WERTHER SANTANA/ESTADÃO
'Brinquei de live, de transmissão de apresentações, mas são outras linguagens. Não supre nossa saudade e necessidade de palco', diz o ator Cassio Scapin WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Aniversário de São Paulo: O que esperar da cidade no pós-pandemia?

No aniversário da capital paulista, moradores contam o que querem fazer quando o vírus estiver sob controle

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

Aos 467 anos, a ciência presenteou São Paulo com uma vacina. A partir de agora, temos muitos meses para usar esse “brinquedo” novo em nossos braços. É ela, a vacina, quem vai nos proporcionar um próximo aniversário mais animado, com mais amigos e abraços apertados. Enquanto isso, o jeito é se contentar com comemorações online.

Mas a perspectiva de um futuro sem as amarras da pandemia do novo coronavírus já está mexendo com a cabeça de quem faz planos para depois do fim desse pesadelo. Para falar de esperança e projetar uma vida pós-imunização, o Estadão conversou com artistas, produtores culturais e pessoas que vivem a cidade todos os dias, com muita intensidade. São eles que formam as várias facetas de São Paulo, a maior metrópole da América do Sul. 

Aqui, contam o que perderam durante a pandemia e falam também sobre os sonhos de um amanhã sem protocolos de isolamento social ou restrições de circulação. Voltar aos palcos, passear pela cidade, tomar um café na padaria e brincar o carnaval estão entre os desejos para o nosso “próximo normal”. Há também quem pretenda apenas bater uma bolinha na várzea. 

Que chegue logo aos 468 anos. Em 2022, com vacina, a festa tem tudo para ser melhor.

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‘Pensar na vacina, me rejuvenesce. O carnaval será lindo’

As irmãs gêmeas Ivone e Ione da Conceição do Nascimento passam a maior parte do tempo dentro de suas casas – saindo apenas para o essencial e inadiável. "Sinto falta das minhas amigas da escola de samba", diz Ivone

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

Esse ano não tem carnaval – pelo menos não em fevereiro. A essa altura, as irmãs gêmeas Ivone e Ione da Conceição do Nascimento, 75 anos, já estariam vivendo a vida do barracão, dos últimos preparativos e das conversas animadas sobre a ala das baianas na escola do coração.

Moradoras do bairro de Grajaú (onde são praticamente vizinhas), Ivone e Ione passam a maior parte do tempo dentro de suas casas – saindo apenas para o essencial e inadiável. “Sinto falta das minhas amigas da escola de samba. Lá, o ambiente é bom. E a gente recebe o carinho de outras baianas”, falou Ivone. “Ah, além da escola, sinto falta da cervejinha. Mas fico em casa, meu companheiro tem 84 anos e precisa se cuidar. Eu sou hipertensa, mas graças a Deus estou passando sem o vírus”, disse Ione.

As gêmeas sabem que, por mais que demore, um dia o carnaval vai chegar. “Pensar na vacina, me faz rejuvenescer. Já me imagino na avenida e as pessoas me assistindo. Vai ser um carnaval lindo”, comentou Ivone. “A fantasia já está esperando na minha sala. Não vejo a hora de rodar de novo. Depois da vacina, quero de novo minha avenida”, completou Ione.

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'Precisamos esperar, mas vamos subir a ladeira’

O poeta Sérgio Vaz aguarda a vacina para continuar a frequentar São Paulo e retomar o projeto que abriu as portas e descobriu talentos literários na periferia da cidade

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

O poeta Sérgio Vaz, 56 anos, praticamente não sai de casa. Ele aguarda a vacina para continuar a frequentar São Paulo (hoje vive em Taboão da Serra) e retomar o projeto que abriu as portas e descobriu talentos literários na periferia da cidade: a Cooperifa.

Neste ano, a Cooperifa completa 20 anos. Em um mundo pré-pandemia seria razoável imaginar que dezenas de saraus estariam acontecendo no Zé Batidão (sede da Cooperifa) – assim como shows e outros eventos. Mas, infelizmente, a festa vai ter de esperar um pouco.

