O segundo fim do mundo

O Samuel está de novo com a conversa de que o mundo vai acabar.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2010 | 00h00

- De 2012 não passaremos - anuncia ele, enquanto monta meu armário de cozinha.

- Então ainda temos um tempinho - comento. - Só espero que este armário aguente firme até lá.

Homem de pouquíssimas palavras, o Samuel está excepcionalmente loquaz, quem sabe disposto a tirar até 2012 o atraso de toda uma vida levada aos monossílabos. Na outra vez, não abriu o bico.

Na outra vez: talvez você se lembre daquele dia, 11 de agosto de 1999, uma quarta-feira (pelo menos não estragaria o fim de semana) em que, conforme previsão de Nostradamus, reforçada pela ocorrência de um eclipse, o mundo ia acabar. Por um momento, foi um grande assunto. Confesso que não dei muita bola. A humanidade ali angustiada e eu escrevendo alguma coisa naquele 11 de agosto, mais preocupado com outro deadline e indiferente ao fato de que a qualquer momento (Nostradamus não precisou a hora) a mão de Deus, ou do Diabo, viria desligar não só o computador como o próprio usuário.

O Samuel estava entre os que levaram a coisa a sério, ele e sua mulher, a Suely, com quem tocava a Marcenaria SS, sociedade em que cabia ao marido fazer tudo, e à mulher, mandar nele e a cada passo lhe puxar as orelhas, que, sendo de abano, pareciam ter sido feitas para isso. Os dois acreditaram na previsão e, na moita, se prepararam para o Apocalipse.

Dessas fichas que só vão cair muito tempo depois, quando então tudo se esclarece. Aí por junho, julho daquele ano, o Samuel e a Suely, sempre tão disponíveis, pararam de pegar encomendas. "Para final de agosto? Olha, não vai dar." E mais não diziam. Pessoas corretíssimas, não queriam enganar ninguém, prometendo armários, estantes e bancadas de banheiro e cozinha para casas que já teriam virado pó.

Também não viram sentido em renovar a matrícula dos filhos para um segundo semestre que iria durar apenas 11 dias. Pagaram os fornecedores, liquidaram as prestações e trataram de não fazer novos compromissos. Ao se darem conta de que seu aniversário de casamento, 23 de agosto, ia cair depois do fim do mundo, anteciparam para o dia 8 a comemoração, à qual se deu também o caráter de despedida geral. Bem mais tarde o Samuel me contou que cuidaram de cada detalhe, das roupas com que deixariam a vida ao cardápio da última refeição, sem esquecer o tema musical do fim. Não, não foi a trilha sonora de Apocalypse now. Escolheram O barquinho, o clássico de Menescal e Bôscoli. Mas por que, Samuel? Sei lá, disse ele, enrubescido, e cantarolou com voz ruim: "o barquinho vai, a tardinha cai..."

Tudo providenciado, sentou-se a família à espera do nada.

Nós, os clientes, só soubemos do que se passava quando, um pouco adiante do 11 de agosto, alguém deu notícias algo sombrias do casal. Mais atarantado que de hábito, o Samuel atravessou semanas sem botar os pés da marcenaria, incapaz de bater um prego. E a Suely, nem se fala: pela primeira vez despida de seu figurino de mulher mandona, deixou-se chafurdar na mais escura, espessa e gosmenta depressão, dessas que consomem uma nota preta com tarjas idem. Já que o mundo não acabara, parecia decidida a se acabar ela própria, de enraivecida inanição. Sentia-se traída por tudo e por todos. Na falta de poder descarregar sobre aqueles tratantes - Nostradamus e o eclipse -, voltou-se a Suely contra o pobre do Samuel, cujo par de orelhas foi pouco para tanto puxão. Em vez do mundo, acabou-se o casamento.

Mas já faz tempo, e ele refez sua vida. Decididamente, o barquinho vai. Mesmo tendo perdido um S, a marcenaria voltou a prosperar. O Samuel se casou de novo e, segundo dizem, melhorou de mulher. Como não se pode ter tudo, piorou de sogra. É o fim da picada, desabafa entre duas marteladas. Mas não é o fim do mundo, pondero eu. Ainda não, emenda ele. Ainda não.

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