O que são aparições e fantasmas

Grande parte das pessoas já sentiu a presença de outra pessoa logo atrás. Nos viramos e não tem nada. Em pessoas sadias, essa sensação de presença é rápida e passageira e não causa desconforto. Mas, em pacientes com lesões cerebrais ou doenças mentais, essa sensação pode ser persistente e se manifestar de outras maneiras. Relatam que estão sendo perseguidas.

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2014 | 02h01

Cientistas acreditam que foram essas sensações que levaram os seres humanos a criar histórias de fantasmas e aparições. Isso para não falar da sensação de ter abandonado o próprio corpo durante episódios de perda de consciência. Associe isso à crença de que passamos a outro mundo após a morte e é fácil entender por que pessoas afirmam que "foram para o outro lado e voltaram" quando perdem a consciência.

Faz oito anos, relatei o caso de um paciente que durante uma cirurgia no cérebro dizia aos médicos que estava saindo do seu corpo toda vez que determinada área do cérebro era estimulada (A sensação de sair do próprio corpo, publicada em 25 de outubro de 2006). Agora, os cientistas estão começando a entender o mecanismo cerebral que provoca essa sensação de presença e bolaram um truque que induz em qualquer um de nós essa sensação.

Para entender esse fenômeno, os cientistas analisaram lesões cerebrais (causadas por acidentes ou derrames) de mais de 20 pacientes que reportavam com frequência a sensação de ter outra pessoa por perto. Comparando a localização das lesões, os cientistas foram capazes de identificar o local do cérebro que havia sido danificado na grande maioria desses pacientes. Era a região do córtex cerebral chamada de área 7 da região de Brodmann. Essa área é o local onde são integradas as informações vindas de todos os sentidos, como o tato e a visão, e tudo indica que é nessa área que nosso cérebro constrói e refina constantemente o modelo mental de nosso corpo.

Sabemos que o cérebro de todos nós mantém um modelo mental da localização de cada parte do corpo. Neste momento, meu cérebro sabe que minhas mãos estão sobre o teclado do computador, meus pés embaixo da mesa, e meus glúteos apoiados na cadeira. Esse modelo mental tem muitas utilidades, como permitir que meu cérebro saiba que preciso levantar os pés se meus olhos informarem que está escorrendo água pelo piso do escritório. É esse modelo mental que permite que, mesmo de olhos vendados, sejamos capazes de tocar nossos pés. O cérebro sabe onde está sua mão e seu pé e consegue dirigir a mão até o pé sem auxílio da visão.

Pois bem, os cientistas imaginaram que o processo de construção da imagem mental do próprio corpo estava alterado nesses pacientes, provocando sua duplicação. Essa duplicação levaria o cérebro a construir a imagem de dois corpos, um no local correto, outro logo atrás. Como sabemos que a construção dessa imagem mental do corpo é montada a partir de dados dos sentidos (meus pés reportam que estão tocando o chão e minha visão informa que os dedos estão no teclado), os cientistas tentaram "enganar" o cérebro de uma pessoa normal manipulando a informação que os sentidos enviam ao cérebro.

Essa manipulação é feita por um robô. Funciona assim: um voluntário tem seus olhos cobertos e é levado para uma sala onde está o robô. Seu dedo indicador é colocado em uma espécie de dedal que desliza sobre uma superfície vertical plana que simula as costas de outra pessoa à sua frente. A pessoa pode mover livremente seu dedo como se estivesse passando o dedo na pessoa que está à sua frente. Mas aí vem o truque. Esse dedal envia a informação sobre qualquer movimento do dedo para um computador e esse computador controla um dedo artificial que encosta no voluntário. Assim, quando o voluntário passa o dedo ao longo da espinha dorsal da pessoa artificial que está na sua frente, simultaneamente o robô passa seu dedo mecânico nas costas do voluntário. Se o voluntário aperta o da frente, suas costas são apertadas pelo robô. Se ele tira a mão, o robô tira a mão, se ele acaricia, suas costas são acariciadas.

Este equipamento muito simples causa uma confusão no cérebro dos voluntários. O cérebro é informado que o dedo da pessoa está acariciando algo na sua frente, mas também é informado que aparentemente o mesmo dedo está tocando as costas. E, como isso nunca ocorre na vida real, o cérebro se confunde. Aos poucos, ao longo de minutos, o voluntário começa a sentir que há uma outra cópia de seu próprio corpo na sua frente, que está sendo acariciada por seu dedo (na verdade, são suas próprias costas que estão sendo acariciadas pelo robô).

Mas o mais interessante acontece quando as ações do robô, em vez de ocorrerem ao mesmo tempo em que as ações do dedo do voluntário, ocorrem com um pequeno atraso, de menos de um segundo (eu toco as costas à frente, mas sou tocado meio segundo depois). Neste caso, as pessoas também começam a sentir a presença de um segundo corpo, mas, agora, em vez de ele estar na frente do voluntário, ele "aparece" atrás. Como se fosse um fantasma. A ilusão é tão forte que muitos voluntários se viravam, na esperança de ver a pessoa.

Esses experimentos demonstram que é possível criar algo semelhante a uma ilusão de ótica mas, em vez de enganar nossa visão, enganamos a parte de nosso cérebro que constrói a imagem de nosso corpo. Quando isso acontece, nossa imaginação começa a lidar com essas duas imagens de maneira muito criativa e bizarra, e passamos a acreditar que estamos saindo do nosso corpo, que estamos "vendo" um fantasma, ou sentindo algo atrás de nós.

Em condições normais isso não ocorre mas, de vez em quando, o cérebro normal se engana e sentimos pessoas atrás de nós. Ou então sofremos um acidente e agora nosso cérebro passa a nos enganar constantemente, e as aparições se tornam frequentes ou constantes.

É muito provável que robôs como os descritos neste trabalho científico venham a aparecer nos parques de diversão e, então, todos nós poderemos passar a ver fantasmas.

*É BIÓLOGO. MAIS INFORMAÇÕES: NEUROLOGICAL AND ROBOT-CONTROLLED INDUCTION OF AN APPARITION. CURRENT BIOLOGY VOL. 24 PAG. 1 2014

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