“Moro em Taboão da Serra e, com a pandemia, ficou difícil até de ir pra São Paulo. Além disso, o trabalho da Cooperifa é nas ruas, bares e escolas. A Cooperifa é um lugar de abraços. Por isso, precisamos esperar para retomar”, falou Vaz.

Vaz diz ter ‘sangue nos olhos’ para retomar o projeto. “Vamos subir a ladeira de novo. Quero ir à Cooperifa, curtir um bom samba, ouvir o barulho do tantã e bater com a palma da mão”, disse. “Além disso, quando a pandemia acabar, também quero voltar à várzea para bater uma bolinha”, completou. Vaz afirma que, daqui por diante, precisamos chorar os nossos mortos e levantar os vivos.

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‘Centro é um lugar sagrado, frequento desde pequeno’

Nada mais característico do que essa ‘animação de padoca’, um programa tipicamente paulistano não só nas primeiras horas do dia. Esse é um dos cenários que fazem falta na vida do músico Maurício Pereira

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

Aquele cafezinho com os amigos, o barulho das xícaras, a conversa improvisada e os encontros improváveis de uma padaria, carinhosamente chamada de ‘padoca’ pelos paulistanos. Esse é um dos cenários que fazem falta na vida do músico Maurício Pereira, 61 anos, durante a pandemia do novo coronavírus

Nada mais característico do que essa ‘animação de padoca’, um programa tipicamente paulistano não só nas primeiras horas do dia. Mas, além disso, outro desejo com a cara de São Paulo frequenta a cabeça de Pereira praticamente todos os dias.

“Eu sempre fui de andar no centro. Sempre tive alguma coisa pra fazer no centro de São Paulo. Vou de coletivo, de ônibus, metrô... Sinto falta do Largo do Patriarca, de olhar o Anhangabaú. São lugares sagrados pra mim, lugares que frequento desde pequeno”, revelou Pereira.

Assim, a São Paulo de Maurício Pereira no pós-pandemia vai ser um recomeço, uma retomada, dos hábitos prosaicos e maravilhosos proporcionados pela própria cidade. 

“Claro, também quero retomar os shows com plateia, o corpo a corpo e pegar a estrada”, lembrou Pereira. 

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‘Atores estão ávidos pelo reencontro com o público’

Com 38 anos de carreira, Cassio Scapin diz que a arte foi atingida no coração pela pandemia. O ator, tão logo a epidemia acabe, almeja “o palco imediatamente”

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

A saudade de subir ao palco e de se apresentar para uma plateia não se impõe sobre a necessidade coletiva. “Para os teatros abrirem é preciso que o País inteiro também se recupere. Falta oxigênio em Manaus. É difícil falar em teatro no meio dessa tragédia”, desabafou Cassio Scapin, 56 anos.

Com 38 anos de carreira, sabe da força e importância da arte em um momento como esse. “Em todo esse tempo de carreira, é a primeira vez que não trabalho. Digo, no sentido do palco, brinquei de live, de transmissão de apresentações, mas são outras linguagens. Não supre nossa saudade e necessidade de palco”, falou o artista. 

Scapin diz que a arte foi atingida no coração pela pandemia. E, especialmente, o teatro. “Foi a primeira coisa a fechar e será a última a abrir”, disse. “Teatro é essencialmente a arte do encontro, do coletivo”, completou.

O ator, tão logo a epidemia acabe, almeja “o palco imediatamente” – mesmo que tenha que começar uma produção do zero. “Produzir com o que tenho, com o meu acervo. O que desejo é que eu e todos possamos voltar a produzir cultura”, garantiu Scapin. “Atores e atrizes estão ávidos pelo reencontro com o público.”

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‘Cantar presencialmente é o nosso chão’

“Sentimos muito de perto o drama da covid. Esse é um período de muito cansaço e atenção”, disse José Palomares, de 66 anos, o integrante mais antigo do Coral Paulistano

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

Bem no início da pandemia, o Coral Paulistano sentiu o baque mais grave da covid-19: a maestrina Naomi Munakata morreu aos 64 anos, vítima do coronavírus. “Sentimos muito de perto o drama da covid. Esse é um período de muito cansaço e atenção”, disse José Palomares, 66 anos, o integrante mais antigo do coral.

