Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

O teimoso que leva a paz pelo mundo

Por sua 'missão', Gaetano Luigi ganhou honrarias e benção especial do papa

Rodrigo Brancatelli, de O Estado de S.Paulo,

27 Novembro 2011 | 03h06

Digamos que, no mínimo, Gaetano Brancati Luigi é um sujeito um tantinho teimoso. Há cerca de 10 anos, ele botou na cabeça que queria distribuir esculturas pelo mundo simbolizando a paz, uma espécie de arco com quatro metros de altura, 16 blocos de granito, placas de mármore e um sino de bronze com a palavra PAX. Era de se esperar, claro, que amigos, parentes e vizinhos tripudiassem da ideia, brincassem com o projeto, rissem do plano. Hoje - depois de 11 esculturas instaladas em cinco países, outras 13 em projeto, uma bênção especial do papa Bento XVI e um título dado pelo governo italiano que só Winston Churchill, Madre Teresa de Calcutá e Mikhail Gorbachev já ganharam antes -, é Luigi quem ri com gosto da sua perseverança. "Perseverança, não, é teimosia mesmo, pode escrever aí", brinca ele.

Nascido na minúscula cidade de Orsomarso, na província italiana de Cosenza, Gaetano Luigi vive em São Paulo desde 1969, quando chegou para trabalhar como alfaiate com seu pai no bairro da Lapa, na zona oeste. Antes, já havia morado em Buenos Aires, na Argentina - por isso, ele até hoje mistura palavras em português, italiano e espanhol, uma grande macarronada linguística.

Em 2001, uma série de eventos aparentemente isolados que remontam desde à infância fizeram com que Luigi instalasse no Pátio do Colégio o primeiro monumento "Marco da Paz", fruto de um investimento de 13 meses de planos e R$ 40 mil. Desde então, ele não parou mais.

"Eu queria que ele fosse um símbolo de harmonia e fraternidade entre os povos", diz ele, hoje membro da Associação Comercial de São Paulo. "Não descansei enquanto não divulgasse essa ideia, essa lembrança da importância de termos valores, de buscarmos a paz. Já chegamos a instalar o Marco da Paz em Aparecida, em Bertioga, em três cidades do México, na Argentina, no Uruguai e até na China. E vou continuar sendo teimoso até espalhar o monumento pelo mundo inteiro", garante.

2ª Guerra. A história do Marco do Paz começa ainda na pequena Orsomarso - digamos, novamente, que Luigi é teimoso desde criança, uma teimosia por sobrevivência. Nascido em 1937, ano em que a Itália firmou seu primeiro acordo militar com a Alemanha, ele passou uma infância de sofrimento, medo e fome em plena Segunda Guerra Mundial. "Meu pai foi lutar na guerra e minha mãe ficou em casa cuidado de mim e do meu irmão, ela foi a nossa heroína", conta ele. "A gente tinha sempre de lutar pela vida. Não tinha brinquedo, não tinha nada. No inverno, era um frio tremendo. A gente também não tinha comida. Quando um garoto ganhava um pedaço de pão, dez amiguinhos apareciam para pedir um pedaço, sempre prometendo que, quando eles conseguissem um pão, também dividiriam. As crianças sofreram muito, até porque a gente não queria crescer, porque tinha medo de ser mandado para lutar na guerra."

Em 1945, quando ouviu os sinos anunciando o fim do conflito, Luigi, com 8 anos, se assustou com a barulheira. E de alguma forma aquele som ficou em sua cabeça, um ruído metálico que, para o menino, simbolizava a paz. "Não sabia o que estava acontecendo, era um monte de sinos tocando ao mesmo tempo", lembra. "Quando vi todos abanando lençóis brancos e gritando 'paz', percebi que a guerra havia terminado."

Centro paulistano. Corta para São Paulo, já no começo de 2000. Depois de já ter trabalhado como alfaiate na zona oeste e então dono de uma loja de móveis, Luigi estranhava que nunca ouvia o barulho do sino na igreja do Pátio do Colégio. "Fui perguntar para o padre por que não tinha sino, e ele falou que havia sido roubado", diz o italiano-argentino-brasileiro, que resolveu então arrecadar fundos para dar um novo sino para a igreja. Foi o ponto de partida para que Luigi criasse um monumento no qual o sino representasse a paz.

"Desde 1945, aquilo estava na minha cabeça, de certa forma", conta ele, que já tem convites para instalar o Marco da Paz em Buenos Aires, no Vaticano, em Jerusalém, em Genebra e em Barcelona. O monumento ganhou tanta fama que virou troféu oficial da Maratona de São Silvestre em 2008. Já no começo do mês, Luigi ganhou do governo da Umbria, na Itália, o título de "Cavalieri della Pace", honraria concedida apenas a três personalidades até hoje. E no último dia 16, ele chegou até mesmo a ser recebido no Vaticano em uma audiência especial pelo papa Bento XVI, que ganhou uma miniatura do Marco da Paz e brincou com o sininho da réplica.

"O papa quebrou o protocolo, segurou a minha mão e disse as seguintes palavras, que nunca vou esquecer: 'continua o caminho que Deus te deu'. Então, até o papa quer que eu continue sendo teimoso."

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