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O que fazem as orcas após a menopausa

Orcas (Orcinus orca) têm uma peculiaridade reprodutiva. As fêmeas ficam férteis aos 12 anos e procriam até os 40. Após a menopausa, vivem mais 50 anos, geralmente morrendo aos 90 anos de idade. Mais da metade da existência dessas fêmeas é vivida na menopausa. Com os machos, a história é bem diferente. Eles iniciam sua vida sexual aos 12 anos, se reproduzem até os 45, e morrem em seguida. Dificilmente passam dos 50 anos. Por anos, pairava no ar a pergunta: o que fazem as orcas após a menopausa? Agora, um grupo de oceanógrafos descobriu a razão. E ela é nobre.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

21 Março 2015 | 02h04

A reprodução tem um papel importantíssimo na seleção natural e na evolução das espécies. Se um indivíduo não deixa descendentes, seus genes não passam para a próxima geração, e desaparecem da face da Terra. O mesmo ocorre com uma espécie. Aquelas que não foram capazes de se reproduzir rápido o suficiente já estão extintas. Por esse motivo, uma vez terminada a vida reprodutiva de um animal, ele deixa de contribuir para a sobrevivência da espécie. É por isso que a grande maioria dos animais morre logo após o fim do seu ciclo reprodutivo (em alguns insetos, isso é levado tão a sério que a morte ocorre imediatamente após o coito).

Indivíduos longevos não trazem vantagem para a espécie e, em muitos casos, competem por alimento com os animais em fase reprodutiva. As exceções são animais, como o ser humano, cuja sobrevivência dos pais após o nascimento dos filhos é importante para o sucesso reprodutivo deles, e para a sobrevivência da espécie. No nosso caso, como os pais ajudam os filhos por décadas após o nascimento, é fácil entender por que fêmeas capazes de viver pelo menos 20 anos após o final do período fértil foram selecionadas. Se elas morressem ao final de sua vida reprodutiva, os filhos mais jovens teriam menos chances de sobreviver.

Mas o que estaria acontecendo com as orcas fêmeas, por que elas teriam sido selecionadas para viver uma menopausa tão longa e serem tão mais longevas que os machos?

Na Costa Oeste dos EUA, no canal que separa a Ilha de Vancouver do continente, existe uma população de orcas que vem sendo estudada faz décadas. Como são carnívoras (você lembra da orca que comeu o tratador em um aquário na Flórida?), elas caçam os cardumes de salmão que passam pela região. Com binóculos e filmadoras, pesquisadores vêm acompanhando o comportamento dessas orcas faz mais de uma década. As orcas têm listras e outros detalhes coloridos nas barbatanas, o que permite que os pesquisadores identifiquem cada animal.

Eles também sabem em que ano o animal nasceu, seu sexo e quais são seus filhos. Ou seja, têm um banco de dados completo dessa população de orcas. Entre 2001 e 2009, eles filmaram 102 orcas, acompanhando o deslocamento do grupo enquanto caçava. Foram obtidas e analisadas 751 horas de vídeo.

As orcas se deslocam sempre em grupos, em uma formação de triângulo, com um animal na frente e os outros seguindo o líder. Cada grupo de orcas é uma grande família, os pais, seus filhos, netos e primos. O que os cientistas fizeram foi identificar em cada filmagem qual era a orca que estava na frente do grupo, liderando a caçada. E o que eles descobriram é impressionante. O líder é sempre uma orca mais velha, já na menopausa. Além disso, os cientistas mediram a quantidade de salmão que estava na área onde o grupo caçava (usando dados dos pescadores de salmão da região), e puderam demonstrar que, quanto mais velha a líder do grupo, maior a probabilidade de o grupo ser encontrado nas regiões com muito salmão.

Os resultados sugerem que as fêmeas mais velhas têm o conhecimento necessário para guiar o grupo em direção às melhores áreas de caça, garantindo assim uma melhor alimentação para seu grupo. Os cientistas acreditam que, por terem esse conhecimento e a capacidade de liderança, fêmeas cada vez mais velhas foram selecionadas ao longo das gerações.

Essa descoberta explica qual o papel das fêmeas mais velhas, seu valor para o grupo, e por que a longevidade foi selecionada positivamente ao longo de milênios. E, para nossa sociedade machista, é sempre bom lembrar que, pelo menos nas orcas, os machos são incapazes de cumprir esse papel e, por inúteis que são, morrem assim que deixam de ser capazes de se reproduzir.

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: ECOLOGICAL KNOWLEDGE, LEADERSHIP, AND THE EVOLUTION OF MENOPAUSE IN KILLER WHALES. CURR BIOL. VOL. 25 PAG. 746 2015

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