Com 36 anos de profissão, Palomares disse que, mesmo sem a possibilidade de se apresentar presencialmente, pode exercer seu ofício pelos meios digitais. “Sinto falta do processo, das minhas caminhadas. Sempre fui caminhando até o teatro. Eu chegava aquecido, pronto para cantar. E ainda ficava em forma. Na pandemia, a gente acaba ganhando barriga”, brincou.

Da crise, Palomares criou oportunidades – e realizou projetos semanais, cantando em casa, fazendo poemas/canções. “Mas cantar presencialmente com o público é insubstituível e o nosso chão”, disse.

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‘Sou o tipo de pessoa que fica até o restaurante fechar’

“Sinto falta de festa, dos eventos presenciais", diz a relações públicas e influenciadora digital Clarissa Wagner. Nos planos dela está a retomada dos trabalhos presenciais, festas e jantares (sem horário para acabar)

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

Antes da pandemia, a relações públicas e influenciadora digital Clarissa Wagner, 34 anos, foi em 30 casamentos em um ano. Nos últimos 10 meses de pandemia, o total de casamentos é igual a zero. “Sinto falta de festa, dos eventos presenciais. Sou o tipo de pessoa que sai para jantar com o marido ou amigos e que fica até o restaurante fechar.”

Como influencer e RP, Clarissa atua em segmentos que foram muito afetados pela pandemia, como gastronomia, moda e beleza. “A gente precisou se adaptar. Tem sido duro, mas também tem aberto várias oportunidades. Muitas soluções foram encontradas dentro do ambiente virtual. As redes sociais é o lugar onde os mais jovens vão procurar o que está acontecendo.” 

Nos planos de Clarissa está a retomada dos trabalhos presenciais, festas e jantares (sem horário para acabar). Outra expectativa para 2022 é o carnaval. Ela lembra de ter lido que a primeira folia após a Gripe Espanhola foi mais intensa. “Acredito que o nosso carnaval depois da vacinação será incrível.”

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‘Sinto falta do contato com os clientes, da aglomeração’

A bartender Stephanie Marinkovic teve covid-19. “Agora, recuperada, sinto falta do carinho humano e da troca que existe nos bares", diz

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

Stephanie Marinkovic, 32 anos, é uma bartender premiada e que, assim como outros profissionais da área, vive do seu olfato e paladar apurados. Em dezembro, um pouco antes do Natal, ela acordou um dia e... “Estava com febre e sem paladar e olfato. Corri para o hospital e, pronto, estava com a covid-19. Quando você trabalha com coquetelaria, está sempre degustando e prestando atenção nos sabores. Mas acordei sem conseguir sentir nada”, lembra Stephanie.

Felizmente, depois de duas semanas de isolamento, a febre foi embora e olfato e paladar voltaram (“com tudo e melhores”, segundo ela). “Agora, recuperada, sinto falta do contato com os clientes, da aglomeração, do carinho humano e da troca que existe nos bares”, disse.

Quando a pandemia for controlada, Stephanie quer voltar a “nadar” com saúde. Sim, “nadar”. Mas na língua dos bares, “nadar” tem outro significado. “Nadar” é se atrapalhar com os pedidos – o que normalmente ocorre quando os bares estão cheios.

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'Sonho que estou cantando para uma casa cheia'

Thobias da Vai-Vai sente falta do bar na esquina da Ipiranga com a São João. "Infelizmente, sem shows não fecha a conta. É o nosso ganha pão", lamenta

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

Todo mundo sabe que São Paulo tem uma esquina imortalizada pelos versos de Caetano Veloso, o que poucos desconfiam e que ao passar por ela, alguma coisa também acontece no coração de Thobias da Vai-Vai, 62 anos. 

"O  lugar que mais sinto falta de frequentar é o Bar Brahma, na esquina da Ipiranga com a São João. Além de ser um ponto histórico, faço shows na casa desde 2001, quando ela reabriu", contou Thobias. "Infelizmente, sem shows não fecha a conta. É o nosso ganha pão", completou.

