O quinto pé do canguru

A beleza e a elegância de um pássaro são impressionantes. As penas perfeitas, alinhadas ao longo da asa, separadas por tamanho, cor e função. A perfeição funcional e estética dos seres vivos é apreciada pelos seres humanos há milhares de anos. Seguramente algo tão lindo e funcional só pode ter sido construído por uma inteligência superior. Daí vem Darwin e descobre que o processo que produziu e continua a produzir essas estruturas maravilhosas dispensa a ideia de um ser superior. Basta invocar o surgimento de alterações randômicas, provocadas pelo acaso, e o processo de seleção natural para explicar a diversidade dos seres vivos. É claro que encontrou resistência.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2014 | 02h02

Hoje, a resistência se encontra entre os defensores do desenho inteligente (inteligent design). Esses cientistas acreditam que os seres vivos mudam ao longo do tempo, mas ainda defendem que algo tão perfeito é prova que alguma forma de inteligência guia o processo evolutivo. Seus livros são recheados de exemplos que descrevem a beleza e perfeição dos seres vivos. Diante de tanta beleza, perguntam como é possível que isso tenha surgido ao acaso?

Os defensores de Darwin argumentam que, apesar de lindos e funcionais, os seres vivos têm muitos defeitos, estruturas estranhas e pouco funcionais, restos disfuncionais herdados de seus ancestrais. Nosso apêndice é um exemplo, outro é nossa coluna vertebral. A coluna vertebral foi selecionada para funcionar na horizontal, suportando o peso do corpo que era distribuído nas quatro pernas. Mas, quando nossos ancestrais passaram a andar sobre duas patas, a coluna que suportava forças perpendiculares ao seu eixo passou a suportar forças de pressão, paralelas ao seu eixo. Infelizmente, a arquitetura da coluna não funciona tão bem nessa nova geometria. Não é à toa que temos dores nas costas, alterações de todo tipo no alinhamento da coluna e hérnias de disco.

Os seres vivos não são um edifício projetado por seres inteligentes, construído do zero, onde cada ambiente e cada detalhe foram pensados para harmonizar, estética e funcionalmente, com o todo. Somos mais parecidos com um palácio que foi sendo construído ao longo de séculos, moldado pela necessidade de resolver novos usos, com puxadinhos, reformas, adição de novas alas, paredes derrubadas e reconstruídas. O que era uma sala vira um quarto, e o banheiro é adicionado depois, onde cabe e não onde deveria estar.

Agora os cientistas descobriram mais um exemplo de como um animal, sob pressão do meio ambiente, resolveu seu problema de locomoção. É a quinta perna do canguru.

Imaginamos os cangurus saltando de um lado para outro usando suas fortes patas traseiras e as patinhas dianteiras e o rabo suspensos no ar. Isso ocorre, mas raramente, quando querem se deslocar em alta velocidade.

Na maior parte do dia, eles se deslocam sobre as quatro patas, e mantêm a cabeça perto do chão. Afinal, são herbívoros e passam o dia pastando como vacas e cavalos.

Análise. Faz anos que sabemos que, ao caminhar, os cangurus apoiam o rabo no chão. Mas agora os cientistas treinaram cangurus para andar sobre uma espécie de balança que mede a força que cada pata faz sobre o solo durante o deslocamento. Analisando os dados, os cientistas descobriram que grande parte da força que impulsiona o andar do canguru vem do rabo. Ao se apoiar no chão, o rabo empurra o canguru para a frente. O rabo contribui tanto quanto cada um dos outros dois pares de patas (veja o filme em https://www.youtube.com/watch?v=bgWJ9DN1Qak). Essa descoberta também explica por que a cauda do canguru é tão musculosa.

A pequena descoberta é um bom exemplo de como um vertebrado foi sendo "reformado" ao longo de sua evolução. O que era um rabo se transformou em uma pata. Deselegante e desengonçado, mas funciona. Entre os vertebrados, patas já foram extintas (cobras), transformadas em nadadeiras (baleias) e em asas (aves).

Mas o que fazer se você precisa de mais uma pata? A solução foi usar o rabo. Mais um puxadinho que surgiu ao acaso, funcionou, e foi incorporado ao prédio canguru. Olhe o filme. O andar do canguru parece obra de um ser inteligente?

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO MAIS INFORMAÇÕES: THE KANGAROO'S TAIL PROPELS AND POWERS PENTAPEDAL LOCOMOTION. BIOL. LETT. VOL. 10 PAG. 20140381 2014

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