'O real caminho' vem de uma reflexão latino-americana

Entrevista com D. Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos e ex-núncio no Brasil

Entrevista com

Jamil Chade / VATICANO, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2013 | 02h06

A teologia apresentada pelo papa Francisco nessa terça-feira, 26, é a versão "correta" da Teologia da Libertação que religiosos latino-americanos por anos buscaram, com base no marxismo, como forma de lidar com as desigualdades sociais e a pobreza. A avaliação é de d. Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos e ex-núncio no Brasil. Ontem, ele conversou com jornalistas. Se nos anos anteriores o contato da Igreja com a pobreza na América Latina gerou a Teologia da Libertação, desta vez o papa Francisco volta a se preocupar com a dimensão social, mas produz o que seria o "real caminho" a ser percorrido. Leia trechos da entrevista:

Como o senhor resumiria a mensagem desse texto? É o lançamento do caráter missionário da Igreja. Ela precisa sair e ir ao caminho da vida e todos têm o dever, do fiel ao papa, de fazer isso e lançar a mensagem. As estruturas existentes devem ser um meio, e não um fim. Isso é fundamental. A cultura mesmo pode ser diferente para veicular a mensagem evangélica. Por 20 séculos, o Evangelho foi primeiro encarnado pela cultura hebraica, depois pela greco-romana e depois por outras culturas europeias. Agora, o que ele nos diz é que existe a cultura de outros continentes que podem vestir o Evangelho.

O que isso muda? É uma dimensão diferente. No passado, também se pensava que a Igreja precisava ser missionária e ir ao mundo. Mas sempre partindo do conceito europeu. A Igreja deixa o eurocentrismo. Isso é fundamental e extraordinário, algo que nunca havia acontecido. O papa cita os bispos da Oceania para que o Evangelho seja anunciado a partir da cultura deles, e não da Europa. É uma revolução.

O papa volta a falar dos pobres. Qual a importância disso? Isso é enfatizado abertamente. Ele viveu essa realidade. Os europeus talvez sintam isso, mas veem o tema de longe. O povo e os bispos latino-americanos entraram no meio desse tema e depois produziram uma reflexão teológica (a Teologia da Libertação). Mas a reflexão correta é a que o papa nos apresenta agora, o real caminho.

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