Com 40 anos de carreira, Thobias diz esperar a vacina com ansiedade e, brincando, diz que "tomaria uma em cada braço ou em cada nádega". "Músico não faz pé de meia. Por isso, quando tudo isso acabar, sonho em retomar meus shows, sonho que estou cantando para uma casa cheia", confessou.

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'Precisamos sair dessa mais humanos e solidários'

O líder comunitário Gilson Rodrigues destaca a rede de solidariedade criada em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. A pandemia impôs barreiras a uma das principais características da comunidade. "Sentimos falta da proximidade", diz

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

Paraisópolis tem sido um exemplo de enfrentamento da pandemia do coronavírus. Na comunidade da zona sul de São Paulo, foi criado aquilo que pode ser chamado de rede de solidariedade. "A cada 50 casas, nós indicamos um presidente de rua - a pessoa responsável por ajudar a população a tentar manter protocolos de distanciamento e higiene. São 758 presidentes de rua, que também lutam pela saúde e educação dos seus vizinhos", disse o líder comunitário Gilson Rodrigues, 36 anos." Muita gente dizia que tinha tudo pra dar errado aqui em Paraisópolis. Mas esse foi um dos fatores do nosso sucesso no combate à pandemia", completou.

"As favelas não foram as mais olhadas nesta pandemia, pouco foram citadas nos discursos. Muita gente não entendia o que significava lockdown ou home-office. Mas a maioria descobriu que a visibilidade e nossa força se dá por meio de ações práticas", comentou o líder comunitário.  

Rodrigues contou que as ações culturais na comunidade foram as mais impactadas pelo vírus. "Temos o projeto da orquestra, do balé e da nossa escola de samba de Paraisópolis. Tivemos que parar por um período, mas, utilizamos tecnologia para manter alguma atividade. Agora, vamos, aos poucos, retomar os eventos presenciais", disse.

Rodrigues afirmou que a pandemia, temporariamente, impôs barreiras a uma das principais características da comunidade que representa. "Sentimos falta da proximidade, de bater na porta do outro para pedir açúcar. Somos uma comunidade muito nordestina, sentimos falta das festas, do São João e do carnaval", contou.

Mas para o pós-pandemia, Rodrigues quer mais do que diversão, ele quer que o exemplo da luta de Paraisópolis pela vida seja um fator de "união do Brasil". " A gente só sai da crise juntos. Somos todos brasileiros e precisamos sair dessa mais humanos e solidários", disse.

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'Minha saudade é bem simples: encontrar amigos, ver um show, tomar cerveja e trocar ideias'

O guitarrista Edgard Scandurra pretende retomar a experiência de shows pequenos e proximidade com o público

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h00

O circuito alternativo de shows e eventos culturais foi um dos setores mais atingidos pela pandemia. Sem a possibilidade de eventos presenciais, muitos lugares já fecharam ou irão fechar suas portas definitivamente. Não à toa, o guitarrista Edgard Scandurra, 58 anos, escolheu ser fotografado na Casa do Mancha, um dos lugares mais emblemáticos da cultura underground da cidade. "Liguei para o Mancha e ele não vai abrir mais, mesmo depois do fim da pandemia. Não teve como segurar", disse Scandurra.

 

"Minha saudade é bem simples. É encontrar amigos, ver um show, tomar cerveja e trocar ideias. Por isso, a Casa do Mancha veio na minha cabeça. Os shows ao vivo são a nossa maior fonte de trabalho. Quando as coisas voltarem ao normal, quero retomar essa experiência de shows pequenos e proximidade com o público", disse Scandurra.

Assim como outros artistas, o maior legado de Scandurra nesse período foi o de não ter parado. Durante esse período, ele lançou um trabalho inteiramente gravado de forma caseira, o "Jogo das Semelhanças - Gravações de Celular". Os 40 anos de carreira, por conta da covid, também será celebrado por meio de lives que acontecerão no mês de fevereiro. "Por mais paradoxal que pareça, esse momento de isolamento tem sido muito produtivo em termos de produção", contou.

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