''O que me salvou foi a vontade de sair''

Sobreviventes do pior desastre climático do Brasil agora pensam nos próximos passos

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2011 | 00h00

Eles tinham razões para estar onde estavam. Geysiane sentia muita falta da tia Rose e foi passar a noite ao seu lado. Almir dormia com a mulher, Kátia Helena, em sua casa, no fundo do terreno do patrão. Wellington levou Nicolas e Renata para a casa da sogra, Maria de Fátima, depois de ver Enrolados no cinema e ficar com medo da chuvarada.

Eles tinham razões para estar lá antes que o mundo despencasse sobre suas cabeças na noite daquela terça-feira, em Nova Friburgo. Tentam entender agora a razão de terem sobrevivido, para tocar a vida adiante.

"Os durantes". Como de costume, Geysiane Pereira queria papear com a confidente, a irmã de sua mãe, Rose. Convidou a tia para dormir em sua casa, mas Rose estava cansada, preferiu que fosse o contrário, que a sobrinha viesse ao bairro Conselheiro Paulino. Como a saudade era grande, Geyse, como é chamada pela família, topou.

A conversa foi tão boa que as duas adormeceram juntas, na mesma cama. Geyse só acordou com o estrondo de outras 20 casas caindo sobre elas. Paralisada com o peso de uma parede sobre seu corpo, a garota, de 24 anos, começou a orar. "Sei que era ouvida, porque meus olhos, meu nariz e minha boca estavam tapados com a terra. Quando rezava, conseguia respirar."

Ela não sentia dor, apenas pressão na cabeça e no ombro direito. Geyse conseguiu acariciar as pernas da tia. "Sabia que ela estava morta, porque estava gelada. Não me arrependo um segundo sequer de ter passado aquela noite com ela." Geyse ficou soterrada das 3h30 às 11h. Foi resgatada por vizinhos.

Por volta das 23h, Almir Oliveira pensou em sugerir para Kátia Helena que dormissem na casa do patrão, mais segura. Repensou que era bobagem e cochilou. Acordou assustado, lá pelas 4h, com a intensidade da chuva no Campo do Coelho. Foi quando ouviu o barulho da casa desabando. Foi arrastado por alguns metros e perdeu a mulher de vista. Ela não gritava. Ele estava com terra e entulhos até o pescoço.

Com muito esforço, desvencilhou os braços e pôde alcançar dois galhos no que sobrou do telhado da casinha. Conforme ia se desenterrando, feria profundamente as pernas. Um relâmpago iluminou os escombros e Almir avistou o rosto da mulher, soterrada até a altura dos ombros, desacordada. O agricultor, de 46 anos, agnóstico, começou a orar. "Rezei para que mais raios viessem, para clarear a casa e eu poder resgatar ela." Eles não vieram e Almir esperou o dia nascer para, com a ajuda do patrão e de um vizinho, salvar Kátia Helena, lá pelas 6h30. "O que me salvou foi a vontade de sair. Se a gente se entrega, não sai, não."

O primeiro desabamento na casa de Maria de Fátima jogou Nicolas, de 6 meses, para longe do pai, Wellington Guimarães. Como Renata e a mãe não emitiam qualquer som, o rapaz sabia que tinha perdido a mulher e a sogra naquele momento. Sem conseguir se mover, mas respirando graças a um bolsão de ar que se formou no deslizamento, Wellington conseguiu ver que o filho estava vivo, protegido pelo edredom em que sua mãe o embrulhara antes de dormir. Ouviu também que os bombeiros já trabalhavam em seu resgate.

Um segundo deslizamento veio, soterrando os três homens que tentavam salvá-lo, mas o levando ao alcance de Nicolas. "Só pensava em Deus", disse.

O supervisor de hotelaria preferiu manter os olhos fechados, para ter mais sensibilidade do que acontecia ao seu redor. Não podia gritar, para não assustar o filho. Tirou a fralda do bebê, encharcada. Como um pássaro, deu de sua boca a pouca saliva que tinha na boca da cria. Sentia dores, mas não demonstrava. Aguardou. Por pelo menos 13 horas, Wellington esperou pelo resgate que, enfim, veio.

"Os depois". Na cama da casa da mãe, imobilizada, com o risco de perder o braço direito, Geyse já consegue rir. Procura não pensar naquela noite, tenta vislumbrar o que está por vir. Passou no vestibular para Enfermagem, mas ainda não pôde fazer a matrícula, porque os documentos estão isolados na casa que está isolada em uma rua isolada. Ela se recusa a ficar traumatizada.

Almir perdeu toda a sua plantação. Perdeu a casa. E se perdeu da mulher depois do resgate, já que cada um foi levado para um hospital. No dia 19, uma semana depois, acordou feliz com um bilhete de Kátia Helena, em que ela dizia estar bem, indo se abrigar em uma escola. "Vou te esperar lá", concluía a cartinha.

Almir ainda não sabe o que vai fazer. Sabe apenas que não quer voltar a morar naquele cenário de horror. "Tenho de pôr a cabeça no lugar. Primeiro, tenho de sair do hospital. Só sei que quem trabalha conquista."

Wellington chegou da Missa de 7.º Dia dos bombeiros que morreram durante seu resgate e foi dar comida a Nicolas, que tem dormido e se alimentado bem. Ele quer voltar a trabalhar, mas a imprensa não dá sossego.

Sente saudade de Renata, embora procure não remoer o que passou. Seu período de revolta já foi superado quando ele e a mulher perderam uma gestação de 8 meses, antes de Nicolas. "Agora, não me pergunto mais "por que" as coisas acontecem. Penso no "para quê", para tentar alcançar um entendimento."

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