O SAMURAI MODERNO E COM JEITO BRASILEIRO

Mistérios orientais, duelos com espadas e símbolos de luta. Tudo isso sempre fez parte da vida do médico Jorge Kishikawa, de 48 anos. Ele se guiou desde a infância pelos códigos de conduta do Japão antigo, terra de seus ancestrais, e se tornou o samurai moderno. Juntou, claro, com um pouco da flexibilidade do brasileiro, o que o ajudou a ser também enaltecido por seus mais de 10 mil discípulos.

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h09

Casado, pai de três filhos, o samurai paulistano é o criador do Instituto Cultural Niten, que desde 1993 ensina a arte da luta com espadas e a filosofia de vida dos guerreiros japoneses. "Nasci no lugar certo, no tempo certo, e por isso posso ajudar as pessoas", diz, a respeito do Brasil e sua receptividade aos ensinamentos. E tudo deu tão certo que 24 de abril, data de aniversário de Kishikawa, se tornou o Dia do Samurai na capital paulista, em Campinas, Ribeirão Preto, Piracicaba e nos Estados do Paraná e Amazonas.

Não foi por acaso. Multicampeão de kendo (luta derivada dos combates entre guerreiros japoneses), Kishikawa também serviu nas Forças Armadas brasileiras como oficial médico - foi tenente. Ele diz que o contato com o mundo militar é um de seus pilares.

Com base em conhecimentos adquiridos no Japão com descendentes dos últimos samurais, ele criou o método KIR, que em português é a sigla para "Recuperação Intensiva Através da Espada". São técnicas que incentivam o indivíduo a ter "tranquilidade, controle, disciplina e autoconfiança".

Kishikawa ressalta, no entanto, que, se fosse apenas um mestre "durão", não teria sucesso. E resume: "A felicidade é, depois de um treinamento, tomar uma cerveja com os alunos. Faz parte. É sempre bom."

Corporativo. Foco e persistência nas batalhas. Essas também foram algumas das qualidades que, segundo Kishikawa, tornaram seus ensinamentos tão atraentes para o mundo corporativo. "As empresas querem samurais", diz. Não por acaso, ele já foi chamado inúmeras vezes para conceder palestras em multinacionais. Tem entre seus alunos executivos e vendedores. "O homem moderno carrega os problemas. É preciso cortá-los com a espada."

Também orienta jovens interessados em passar no vestibular, utilizando para isso a disciplina aprendida na arte da luta com espadas. Ele próprio passou em alguns dos exames mais concorridos do País, como os da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Faculdade Getúlio Vargas e Escola Paulista de Medicina - atual Unifesp. Optou pela última, onde se formou médico.

Seguir o Bushido, o código de ética e conduta dos samurais, é parte fundamental dos ensinamentos. Kishikawa diz que os grandes inimigos da espada são as fraquezas humanas, como a preguiça, a ambição desenfreada e as tentações em geral. Ele vê oportunidade nos momentos críticos. "Você tem de comprar a dificuldade, porque é ela quem te leva adiante."

Para o samurai moderno, o excesso de facilidades pode ser prejudicial na formação do caráter do indivíduo. "A nossa juventude hoje ateia fogo a índios e mendigos porque já não sabe o que é a dor. Por isso, muitos jovens não têm compaixão, uma das virtudes dos samurais", acredita.

O Instituto Niten colabora com obras de caridade em todo o Brasil e desenvolve trabalhos sociais com alunos da rede pública de ensino, que recebem bolsas para conhecer os mistérios dos guerreiros japoneses.

Esporte. As lutas modernas, como o MMA (artes marciais mistas, em português), também despertam a curiosidade do samurai. "Não tenho muito tempo para assistir mas, quando vejo, acho interessante, porque consigo relacionar com algumas técnicas da espada."

O samurai paulistano também nadava e corria, mas isso não supria suas necessidades. Ele buscava desenvolvimento além do prazer físico, e diz ter encontrado isso na luta. "O combate é mais emocionante. Você bate, leva e descobre estratégias importantes."

Para ele, a existência é uma eterna batalha, e os insucessos tanto no dojo (local de luta) quanto fora dele têm geralmente o mesmo motivo. "A derrota na vida é como no combate. Mais do que falhas da técnica, ela decorre da fraqueza espiritual."

Intensidade. O estudante de Filosofia e microempresário Cristiano José da Silva, de 29 anos, estava procurando foco mental, e diz ter encontrado com Kishikawa. "Talvez um dos ensinamentos mais importantes seja o de agir com intensidade, dedicação, sem que sejamos desagregadores. Eles ensina a agir com sentimento."

O respeito é compartilhado por Wenzel Böhm, de 38 anos, senpai (mestre) e um dos escudeiros de Kishikawa, de quem se aproximou há mais de 15 anos. "Não foi apenas pelo fascínio pela cultura japonesa, mas também pela conexão com os ensinamentos dos antigos. O sensei (Kishikawa) é esse elo."

O resumo da filosofia de vida de Kishikawa está no Shin Hagakure (novas folhas ocultas), em alusão ao livro Hagakure, de Yamamoto Tsunetomo (1659-1719), samurai que relatou feitos heroicos e códigos de comportamento em uma época decadente de valores.

A primeira edição do livro de Kishikawa teve a apresentação do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Na ampliada, foi a vez de a budista Monja Coen elogiar o trabalho. Nas dedicatórias, o samurai paulistano deseja senki (o espírito guerreiro), "seja nos dias de guerra, seja nos minutos de paz". Ele conhece bem a proporção das coisas.

O médico Jorge Kishikawa, de 48 anos, conquistou 10 mil discípulos com as técnicas dos guerreiros japoneses

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