O sucesso da escola depende de cada um

Durante todo o ano, o papo de botequim sobre escola de samba é o mesmo. As alas são cheias de turistas que não sabem cantar o samba, o andamento da bateria é cada vez mais rápido e não se percebem nuances da melodia, carnavalescos impõem sua vontade à escola e por aí vai. Nem dá para entender porque, quando chega o fim de ano, é inevitável o telefonema para dona Chininha da Mangueira com a pergunta clássica: "Ainda tem vaga?"

FERNANDO PAULINO NETO, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h02

Nascida Eli Gonçalves da Silva, descendente da mais nobre estirpe mangueirense, neta do fundador e primeiro presidente, Saturnino Gonçalves, filha da lendária dona Neuma - "a primeira mulher da Verde e Rosa", nos versos de Sérgio Cabral (o pai) -, ela responde com a candura habitual: "Claro, meu filho!"

É a senha para detonar a ansiedade. Será que a fantasia é pesada? O esplendor é muito grande? O chapéu vai atrapalhar? O croqui desenhado pelo carnavalesco dá uma pista. Mas, só depois de pegar a fantasia, tudo fica esclarecido. E, em geral, os temores confirmados. Neste ano, uma coisa é certa e alegra um coração mangueirense. Ela é das cores escolhidas por Cartola.

Chegou o dia. Não dá para ir inteiramente vestido. O jeito é levar em um saco as peças maiores. No metrô, o clima já esquenta. Alguns cantam o samba de sua escola. Passageiros interagem com os componentes das escolas.

Na concentração, o caos. Diretores correm de um lado a outro para "armar a escola". Gritam: "Fila de oito!" Ajudam aqui e ali a fixar fantasias, costurar ou colar um ou outro detalhe. De repente, como por mágica, tudo se organiza. Um certo tédio da longa espera faz duvidar se vai dar para dançar e cantar o samba com vontade. Espoucam fogos. Ao longe se ouve a bateria e a voz do puxador do samba. Alguns ameaçam cantar. São contidos para evitar que o samba "atravesse" (segmentos da escola cantando trechos diferentes ao mesmo tempo).

De mãos dadas para impedir que as filas se desmanchem, os componentes apressam o passo. O som da bateria chega forte. E vem a ordem: "Vamos cantar!" O momento tenso de fazer a curva e alcançar a luz fria da pista logo é superado pela visão das arquibancadas com as bandeirinhas da escola tremulando.

O samba sai forte da garganta, fantasias se embaralham umas nas outras. Diretores cantam e, ao mesmo tempo, organizam o desfile. São incontáveis informações visuais e auditivas. No chão do sambódromo, o aviso "início do desfile". O sucesso depende de cada um.

O peso da fantasia parece que aumenta à medida que a pista avança. O aviso de "meio do desfile" não chega nunca. A adrenalina aumenta. E, de repente - surpresa -, aparece a marca de "fim do desfile". É hora do esforço derradeiro. Enfiar a fantasia de volta no saco (com cuidado, porque certamente a escola volta no desfile das campeãs ). E, morto de cansaço, batalhar um jeito de voltar para casa com a certeza de que no ano que vem vai ter tudo de novo.

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