O Rosário dos Pretos

Atravessando à noite a Praça Antônio Prado, no centro, depois de anos sem passar por lá, descobri-a diferente. Era tarde, pouca gente por ali. Na esquina da Rua 15 de Novembro, os dois andares de um bar e café no estilo dos cafés que existiram na São Paulo de outros tempos, lugares de conversas sobre os assuntos do dia e do mundo. Tempos em que na mesma praça disputavam a opinião pública e diferentes concepções de República os jornais O Estado de S. Paulo e Correio Paulistano, que ali tinham suas redações.

José de Souza Martins, josedesouza.martins@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2010 | 00h00

Nas mesas da praça, os cansados do dia bebem e conversam. No coreto e pelos cantos, encostados às portas e paredes de bancos e lojas, moradores de rua acomodam-se em seus cafofos. Alguns roncam. Ásperas expressões de injustiças e abandonos. Ali dormem os órfãos do Brasil inteiro. Duas humanidades contrapostas pelas desigualdades sociais. Coexistência dos opostos na falsa paz da noite.

Em calmo silêncio, ali repousam também os injustiçados de outras épocas, os negros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Aquele é o antigo Pátio do Rosário. Nele, de fachada voltada para o que é hoje a Rua 15 de Novembro, existiu a Igreja da Irmandade, que congregava negros livres e escravos, na maioria da etnia bantu. Fora iniciada em 1725, com esmolas recolhidas nas minas de ouro das Gerais. Ali se realizavam as danças de pretos no dia 6 de janeiro, dia dos Santos Reis, conforme documento de 1833.

Diz Miguel Milano, no seu Os Fantasmas da São Paulo Antiga, que o largo foi inaugurado em 1872, onde houvera antes o cemitério dos pretos do Rosário, anexo à igreja, e algumas casinhas de ex-escravos que, livres, se tornaram repressivos donos de escravas de ganho, vendedoras de guloseimas.

Em 1874, a Companhia Cantareira instalou no largo um chafariz, onde os moradores das redondezas iam buscar água gratuitamente. Mas, em 1893, conta Ernani Silva Bruno, a Cantareira mandou demolir os chafarizes, para forçar os moradores a instalarem água encanada e paga em suas casas. Rebelaram-se os vizinhos, gente pobre, sendo chamada a polícia para reprimir a revolta.

A igreja seria desapropriada em 1903, demolida e substituída por outra, em 1906, a que está agora no Largo do Paiçandu. A desoras, no velho Pátio do Rosário, há quem suponha ouvir ecos das cantorias dos negros nos sepultamentos noturnos dos membros de sua Irmandade: "Zóio que tanto viu. Zi boca que tanto falô. Zi boca que tanto zi comeu e zi bebeu. Zi corpo que tanto trabaiô. Zi perna que tanto andô. Zi pé que tanto zi pisô..."

Um rito de desconstrução simbólica dos atributos de cativo no corpo do negro, da cabeça aos pés, para livrá-lo das funções de seu cativeiro e restituí-lo, no tenebroso transe da morte, à condição humana que a escravidão e a chibata lhe arrebataram.

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