Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

O reencontro de quem estudou na Praça da República

Ex-aluna dos anos 60 no Caetano de Campos reúne a turma, até pela internet, e põe em livro o colégio dos filhos dos barões do café

Valéria França, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2010 | 00h00

Claudia Damiani, Hamilton Jandon, e Wilma Legris eram amigos inseparáveis. Mas, desde que saíram da Escola Estadual Caetano de Campos, em 1965, perderam totalmente o contato. Claudia casou e teve três filhos. Jandon, que sonhava em ser jogador de futebol, investiu na carreira de economista. E Wilma foi morar com o namorado na França.

Na sexta-feira, os três sessentões se reencontraram na porta do antigo colégio, onde hoje funciona a Secretaria Estadual da Educação, na Praça da República, no centro de São Paulo, para uma volta ao passado, que hoje promete ser muito maior. Esta noite, Wilma lança o livro Caetano de Campos - Memórias de Uma Aluna Bem (e Mal) Comportada (Editora Gráfica Bernardi Ltda, 222 páginas), em um bar dos Jardins, na zona sul paulista.

Para a festa, ela convidou 350 ex-alunos. "Toda vez que vinha a São Paulo visitar meu irmão, encontrava uma cidade diferente, que não conseguia reconhecer", comenta.

Saudosismo. A obra resgata do passado um tipo de escola estadual e um centro da cidade que não existem mais. Aberto em 1846, como Escola Normal Caetano de Campos, o colégio funcionava em um prédio anexo da velha Catedral da Sé. Em 1894, foi transferido para o edifício projetado por Antônio Francisco de Paula Sousa e Ramos de Azevedo, na Praça da República, onde hoje funciona a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Em 1978, o prédio foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico e Turístico (Condephaat) e a escola, transferida para a Aclimação.

"O jardim da infância do Caetano de Campos era em um pavilhão francês de vidro e ferro forjado anexo ao prédio central", lembra Wilma. "Lá dentro, as professoras ficavam em salas equipadas com pianos de calda, harpas e muitos brinquedos."

Segundo ela, tudo era muito sofisticado porque a escola foi montada para os filhos dos barões do café. Crianças de outras classes sociais, como era o caso de Wilma, entravam por indicação ou por concurso. "O pavilhão foi derrubado para a construção da Avenida São Luís."

Ela não entende, porém, porque ele não foi remontado em outro lugar. "O centro foi se desconstruindo, e não lembra em nada o que já foi." Por conta disso, a escritora abriu um blog (www.ieccmemorias.wordpress.com)com o objetivo de atrair ex-alunos e consequentemente os arquivos pessoais de cada um deles. Recolheu fotos e histórias para completar sua pesquisa.

Visita. Entre as colaborações que chegaram, há as fotos de Claudia, ainda muito menina, com um vestido rodado no gramado da Praça da República. "Fiquei muitos anos sem vir ao centro", conta ela, que hoje mora no Morumbi. "Por causa do livro, bateu uma nostalgia e resolvi fazer uma visita à região durante a semana. Foi um choque."

Claudia encontrou uma Praça da República tomada por prostitutas, michês, camelôs e muita sujeira. "Quando era menina, tinha pavão no jardim. Na hora do almoço, os funcionários públicos saíam do trabalho para dar comida para os bichinhos." E vai além: "No entorno da praça, tinha o Fasano, a H.Stern, a Academia Brasileira de Letras, livrarias e floriculturas."

Um exemplo: atualmente, quem vai ao centro assistir a um filme no Cine Marabá, que foi revitalizado - na Avenida Ipiranga, a uma quadra da Praça da República -, não tem onde sequer espera a sessão começar. Não há docerias abertas nem cafés para se fazer hora. Isso sem falar nos moradores de rua e pedintes que se acumulam nas calçadas.

"Eu jogava futebol na São João", lembra Jadon. Wilma costumava sair do colégio a pé com o pai. Juntos seguiam pela Rua Conselheiro Crispiniano, onde havia o bar do Hugo, que os homens, incluindo o pai, frequentavam para discutir política.

"Adorava ir ao bar do Hugo", também escreve Wilma, "para garantir o guaraná caçula (apresentado numa garrafinha de vidro, com o conteúdo suficiente para encher um copo) e os garçons me davam todas as tampinhas de Coca-Cola abertas, porque se fossem marcadas com um personagem poderíamos retirar bonequinhos de Mickey, Pluto e toda família Disney." Em outro trecho, resume o sentimento de muitos dos seus contemporâneos : "Era tudo diferente, mas como era bom!"

SERVIÇO:

Bar do Batata. Rua Bela Cintra, 1.333, Jardins. Hoje, às 19 horas

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