O Rio do século 19, pelo jovem pintor Manet

Mostra resgata obras do artista que visitou a cidade aos 17 anos, antes de ficar famoso

LUCIANA NUNES LEAL / RIO, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h09

Nos primeiros meses de 1849, um jovem francês, aprendiz de marinheiro, visitou o Rio de Janeiro e enviou cartas à família com relatos das boas e más impressões da cidade. Encantou-se com a natureza, as frutas frescas, a beleza das brasileiras. Assustou-se com a escravidão, as ruas estreitas, o alto custo de vida.

O rapaz de 17 anos contou que, na falta de um professor de desenho na capital do império, foi encarregado de ensinar os primeiros traços aos colegas do navio-escola Havre et Guadeloupe, atracado na Baía de Guanabara. Na travessia do Atlântico, já havia conquistado os colegas com as caricaturas que fazia. A carreira na Marinha não foi adiante, mas o estudante Edouard Manet tornou-se um dos maiores pintores do século 19.

A aventura nos trópicos, que deu início à trajetória artística de Manet, ganha novo interesse com a chegada ao Rio da exposição Impressionismo: Paris e a Modernidade, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A mostra traz 85 telas do acervo do Museu D'Orsay, de Paris, entre elas algumas obras-primas de Manet. O prédio do CCBB fica na Rua Primeiro de Março, antiga Rua Direita, próximo à Rua do Ouvidor, onde o artista ainda em formação ficou hospedado nos dias em que tinha permissão para deixar o navio.

Manet preparava-se para a prova da Escola Naval francesa. O pai magistrado queria que o filho seguisse uma carreira mais promissora que a de pintor. A viagem, no entanto, fortaleceu as pretensões do jovem. "A cidade, ainda que feia, tem, aos olhos do artista, um caráter particular", escreveu Manet ao primo Jules. A correspondência e os desenhos feitos por Manet nos cinco meses da expedição estão no livro Viagem ao Rio: Cartas da Juventude, lançado na França em 1928 e editado no Brasil pela José Olympio.

Os visitantes da etapa carioca da exposição dos impressionistas verão no entorno do CCBB prédios e ruas descritos por Manet nas cartas, algumas vezes com desdém. O Paço Imperial, sede do governo depois da chegada da corte de d. João VI, em 1808, foi chamado de "casebre" pelo jovem parisiense. "Ele tem razão. Aquilo não é um palácio. Surgiu de uma reforma dos armazéns, da fábrica de moedas e da cadeia para presos especiais", diz um dos maiores especialistas da história do Rio, o arquiteto Nireu Cavalcanti. Já a Ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara, "era um lugar muito agradável, coberto de floresta, com água limpíssima".

"Para um europeu saído da Revolução Francesa, era ambíguo encontrar seres submetidos a condições sub-humanas e, ao mesmo tempo, deparar-se com a luminosidade, as cores, os sabores, as cantigas. Certamente a viagem influenciou a formação de Manet quando se decidiu pela pintura", afirma a professora de História da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Tânia Regina de Luca, que escreveu a orelha do livro sobre a viagem.

Criado em família rica e requintada, Manet pede à mãe que não se assuste por estar hospedado na loja de uma modista na Rua do Ouvidor e sugere que ela escreva uma carta de agradecimento à "amável senhora".

Em 10 de abril de 1849, o navio-escola deixou o Rio. No ano seguinte, Manet entrou definitivamente no mundo das artes: matriculou-se no curso do prestigiado pintor Thomas Couture.

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