do tempo. Pensar que ouvíamos o Narciso Vernizzi e ele não errava uma, podíamos nos orientar, regular a hora de saída. Essa previsão que serviu para a ascensão de lindas jovens na Globo, como Rosana Jatobá ou a Fabiana Scaranzi, está desmoralizada. O que diria hoje seu Jurandir?

Qual nosso primeiro gesto de manhã? Antes, era ler horóscopos, hoje é pegar o caderno regional do jornal e ver e meteorologia. Tenho um amigo que compra quatro jornais, quer sempre uma segunda opinião. No caso dele, uma terceira e quarta. Conheço outro que fica no controle da tevê e busca a previsão do tempo. Muda agendas, encontros, almoços. A chuva do final da tarde ficou famosa. Como se livrar dela? Tem gente negociando saídas mais cedo do trabalho, trocando pelas folgas do sábado ou por dias de férias. Conheço um que já deve duas quinzenas ao patrão. Nos bares, há um novo gênero para fanáticos de apostas. A que horas vai chover? Vai inundar ou não? A enchente vai ser brava? Quantos quilômetros de congestionamento? Quantas casas serão inundadas, quantas virão morro abaixo? Quantos carros vão boiar? Parece tétrico? É, mas quem joga, joga.

O que era insegurança virou medo, o que era medo virou pavor, o que era pavor virou pânico, o que é pânico está se tornando neurose, obsessão. Ela vai me pegar andando na rua e a enxurrada vai me levar? Meu carro boiará? Entrarei na minha garagem? Minha família será atingida? Os ventos quebrarão minhas janelas? Uma árvore cairá sobre meu carro? Não há lugares seguros. Um professor aqui vizinho vive uma fixação: e se eu virar um desabrigado?

Os antigos queimavam palmas bentas, acendiam velas para Santa Escolástica e confiavam. Tais práticas desapareceram, estamos sem amuletos sobrenaturais. O medo nos contamina. Dizem que os consultórios dos terapeutas estão com agendas esgotadas. Um valor mais alto se alevanta, o temor da tempestade.

Na noite de segunda-feira saí à noite depois da novela para buscar um remédio para minha filha. Impossível atravessar a Rebouças, a água movia-se furiosa. Nos pontos de ônibus pessoas molhadas até o último fio de cabelo precisavam se defender dos sacos de lixo que rolavam e se acumulavam e formavam barreiras e represavam a água, formando diques que se rompiam em cascatas. Pobres pedestres paulistanos, pobres transeuntes. Era quase meia-noite e os ônibus demoravam, os que tinham ido aos bairros não conseguiam voltar.

Levei meia hora para chegar à farmácia e estava ensopado, pés encharcados. Dentro da farmácia pisava na água, funcionários tinham tirado os remédios das prateleiras mais baixas. Na porta, gente parada, esperando. Esperando o quê? Ninguém sabia se o fim da chuva, se um táxi, se a possibilidade de um ônibus. Todos falando aos celulares, sossegando familiares e parentes, que a neura é geral. O farmacêutico tinha acabado de aviar quatro receitas de antidepressivos, três de calmantes, quem não tinha receita levava Maracujina mesmo para aliviar a tensão. "Nunca vendi tanto calmante", me disse ele. "E o senhor, o que deseja?" Olhei para ele, pedi a Novalgina de minha filha e indaguei: "Mesmo que eu queira o senhor não me vende um calmante faixa preta, vende?" Saí e fiquei pensando no seu Jurandir da Praça Roosevelt. Estaria louco ou diria: o tempo ficou louco de pedra, pirou, perdeu as estribeiras.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.